Muito divertido! Admito que não me puxou tanto como o Guards Guards, mas acho que é um ótimo ponto para segunda livro lido do universo do Discworld.

Penso que, como um leitor português, muitas das piadas passaram-me um pouco ao lado por não ter as peças de Shakespear presentes na mente e acho que foi o único factor que afetou a minha experiência de leitura “negativamente”. Fora isso, as personagens e o enredo são espectaculares e a química entre as três bruxas é o ponto mais forte sem dúvida. Pontos extra para a lendária Granny Weatherwax.

“The duke had a mind that ticked like a clock and, like a clock, it regularly went cuckoo.”

Uma história épica e violenta na qual é muito difícil empatizar com qualquer uma das personagens. A total falta de empatia ou auto reflexão, e até algum orgulho, da personagem pessoal pelas horrores que comete é apenas estranho.

O Bernard Cornwell quer que o leitor considere a sua personagem principal, um herói. Infelizmente, Uhtred é um clássico macho violento, o qual acredita que na guerra vale tudo. Eu não teria problema com isto se as justificações mentais fossem apresentadas de uma forma interessante, com alguma reflexão ou pensamento subjacente, contudo, para minha decepção, o autor apresenta todos estes horrores como perfeitamente naturais e aceitáveis. Ainda mais, as personagens que recebem as caracterizações mais heróicas são as mesmas que rapidamente violam, matam sadicamente e torturam inocentes. Tudo por “Valhalla” e o “Odin” e “Thor” e bla bla bla, o clássico trope do vikings é que são fixes.

Eu entendo que o livro está a ser narrado do ponto de vista de uma criança, contudo, em muitos pontos do livro, o narrador refere que tudo isto são memórias distantes, ou seja, permite-nos concluir que ele é na realidade, um adulto a relatar a história da sua infância. Isto, por sua vez, torna a tarefa de perceber a personagem principal, o narrador, muito complicada.

Por outro lado, a história é um verdadeiro espectáculo de ação, traição, fúria, amor, guerra, sangue e muita porrada. O que a torna inevitavelmente numa leitura muito divertida e um autêntico page-turner.

Um livro absolutamente incrível. Uma história tão horrível, tão cínica, tão triste e tão bem escrita. Quase que se conseguir sentir as lágrimas a escorrer na cara da narradora ao contar a história.

Por mais louco e surreal que o mundo em que o livro se passa é, consegue-se encontrar paralelismos aterradores com o mundo real. Há uma passagem que me chocou particularmente, direcionada pelo comandante, com raiva, à personagem principal, Offred, ao lembrar o mundo antigo, (o mundo real que (ainda) vivemos) que podia ter sido dita por um guru da manosphere:

“Think of the trouble they had before. Don't you remember the singles' bars, the indignity of high school blind dates? The meat market. Don't you remember the terrible gap between the ones who could get a man easily and the ones who couldn't? Some of them were desperate, they starved themselves thin or pumped their breasts full of silicone, had their noses cut off. Think of the human misery.(...).This way they all get a man, nobody's left out. And then if they did marry, they could be left with a kid, two kids, the husband might just get fed up and take off, disappear, they'd have to go on welfare. Or else he'd stay around and beat them up. Or if they had a job, the children in daycare or left with some brutal ignorant woman, and they'd have to pay for that themselves, out of their wretched little paychecks. Money was the only measure of worth, for everyone, they got no respect as mothers. No wonder they were giving up on the whole business. This way they're protected, they can fulfill their biological destinies in peace”.

A realidade pode ser moldada de tantas maneiras. Nós gostamos de pensar que a história da humanidade é um caminho de progresso, que a a luta feminista é desnecessária, que o mundo está bem para elas e pera eles. É confortável pensar assim.

O mundo real mostra-nos algo diferente. Basta ligar a televisão ou aceder à internet e ver as massas raivosas e vocais de homens que se sentem injustiçados pelo poder que sentem ter perdido sobre a mulheres. Muitos destes homens são decisores políticos com poder e vontade para “ensinar” o lugar onde, na mente deles, a mulher, deveria estar.

Cabe a tod@s nós lutar e educar. Temos de caminhar para um mundo melhor, porque, sem notarmos, e mais facilmente do que pensamos, podemos dar por nós numa República de Gilead e aí será tarde demais.

Offred para o leitor, algumas páginas depois da conversa intensa com o comandante :

“I'm sorry there is so much pain in this story. I'm sorry it's in fragments, like a body caught in crossfire or pulled apart by force. But there is nothing I can do to change it.
I've tried to put some of the good things in as well. Flowers, for instance, because where would we be without them?”

Tão bom! Este livro apanhou-me completamente despercebido!
A história é fantástica, o universo é fascinante e a comédia é do melhor!
Eu estava à espera de uma comédia num setting de fantasia... Nunca pensei que ia ler uma história emocionante com personagens detalhadas e multifacetadas num mundo tão meticulosamente criado!

O Terry Pratchett escreve como um mestre que não se leva a si próprio demasiado a sério. Mas ocasionalmente há passagens que têm tanto de profundo como hilariante:

“Never build a dungeon you wouldn't be happy to spend the night in yourself. The world would be a happier place if more people remembered that.”

Estou viciado, preciso de mais Discworld. Se fizessem um filme com esta história, esgotava salas no mundo todo.

6 estrelas em 5!

C.S. Lewis conta uma versão do conto de amor clássico de Eros e de Psyche com a atenção voltada, não para o casal de deuses, mas para a irmã que condena Psyche a ser expulsa do palácio dos céus de Eros.

