Textos fantásticos, pesquisas excelentes, boa apresentação, e tudo isso dentro de uma forma extremamente agradável - livro lindo, muito bem diagramado e impresso, com páginas amareladas gostosíssimas. Excelente.

O livro é tão cansativo quanto importante, e enquanto a descrição dos fatos é interessante e abrangente, a abordagem do fenômeno é capenga. As impressões que ficam são:

1) Pouco rigor teórico. Não parece haver uma base firme metodológica sobre a qual o olhar dela se sustenta. Ela parece convocar autores pra vir ajudar a fazer o argumento daquele momento quase que procurando no google (hehe) que autor já falou sobre o assunto; é uma salada. E depois que vi que ela lida mal com um conceito de Arendt, começo a desconfiar da qualidade da leitura que ela faz dos autores que mobiliza. Já vi, por exemplo, leituras interessantes de Skinner [o psicólogo behaviourista] que vão na contramão da interpretação dela. No vácuo, e considerando os trechos que ela apresenta, tendo a concordar com a visão dela, mas os deslizes me deixam na dúvida. A literatura que ela cita pra falar da ligação entre uso de redes sociais e depressão / transtornos de saúde mental vem sendo contestada também.

2) O ranço com o desleixo dela se intensifica quando percebo que há uma enorme insistência na invenção de conceitos - há um milhão deles, não só ""capitalismo de vigilância""; tudo ganha um novo nome técnico -, sob a sombra da ideia de que se está mesmo falando de algo novo, e aí fica aquela dúvida se isso não decorre apenas da vontade de acumular prestígio acadêmico. Mas aí eu acho (vide o ponto abaixo, mais decisivo) que isso nem é tão nefasto assim e dentro da construção que a autora faz, faz sentido.

3) O problema contudo é justamente essa construção que ela faz. Pra mim, o hiperfoco dela nessa camada do capitalismo atual serve pra deixar de olhar criticamente para o capitalismo como um todo, que é a óbvia origem deste fenômeno específico que ela captura.

Inclusive o último capítulo dela é dedicado a responder à pergunta ""mas isso não é só o capitalismo?"", e ela responde muito, muito, mas MUITO mal. Em parte porque a resposta dela não dá conta do fato de que se o capitalismo de vigilância for o desenvolvimento do capitalismo de antes, não adianta querer combater só o de vigilância sem atentar para como todo o poder que lhe deu origem foi concentrado em primeiro lugar (e que torna, portanto, tão difícil de combater o de vigilância). Ela explica (e ainda o faz mal) a especificidade do aspecto da vigilância, o que justifica a distinção conceitual - em outras perguntas, ela pretende responder à pergunta interpretando ela num sentido restrito, acadêmico, como se a moral da pergunta fosse ""por que você precisa de um novo conceito?"". A questão não é essa. Ao dizer pra mim mesmo, durante a leitura, o tempo todo, ""mas gente, isso é só o capitalismo mesmo..."", eu não estava negando a especificidade do que ela está descrevendo, mas apenas observando que isso é a consequência óbvia de todos os imperativos da lógica do capital, e que portanto não é uma quebra com essa lógica que justifique ficar tão abismado com o que está acontecendo sem entender que esse sempre foi o caso.

E aqui vem outra razão pela qual a resposta dela é muito ruim. Na p. 470 em particular há um parágrafo muito emblemático quanto aos defeitos da abordagem dela:

Industrial capitalism depended upon the exploitation and control of nature, with catastrophic consequences that we only now recognize. Surveillance capitalism, I have suggested, depends instead upon the exploitation and control of human nature. The market reduces us to our behavior, transformed into another fictional commodity and packaged for others' consumption. In the social principles of instrumentarian society, already brought to life in the experiences of our young, we can see more clearly how this novel capitalism aims to reshape our natures for the sake of its success. We are to be monitored and telestimulated like MacKay's herds and flocks, Pentland's beavers and bees, and Nadella's machines.

Há tantas coisas curiosas aqui. Quer dizer, o capitalismo explorava e controlava a ""natureza"", não os trabalhadores! Incrível! Só agora nós reconhecemos - não, não, socialistas libertários, e principalmente povos indígenas colonizados ao redor do mundo, jamais reconheceram os problemas que a exploração da natureza gerava. Tudo bem, talvez ela esteja querendo dizer ""nós"" no sentido da opinião pública majoritária, mas ainda assim isso passa por essa divisão moribunda entre natureza e natureza humana. E embora ela justifique essa questão da especificidade do que ocorre agora como uma intensificação muito brutal dessa lógica, ela é incapaz de reconhecer onde a lógica começou. É muito curioso como acabo de escrever uma tese sobre como anarquistas criticam a conformidade criada por esquemas de soberania/dominação (Estado-capital-patriarcado-supremacismo branco) usando inúmeras vezes da metáfora maquínica, de que querem de fato nos transformar em máquinas.

