
Livros que acompanham um personagem aprendendo um idioma são alguns dos meu preferidos, como “Budapeste” do Chico Buarque e “The Idiot” da Elif Batuman.
Em “Greek Lessons” (희랍어 시간) da autora sul-coreana Han Kang, ainda sem tradução no Brasil, acompanhamos dois personagens: uma mulher que perdeu a fala depois de perder a mãe e a custódia do filho. Ela decide então se inscrever numa aula de grego antigo, língua que não compartilha nada em comum com a sua língua materna que ela acabou de perder.
Seu professor de grego antigo por sua vez está perdendo a visão por conta de uma doença degenerativa. Tendo emigrado pra Alemanha com a família quando adolescente e sentindo falta da sua língua materna, ele volta pra Coreia 17 anos depois, perto de perder a visão por completo.
Por mais que as observações linguísticas do livro sejam fantásticas e mostrem o poder da escrita de Han Kang, autora de “A vegetariana”, o livro de menos de 200 páginas não se aprofunda na história e complexidade dos seus personagens, o que me impediu de conectar com eles.
Li a versão em inglês, traduzida por Deborah Smith e Emily Yae Won.
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Minha motivação para ler esse livro foi o fato de que, trabalhando como tradutora há mais de 10 anos, também me sinto “entre línguas”.
Em pouco menos de 60 páginas, Sylvia Molloy conta de uma forma cativante a experiência de ser uma pessoa trilíngue - nascida na Argentina de avós imigrantes ingleses e franceses, e tendo se mudado pros Estados Unidos mais tarde. Ao escrever relatos pessoais da sua vida e de outras pessoas bilíngues, Sylvia nos dá um gostinho de como funciona a mente de uma pessoa que vive entre línguas desde muito cedo até mais tarde na vida (como na história de uma amiga sua bilíngue que sofre de Alzheimer).
Ler as histórias e casos da autora me fez refletir sobre a minha própria experiência “trilíngue” tardia, não tão natural como a da Sylvia. Tive o privilégio de ser colocada num curso de inglês pelos meus pais e tomei tanto gosto que decidi seguir os estudos da língua inglesa por conta própria na faculdade de Letras. Anos depois, saí do Brasil pra morar na Bélgica, um país que é trilíngue por si só, tendo o francês, o flamengo e o alemão como línguas oficiais. Lá eu vi pela primeira vez que esse trilinguismo não se dá sem atritos. Precisei aprender o francês, a língua mais falada em Bruxelas e usada nos órgãos públicos e de imigração.
Sylvia Molloy me fez pensar na língua para além da comunicação, mas no que significa ser uma pessoa no mundo: o que os nossos nomes, sobrenomes e sotaques representam no espaço que ocupamos.