O escritor claramente não achou que fizesse sentido uma irmã condenar outra apenas por ciúmes, portanto criou neste livro uma história profundamente solidária a irmã que trai. Ao longo do livros, C.S. Lewis levanta belas reflexões como o que é realmente gostar de alguém e qual é a razão para os atos horríveis que infligimos naqueles aqueles mais amamos. Tudo isto numa prosa que tem tanto de bela como confusa, por vezes, parece que o próprio C.S. Lewis não sabia bem onde queria chegar e acaba por se formar uma salganhada de moralismos.

Não consigo evitar gostar muito de reinterpretações de clássicos da mitologia, e neste livro está uma belíssima releitura de um conto que merecia um ponto.

Uma história que tem tanto de belo como devastante. Um olhar profundo a humanista a uma comunidade extremamente estigmatizada e diabolizada pelo mundo. A estrutura livre do livro deixa o leitor às vezes questionar-se qual foi a mensagem daquilo que acabou de ler. Alguns capítulos quase passam por violência gratuita, porém talvez seja essa a intenção da escritora, mostrar o absurdo de tudo isto.

A Sosa Villada consegue escrever uma história lindíssima os maiores horrores. Pessoalmente, tendo a dispensar os elementos de realismo mágico típicos da literatura sul-americana, contudo, nesta história, ajudam a realçar a agonia e o sofrimento das personagens de uma maneira que funciona.

Não é um livro para leitores sensíveis mas sim para leitores que querem sentir.

Isto é um livro, que deve ser lido em intervalos de meia em meia hora, com uma enciclopédia de física avançada ao lado. E não digo isto como uma crítica negativa! É um excelente exemplo de Hard Sci-Fi bem feita.

O Blindsight consegue criar um ambiente de terror cósmico constante sem troques baratos. As profundas reflexões que Peter Watts deixa ao longo do livro sobre a natureza da consciência será talvez o mais aterrorizador que o livro tem.

É certo que o livro é complicado de ler, mas em certas alturas, fica apenas incompreensível.

As personagens não são relacionáveis, ou mesmo interessantes (ao não ser claro, a um nível tecnológico e conceptual), servindo apenas como veículo do escritor para os escritor conduzir as suas reflexões. Porém estás são tão profundas, bem construídas e arrepiantes que fazem este livro uma leitura essencial de Cosmic Horror.

Um absoluto monumento em formato literário. Provavelmente um dos livros mais labirínticos e, ao mesmo tempo, importantes, algumas vez escritos.

As constantes lutas intelectuais entre personagens sobre temas complexos e a exploração minuciosa de suas psiques elevam esta obra ao patamar merecido de romance fundamental da literatura, um labirinto filosófico que desafia e transforma o leitor.
Cristianismo, Nihilismo, Justiça, mas sempre como uma moral profunda humanista.
Ninguém escreve como o Dostoyevsky.

Absolutamente essencial para todo o homem, mulher, irmão, irmã, pai, mãe que quer compreender a extensão da violência do sistema patriarcal no homem.
Recomendo vivamente para qualquer homem que se queira conhecer melhor a si próprio e qualquer pessoa que queira compreender a fundo os homens nas suas vidas.
Só reconhecendo as promessas falsas do patriarcado, trabalhando diariamente para as destruir e reconstruir um novo e verdadeiro eu, e ainda, sendo aceites de braços abertos pelo mundo, só aí, os homens podem mudar para melhor.

Um interessantíssimo conjunto de contos que giram em torno de José Régio e o ocultismo! Muito bom!

Nunca um livro me prendeu tanto. Uma história tão inspiradora quanto trágica com um desenlace fantástico e personagens inesquecíveis.
São livros como este que tornam o leitor num amante da literatura.

Um livro feel good muito bem escrito com uma mensagem simples. Falha ao não explorar mais as ideias que apresenta por medo de ser desconfortável. No entanto, a sociedade otimista, pós capitalista e ecologista retratada neste livro é uma brisa de ar de puro. É uma alternativa ao clássico futuro distópico que somos constantemente expostos na ficção. O clássico: tudo corre mal e os humanos não se conseguem entender nunca. A Becky Chambers apresenta o cenário contrário “E se os humanos se entendessem e construíssem um mundo melhor para todos?”.

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Uma excelente porta de entrada para o estudo do capitalismo e os seus efeitos na cultura. O Mark Fisher aplica exemplos muito acessíveis, concretos e bem argumentados para como o nosso sistema económico contaminou a cultura e a sociedade com um nihilismo e uma submissão total ao modelo capitalista e a forma como qualquer resistência é oprimida pelo próprio modo como o sistema está estruturado.
A forma como Fisher apresenta o dilema chega mesmo a ser desesperante, passa um pouco a ideia que tudo não passa de um grito de ajuda para o vácuo. Um certo pessimismo desesperante flutua sobre o livro e por vezes passa a ideia que não há mesmo solução. O que enfraquece um pouco a argumentação de Fisher por ser precisamente esta inaptidão de nos movermos que ele critica. Acaba, contudo, o ensaio como uma nota de esperança:


“The long, dark night of the end of history has to be grasped as an enormous opportunity. The very oppressive pervasiveness of capitalist realism means that even glimmers of alternative political and economic possibilities can have a disproportionately great effect. The tiniest event can tear a hole in the grey curtain of reaction which has marked the horizons of possibility under capitalist realism. From a situation in which nothing can happen, suddenly anything is possible again.”

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