É essa falta de veio crítico, que nasce da adoção dos conceitos acríticos do mainstream, que faz com que a análise dela seja tão ruim, tão incompleta. Ela dá importância demais ao fato de que no modelo chinês é o Estado que leva adiante a vigilância, enquanto que no ocidente esse poder passa por outras redes (em outro momento ela também explica porque esse poder instrumental não é totalitário mas é tão ruim quanto, etc). Mas são adaptações diferentes, baseadas em diferentes contextos socio-históricos, do mesmo impulso. Compreender as interpenetrações em termos de projeto social, de visão de mundo, entre Estado e capital, ajudam a explicar como que os Estados faziam antes o que agora se tornou inaceitável para que eles façam (uma certa vitória progressista); no entanto, o MESMO projeto continua agora com base na mesma ideologia liberal que atacou os Estados mas nos inoculou para essa vigilância aplicada a partir de entidades privadas. O fato é que esse poder instrumental todo sempre foi o impulso do binômio Estado-capital, e não enxergar essa compatibilidade de projetos faz com que se gerem todas essas reivindicações de que estamos olhando pra uma coisa completamente diferente.

Evidência dessas interpenetrações, de que não podemos entender esse fenômeno sem entendê-las, é um dos grandes calcanhares de Aquiles da análise dela: esse foco enorme nas novas formas de poder, que realmente atuam por ""incentivos"" no estilo individualista-mercadológico, mas que simplesmente não teriam nenhuma forma de ocorrer sem o músculo estatal (p. ex. de defesa da propriedade privada) que fornece as fundações do mercado em si. O jeito como ela fala da conexão entre liberdade e ignorância no contexto do mercado está destinado ao fracasso analítico porque a premissa já está inteira errada: a ação individual enquanto produtor/consumidor no mercado não abarca o papel da violência impositiva do Estado como viabilizadora fundamental da dinâmica do mercado.

Essa quase amnésia de toda a exploração ""suja"" e violenta das redes globais de dominação me fez perceber que é um livro decididamente escrito por uma pessoa branca dos Estados Unidos para o público do mesmo país. É uma coisa impressionante, mesmo, a forma como ela se choca e hipervaloriza essa nova realidade de dominação como se ela tivesse substituído outros modos de dominação, sem os quais na verdade ela não é nada - eu, sinceramente, não consigo dar toda essa trela para esse fenômeno _ainda que_ reconheça sua crescente importância; pra mim ela precisa supervalorizar o objeto para que possa inflar a importância da própria produção teórica. De qualquer modo o sinal mais importante do público para quem escreve e da visão que têm é um outro argumento que ela usa em resposta à ideia de que o capitalismo de vigilância é basicamente o capitalismo: ela diz que o capitalismo costumava ser ""definido por reciprocidades orgânicas"". Incrível! Que teoria colonial, cara. Impressionante. Ela tem em mente, é claro, o welfare state; fala da ""benevolência"" de um Ford, enfim. É uma coisa surreal mesmo de idealização do capitalismo que cai por terra no momento em que você entende seu papel mais amplo na maioria esmagadora dos contextos num nível global e historicamente mais amplo.

É esse liberalismo safado de ""vamos salvar o capitalismo do capitalismo de vigilância"" que enfraquece substancialmente a análise. Aliada à falta de rigor intelectual, ainda por cima, a coisa fica ruim. Eu acabo dando uma nota mediana pro livro porque há alguns insights interessantes dentro dele. Por exemplo, de que a frase ""se você não paga, você não é o cliente, mas sim o produto"" está errada; no caso de google, facebook e afins, você é a casca que sobra depois que sugaram o produto de dentro da sua subjetividade. Outro exemplo interessante é essa questão do mercado de futuros construído em torno da noção dos dispositivos voltados não só pra captação de dados mas para a atuação sobre as pessoas por meio do ambiente. Também tem a questão, acho que uma das melhores observações do livro, de que deixamos de questionar porque toda experiência precisa ser renderizada em textos (a mediação das atividades via textualidade digital etc). Então tem coisas boas, mas sofrer 520 páginas de conteúdo pra garimpar isso no meio de uma teoria mole e ainda salpicada de encheção de linguiça, sem falar algumas repetições chatas, é complicado.

