Martin Amis é um cabrão. Goza com pessoas de bem. Goza com as personagens. Goza com a linguagem. Goza com quem lhe editou o livro. Goza com os leitores. Só não goza com ele próprio. Por isso é um cabrão.
O primeiro Amis que li foi o Yellow Dog. Gostei sem reservas. Corrijo. Adorei sem reservas. Tão, tão bom, o filho da puta do livro. London Fields podia ser quase tão bom, mas o que lhe acontece nesse quase é o suficiente para, a dada altura, dizer-lhe “não estou com paciência para te aturar”. Amis sabe que domina completamente a prosa que escreve. Atira-nos isso à cara página sim, página sim. Também sabe que domina a arte de criar personagens que não se esquecem. Atira-nos isso à cara... bem, deu para perceber. O que Amis não domina neste London Fields (mas que domina no Yellow Dog) é a capacidade de se refrear e fazer o livro andar para a frente. A dada altura torna-se masturbatório.
À superfície, London Fields é apenas a história de um homicídio, uma que diz logo ao início quem mata quem e porquê. Só não diz como. Isto à superfície. Lá no fundo é outra coisa. É um livro sobre pessoas que não têm lugar no mundo. Com menos piruetas, London Fields era um livro quase perfeito sobre pessoas que não têm lugar no mundo. Assim é só um livro irritante que deixa aquele amargo de boca de coisa que tinha tudo para nos deixar com um sorriso estúpido na cara, mas não deixa.
O que é maravilhoso em Oliver Sacks é que ele fala de pessoas. Sim, pessoas com “doenças”, doenças neurológicas que, sem dúvida, passamos a conhecer com enorme profundidade e detalhe, mas sempre através da presença da doença numa pessoa. Nota-se que ele se apaixona pelos seus casos, não só por cada pessoa no caso, mas também pelas características do caso. Ou seja: apaixona-se pela pessoa com a doença, pela vida da pessoa, pela rotina da pessoa, pelo modo como os outros interagem com a pessoa, pelos objectos, pelos lugares, pelas profissões. Para além disso, Sacks escreve muito bem, com um cunho pessoal forte, que se aproxima da literatura sem se esquecer de que é um relato médico-científico. E depois há toda a parafernália de situações surpreendentes e impossíveis de “imaginar”, como a possibilidade de ser-se cego sem disso se dar conta. Neste ponto, é um maravilhoso menu de desbloquadores de conversa. Evidentemente recomendado.