Muito bem escrito; cativante e emocionante. Achei algumas escolhas gráficas um pouco esquisitas (baixa legibilidade em letras por cima de fotos em algumas páginas, e nas orelhas, etc.) mas nada que comprometa o texto em si.

Excelente coletânea, presença obrigatória na estante de toda/o cientista social.

Textos ótimos: Martineau, Addams, Varga, Maruyama, Srinivas, Mardin

Textos bons: Firmin, Ramabai, Du Bois, [Marianne] Weber, Komarovsky

Textos não tão bons: Gamio (péssimo, não deveria estar aqui, única coisa realmente chata da coletânea), Kuper, Takeuchi, Ahmad

Acho que todos os pedidos de desculpa contidos no livro - que são engraçados, diga-se - são um mecanismo de defesa do Douglas, porque não podem ser reais - o livro é bom de verdade!! Não tem por que se desculpar.

Obviamente que não ""bom"" pela ótica de Esnobes da Grande Literatura que exigem grandes dramas humanos em tramas hipercomplexas e rebuscadas pra considerar alguma obra boa. Mas eu adorei que o Douglas tenha ""cometido"" esse livro, é muito gostoso de ler. Eu fiquei ainda surpreendido que os poemas foram minha parte favorita; não costuma ser o caso. Tem sacadas muito boas, tramas curiosas (pra dizer o mínimo), um tom desengonçado que deixa a leitura leve, uma sensibilidade nonsense que eu, pelo menos, compartilho... Enfim, eu, particularmente, adorei.

O livro é muito bom, especialmente as partes finais, mas tem dois problemas que desapontam bastante.

O primeiro é um tratamento pouco complexo de uma certa duplicidade de tradições que ele classifica como anarquísticas no comunalismo africano. Às vezes os grupos que determinam punições para transgressores usam máscaras para mostrar que são imparciais, para se colocar como a voz da comunidade e não de indivíduos específicos - ok, mas se a classe judiciária usasse máscaras isso não mudaria nada, certo? Ok, mas esses indivíduos não são uma classe à parte - certo, mas também sabemos da via de mão dupla existente entre a concentração de poder político ou cultural e do poder econômico. Então isso é um problema estrutural pois abre um precedente _para que_ decisões parciais (mesmo que não haja um incentivo econômico estrutural para que o sejam) _se passem_ por imparciais, e com menos margem para questionamento a coisa vá permitindo uma concentração de poder. Fala-se também de punições para familiares e comunidades, não só para o indivíduo. Se estivermos falando de responsabilidade por compensação num esquema de justiça restaurativa, ok; mas dentro de um âmbito penal isso abre margens muito complicadas. Isso e outras coisinhas passam batido pela análise.

O segundo problema é uma adoção majoritariamente acrítica de um evolucionismo de ""formas econômicas"", e em certo momento até mesmo um determinismo tecnológico que, especialmente tendo acabado de ler o The Dawn of Everything (Graeber e Wengrow), parece-me extremamente ultrapassado e complicado.

São dois problemas de profundidade teórica que, no entanto, não diminuem a potência da análise de conjuntura sobre a África, nem a pertinência das colocações de caráter histórico e como o anarquismo se encaixa, no passado e no futuro, nessa dinâmica.

Lindo e poderoso.

Uma potente denúncia da sociedade de sua época e uma bela visualização daquilo por que lutar. Curiosas as passagens sobre o Brasil... Excelente introdução e ótima ideia incluir o julgamento no final, talvez melhor até que o discurso do título. Bom demais. Projeto gráfico muito além das expectativas, maravilhoso. Livro incrível de uma pessoa incrível.

Contains spoilers

Originally posted at petercast.net.

Sublime

Este livro é fenomenal. Não sei como demorei tanto pra lê-lo. Fui completamente envolvido pela leitura, pelos personagens, por tudo; o estilo é impecável (se ao menos um pouco antiquado, mas combina, em vários sentidos, com a ambientação) e as possibilidades que ele nos lega são muitas. Amei, amei demais!

Vou comentar o que fui pensando à medida que fui lendo, e vou fazê-lo, a partir daqui, com spoilers.

No prólogo, minha primeira opinião foi que somos jogados em cena de uma forma um pouco ""impressionística""; personagens sem nome nem características têm voz, sabemos que se trata de uma fogueira na noite de natal mas não sabemos bem onde, ou por que aquelas pessoas estão ali, ou qual a ambientação exata... Parece como um daqueles filmes antigos sendo queimados, só que ao reverso, em que a imagem completa (que de fato nunca se forma) vai aparecendo aos poucos, do meio pra fora, um círculo ali, um pontinho aqui, depois se juntam e vão se espalhando com um detalhe a mais aqui e ali, e assim vai, meio que com o mínimo de informação que for possível conceder. Talvez por ter vindo de uma leitura bem diferente ('O Coração das Trevas') fui impactado por esse estilo como se fosse algo ruim. Mas imediatamente reconsiderei: não, não, é bom. É perfeito, na verdade, para o tom sinistro que se quer dar à história que virá a seguir.

Inclusive achei que voltaríamos àquela cena inicial. Por que começar com um grupo lendo a história que leremos se não for pra terminar acompanhando os efeitos da leitura sobre eles? Bom, porque essa narração indireta (que aparentemente foi bem marcante de Henry James, conforme vim a saber depois) aumenta ainda mais o suspense, a expectativa. Nos deixa ainda mais conscientes de que estamos lendo um relato, por assim dizer, então nos distancia um pouco do ocorrido, em termos de julgamento sobre o que de fato aconteceu (algo muito importante nessa história) ao mesmo tempo que nos aproxima - que é o que toda adaptação tenta fazer quando coloca no cartaz aquela velha frase, ""baseado em fatos reais""... De qualquer forma, não digo que senti falta do reaparecimento dessa trupe no fim do livro. O fim é bom do jeito que é, e depois, o que é que se ganharia voltando a eles? O jeito que eles reagiriam nós já sabemos - é provavelmente como estamos nós mesmos reagindo.

De qualquer forma, sobre a história de fato. É o seguinte: sim, a relatora pode estar inventando tudo, ou escondendo coisas, ou ter escrito as coisas de um jeito extremamente parcial. Mas eu acho que a galera se passa um pouco ao falar de ""unreliable narrator"" _nesse_ livro em particular. Narrador que não dá pra se confiar você não confia porque existem elementos narrativos que te dão margem pra isso. Se for pra presumir que toda narrativa em primeira pessoa é ""desconfiável"" na literatura, daí fica difícil mesmo ler. Não é nem divertido, né. Me lembra aquele experimento do sociólogo Harold Garfinkel:

""Foi pedido aos estudantes que conversassem e agissem com alguém supondo que a outra pessoa estava escondendo os verdadeiros motivos para tudo que dizia ou fazia. Ou seja, cada estudante deveria presumir que a outra pessoa estava tentando enganá-la. Foi difícil sustentar e levar adiante a tarefa. Os estudantes disseram ficar o tempo todo pensando que eram parte de um ""jogo artificial"" e que não estavam conseguindo ""fazer o papel deles"", e que frequentemente “não sabiam o que fazer a seguir”. Ao escutar a outra pessoa, não conseguiam fazer mais nada ao mesmo tempo. [Muitos] disseram que se esforçaram tanto em manter a atitude de desconfiança que se perdiam no meio da conversa. [...] Para muitos estudantes, supor que a outra pessoa não era o que parecia e por isso devia ser tratada com desconfiança era o mesmo que supor que a pessoa estava irritada com eles, ou que os odiava.""

Tipo, sem a gente ter evidências de que falta algo na narrativa, ficar pensando ""ah mas pode ser que"" é meio que um exercício vazio. Sim, ela pode ter mentido, porque sim. Tá, e...? Pode ser que tudo que aconteceu em Harry Potter é um delírio dele, um sonho que seu cérebro inventou quando ele tinha 10/11 anos pra fantasiar com uma vida além da horrível que ele tinha. E daí? O que isso adiciona? Qual o sentido dessa interpretação? Eu acho que ela só atrapalha a imersão na história.

Então, eu gosto de pensar que a narrativa deve ser interpretada, no mínimo, como algo ""sincero"". Se ela estiver ""louca"" e os fantasmas forem coisas de sua cabeça, ok - mas eu quero que isso seja uma interpretação plausível _dentro da história_, e não porque ela, ao ter escrito suas memórias, escondeu alguma coisa no relato dela, que é uma coisa que podemos tirar da cartola se quisermos mas não tem evidência nenhuma.

E, com esse parâmetro, há duas evidências, uma fraca e uma forte, de que as aparições eram reais. Em primeiro lugar, Miles de fato morre. Ok - essa é fraca porque o garoto podia ter, sei lá, uma condição genética do coração, e ter dado um infarto ali numa situação emocional. Bem, a questão é que, sem nunca ter conhecido, visto, ou ouvido falar de Quint e Jessel, a narradora os viu, e conseguiu, AO DESCREVER o que tinha visto, evocá-los na memória da governanta. Ah, gente, não, poxa... Isso pra mim é cheque mate. Os fantasmas são reais! O único jeito de não serem é a narradora ter tido conhecimento detalhado deles _antes_ disso e não ter _nos_ contado. De novo, acreditar nisso só porque a gente quer? Não, né? Pra mim, são reais.

Uma objeção em termos de ""o que essa interpretação adiciona?"" é que, bem, sim, se a gente brincar de não saber se é coisa da cabeça dela ou se as aparições são reais (no mínimo, se as crianças também as veem)... A parte da Flora no final fica muito mais legal. A criança reagiu daquele jeito como ela reagiu porque estava sendo acusada de mentirosa, e a preceptora estava sendo levada ao limite da paranoia, ou porque seu fingimento de fato chegou ao fim? É um cenário muito interessante, e confesso que ele nos tenta a duvidar das aparições, com a simpatia por todas as personagens (... e se realmente for paranoia - coitadinha da Flora!!!). A narrativa realmente tem dessas, e por isso acho ela TÃO boa! Mesmo assim, ainda fico com essa leitura, até porque várias outras partes ainda mantém essa questão de dúvida: será que as crianças veem ou não? Isso aí realmente é um mergulho na paranoia mesmo, porque é uma coisa muito de a opinião da preceptora sobre as crianças ir mudando, e ela presumindo coisas a partir de impressões muito subjetivas - isso aí eu realmente confesso que, na medida em que ia lendo, não tinha uma opinião formada. E que jogo divertido querer saber mais sobre isso.

Mais divertido ainda, no caso, que o autor se recuse a determinar isso. Acho interessante que tem alguns finais ""abertos"", ""ambíguos"", que me deixam decepcionado. Eu não sei dizer por que alguns finais abertos me satisfazem e outros não. Mas sei que esse me deixou não só impactado e pensativo, mas há algo de satisfatório nele também.

Mas agora, vamos lá. Os fantasmas são reais. E daí? Que quer dizer essa história?

Há quem diga, não só pelo texto mas também pelo contexto (de sua produção) que ela é bem ""entretenimento"" mesmo. Depois que terminei precisei ir buscar uns vídeos no youtube pra ver o que as pessoas estavam falando dela e me surpreendeu um pouco que as pessoas só comentem, ao falar sobre a grande variedade de interpretações possíveis, sobre coisas ""factuais"" - quer dizer, a margem de interpretação da obra é sobre o que aconteceu, mas não tem um significado mais profundo aí.

Primeiro, sobre essas questões de interpretação factual, tem várias coisas interessantes de fato... Eu confesso que, sabendo se tratar de uma história de terror (mais por conta do prólogo que por outras coisas; eu entrei meio ""frio"" no livro), eu esperava ali alguma coisa sobrenatural, e à medida que a história foi avançando comecei a ""duvidar"" de tudo: será que as crianças estava mortas também? (uma dúvida que vi algum youtuber, agora não me lembro quem, expressar também)... Não, mas o diretor do colégio, no mínimo, sabia quem era Miles, esteve com ele por tempo o suficiente para expulsá-lo, ele veio num carro dirigido por alguém que certamente não estava dirigindo um coche vazio... Então ok, ele era real. Provavelmente Flora, então, também era. Mas e a governanta e as demais funcionárias? Será que estavam todos mortos? Será que a própria preceptora estava morta? Não, não, ela teve que viver alguns anos mais, o narrador inicial a conhecia e soube a data de sua morte, quando ela lhe entregou o relato, etc. Ok, ela não. E o tio? Bom, o dinheiro que mantinha a casa tinha que vir de algum lugar, então...

De verdade, quando fui chegando mais ao final e intuí que a coisa não ia nessa direção (em nenhuma dessas direções), eu fiquei bem aliviado, sabe? Acho que fiquei esperando, ou suspeitando, desses ""twists"" todos porque a gente vai sendo adestrado por Hollywood a achar que as histórias precisam ter dessas coisas (""AHÁ... Na verdade... Ela estava morta O TEMPO TODO!!""), quando o verdadeiro terror é algo mais insidioso e, ao mesmo tempo, mais simples (mais sobre isso depois)...

Isso é uma coisa muito boa que eu vejo na literatura, e que tinha me esquecido um pouco, porque ando nos últimos anos um pouco (comparativamente) afastado das ficções, ao mesmo tempo em que consumo muuuita análise cinematográfica via Youtube. E aí eu acabo absorvendo muita coisa sobre narrativa dessa perspectiva mais ""pop"" - digo, mesmo que vá além da ""jornada do herói"", não vai muito; sempre aquela coisa de estrutura de 3 atos, tropes, certas coisas que a história ""precisa"" ter... E é muito bom quando a estrutura da história se desvia um pouco ou, mesmo quando não se desvia, se torna ""invisível"". Isso pode acontecer em histórias indie, em clássicos, ou em filmes de grandes orçamentos cheios de efeitos visuais... Mas é muito frequente que nestes últimos (e, vamos e venhamos, em histórias mais amadoras) a coisa fique MUITO transparente. Tipo, as coisas vão acontecendo e você sabe _exatamente_ o que está acontecendo; você quase consegue ver o roteirista checando a lista do molde pronto pra ver se não esqueceu nada. Nessa história, pelo menos, a imersão foi grande; eu nunca senti que estava sendo levado por caminhos típicos, por uma narrativa padrãozinho, pra um lugar-comum.

Outra questão que ficou pra mim, e fala bastante sobre a profundidade psicológica e o excelente estilo do autor, é sobre a opinião da governanta sobre tudo que estava acontecendo. Primeiro que a relação dela com a preceptora é muito legal, muito interessante. Mas fico pensando no que ela diz, mais tarde, sobre a Flora, que negava ter visto a fantasma da Jessel. Quando a preceptora pergunta pra governanta se esta acredita na Flora, a governante responde: ""não posso contradizê-la"". Nossa - isso me fez repensar tuuuudo que tinha acontecido até aquele ponto, porque inicialmente eu pensei ""ok, será que ela está engolindo essa história de fantasmas porque naquela época o pessoal era mais crédulo mesmo?""; depois, pensei, ""não, ela realmente gosta da preceptora e está sendo uma boa amiga ao realmente confiar no que ela tem a dizer"". Inclusive achei que era legal, pra variar, não seguir pelo caminho comum de, tipo, todo mundo imediatamente desconfiar do testemunho sobrenatural. Aliás - meu deus, é muita coisa pra falar desse livro - achei bacana que a própria personagem nunca pensou ""ah, todo mundo vai achar que estou doida!"". Ela escondeu o que sabia POR OUTROS motivos, achei isso muuuito interessante! Uma lufada de ar fresco, realmente.

De qualquer modo, voltando ao ponto original, a governanta - sim, achei que ela estava sendo crédula, depois, amiga, e finalmente, achei que ela simplesmente estava sendo educada: achei que sua posição profissional tinha mais influência sobre ela do que inicialmente percebi: ela não podia, realmente, contradizer, nem a preceptora, que tinha mais autoridade ali, nem a filha do patrão (mais sobre isso depois). Então naquele momento que ela disse ""não posso contradizê-la"" ela realmente expôs a agonia do subalterno: e agora? ""Po, você me coloca numa situação dificíl desse jeito... Não posso dizer que você tá mentindo, mas não me peça pra dizer que ela está mentindo também!"". Então aí titubeei: será que ela só estava, esse tempo todo, tentando gerenciar o que ela via como desvarios da preceptora? Será que ela, como muitos leitores, também achava que ela tinha visto um retrato ou o que seja do Quint e da Jessel e estava de sacanagem, ou doida? Fiquei pensando, eu não podia mesmo ter negligenciado a influência de sua profissão, pois não estamos falando de um cenário urbano moderno, mas de uma história praticamente feudal: havia uma junção muito forte entre sua identidade pessoal e sua identidade enquanto governanta daquela casa. E mesmo assim, ela cede mais uma vez quando confessa que sim, podia contradizer a Flora - que acreditava que ela via Jessel porque não sabia de onde podia ter tirado tantas coisas ""feias"" pra dizer. E chorou. Bah - acreditei nela. Mas será que fui enganado pelo choro da governanta, que estava tentando AINDA dar um jeito de ser fiel a duas patroas?

Caramba que livro BOOOOOOOOM

Mas ok, temos uma última questão factual a analisar. Este livro, por acaso, é sobre... Abuso sexual?

Confesso que quando começaram a falar que o Quint passava muito tempo sozinho com o Miles... Que tomava ""muitas liberdades"" - com ""todos""... E que a Jessel passava também muito tempo com a Flora... Hmmm... É claro que a minha cabeça foi _direto_ pra lá, né. Pra esse cenário. Aliás, eu acho que no mínimo dos mínimos uma coisa que eu achava que estava seguro é que Quint E Jessel eram, entre eles, um casal, por alguma razão secreto, sei lá. Algum escândalo rolou ali, talvez ele tenha engravidado ela, sei lá. ISSO eu senti segurança pra supor. Mas esses silêncios e meias-frases e coisas subentendidas ao redor da questão de qual era exatamente o problema de Quint (e de Jessel) me deixaram bem incerto mesmo. Afinal de contas, eu estava sendo muito depravado ao pensar direto nesse cenário? Será que eu não deveria considerar outras coisas?

Fui abandonando um pouco a conjectura, tanto é que, no final, quando Miles foi lentamente dizendo que foi expulso do colégio por ter ""dito coisas"", confesso que nem aí eu retomei a hipótese. Agora me parece óbvio - sim, ele contou pra outros as coisas que Quint fez com ele (seja com ou sem contexto), chocantes o suficiente pra terem causado sua expulsão. Mas eu não estava mais pensando nisso, talvez porque o tema da morte me fazia pensar que tinha a ver com um horror mais... lovecraftiano, talvez? Uma coisa mais ""indizível"" e etérea, um mal mais elementar, sem forma, e que por isso mesmo era rodeado de ""faltas de descrição"", isto é, ninguém conseguia se levar a botar em palavras o que essas figuras representavam. Como coloquei acima, algo mais insidioso, porque mais simples, mais fundamental. Acho que por isso eu afastei a hipótese sexual, até reencontrá-la nos vídeos do youtube - inclusive em um deles alguém (de novo não lembro quem) aventa que Quint abusava as crianças e Jessel acobertava (e aí não necessariamente os dois tinham uma relação). Hm. Não sei. Pode ser, também.

Pensando melhor agora, depois do fim, fico achando que não tem mesmo essa dicotomia entre os tipos de horror. Afinal, o mistério da morte representado pelas aparições acaba como que espelhando o sexo como mistério da vida; numa análise de simetrias, o pós-vida aterroriza por sua presença do mesmo jeito que a presença do impulso, ou do prazer, sexual aterroriza o pré-vida (adulta), que aí, no caso, são as crianças - todo o papo do guri de 11 anos já se achando um adulto, pô, tá meio que na cara, né... Embora isso (esse ""tornar-se um aristocrata adulto"" aos 11) era mais a norma na época que o livro foi escrito e mais ainda nos anos em que o relato ter-se-ia passado. E aí, quando falamos sobre traumas de abuso sexual, não é comum ouvirmos sobre como é difícil pra pessoa falar sobre o que aconteceu? Esse também é um horror ""indizível"". De fato, no fundo, todos os horrores são; pra Stephen King, é por isso que esse é um livro tão foda; porque histórias de terror são histórias sobre ""segredos que seria melhor não contar e coisas que seria melhor não dizer"". E isso permeia a narrativa inteira, todinha, e, aliás, não daquele jeito forçado - tipo um conflito artificial que se resolveria com uma frase de 5 segundos. Não. O livro é todo sobre ""o indizível do horror"" mesmo.

Tanto é que parece que forçar a dizer o indizível é o que mata Miles. Na forma do fantasma, claro, mas não é a mesma coisa? - o inconfessável se confessa, o reprimido é lembrado, e Quint se manifesta na realidade; o mal que fez, quando é trago à tona após sua morte, causa dor demais, causa _também_ a morte, então é como se Quint o tivesse matado. E não é como nos sentimos, ao confessar coisas terríveis, inclusive quando somos vítimas, quando temos vergonha de algo mesmo sabendo racionalmente que não deveríamos ter, que não é justo conosco, que... A gente diz, brincando, ""eu prefiro morrer do que alguém saber disso"". Ou, se não diz, sente um pavor que é pior que o medo dessa coisa desconhecida que é a morte. A morte aqui não é o medo principal, é a metáfora pro medo maior que é o medo de ter a intimidade revirada... Muito embora Miles já teria se revelado antes, em tese, para os amigos na escola, não? Então a questão é revelar para a preceptora. Por quê? Porque poderia chegar em seu tio, e aí ter consequências maiores? Porque agora que ele já estava crescido/crescendo, ele se sentia finalmente pronto pra deixar isso pra trás, e no entanto a preceptora o arrasta de volta, e ele sente que nunca vai conseguir se livrar disso? Hmmmm. Não sei.

Então de certa forma, independente se isso estava na mente do autor ou não, a metáfora do ""mal"" indizível aqui parece muito, muito maleável à realidade do trauma sexual; nos coloca inclusive diante de preconceitos próprios - por exemplo, acho que uma das razões pelas quais afastei a hipótese sexual de início é que as crianças estavam tão felizes e, digamos, ""produtivas""; o que é um trauma que nunca se manifesta? Aí entramos em uma série de outras questões... Por acaso não podem as vítimas de um trauma serem felizes e produtivas? O trauma não pode se manifestar na interpretação de algo perigoso e daninho como prazer, e a busca desmedida por esse prazer, não ser uma consequência? (Penso aqui na ida de Flora, sozinha, ao lago). Coincidentemente há apenas alguns dias mesmo vi um vídeo da Kat Blaque sobre hipersexualização pós-violência (""Hypersexuality, Sex Positivity and Healing"") que vai por aí, mais ou menos... Então, enfim.

Mas isso me leva à última questão: que outras coisas estão abertas pra interpretar nesse livro, que não sejam apenas as coisas factuais? Isto é, pra além de pensar no que de fato aconteceu ou não, este livro fala sobre o quê, no fim das contas? Acho que isso é pouco explorado nas resenhas que vi, ao menos no youtube, mas é real: o livro aqui TAMBÉM é muito multifacetado. Dá pra fazer uma análise socialista / de relações de poder - e aqui conta muito a relação entre a governanta, a preceptora, o tio ausente, os 2 sobrinhos (estes quatro últimos, ou no mínimo estes três últimos, como consta no material suplementar da edição que li, ""na mesma esfera de poder"")... Dá pra fazer uma análise feminista para além da questão do abuso sexual (e pra além da questão de gaslighting, também, que, como eu disse, não tem muito aqui não)...

E dá pra fazer também uma análise educacional. Um dos prazeres que eu tive nessa leitura foi justamente pensar, a certa medida, lá pela metade, que se tratava de uma metáfora sobre o crescimento e o processo de educação. A preceptora tinha um controle férreo sobre o processo educacional das crianças (embora aparentemente nada ""industrial"" como o sistema escolar moderno), e os fantasmas seriam como influências externas que estariam ""doutrinando"" as crianças, e ela sentia um ciúmes imenso disso. Pode ser uma questão também de pais, ou mesmo de toda uma geração, perdendo o controle sobre seus filhos ou a próxima geração, com crianças e adolescentes criando sua própria linguagem, seus próprios gostos, suas próprias opiniões, muitas vezes irreverentes, contrárias, ou mesmo indiferentes ao que veio antes, de um jeito que desespera quem não consegue deixar de ver o seu jeito de viver como o único correto e moral. Desespera tanto, de fato, que justifica o conservadorismo de costumes, isto é, uma atitude autoritária mesmo, e que leva, no campo da educação, a um protecionismo elevado, e uma demonização de qualquer um que tente, mesmo que com argumentação racional e por méritos próprios, influenciar jovens para uma certa direção. A demonização, então, tem a ver com essa questão de que essas outras influências (de quem a narradora não parece ter apenas medo, mas CIÚME mesmo) são representadas por fantasmas; pessoas que, afinal, nessa perspectiva de raiva, ""deveriam estar mortas"". Tá certo que a preocupação da narradora é com a educação porque ela foi contratada pra isso, mas enfim, em vários trechos, é isso mesmo: ela estava preocupada que seus pequenos seriam ""corrompidos"". Ora; estamos falando de sexualidade ou é uma metáfora para ensinamentos que venham a ""desvirtuá-los"" num sentido intelectual?

Por alguma razão que não lembro, essa interpretação deixou de me fascinar mais pro final do livro. Essa minha perda de interesse fez com que eu não pensasse muito mais nela, tentando encaixar o resto dos elementos - talvez não faça sentido, então, sei lá. Mesmo assim, é uma pequena provinha de que há aqui uma história muito rica. Muito simples, sim, em certo sentido, mas dessa simplicidade faz-se muito: é psicologicamente complexa de um jeito delicioso, narrativamente construída de forma exemplar, muito potente nas sensações que evoca, nas impressões que causam na imaginação, e, enfim, muito ampla nas possibilidades de projetar sentidos e interpretações até mais sociológicas.

Pra fechar: um vídeo no Youtube (em inglês) sugere ler o livro em partes ao longo de 3 meses, porque foi dessa forma que foi publicado (aquelas coisa de ""o autor queria que fosse lido assim""), mas também porque isso dava um impacto muito bacana em termos de ir ""mastigando"" a narrativa aos poucos. Por um lado fiquei triste que não vi esse vídeo antes, já que talvez seria bacana fazer isso mesmo, mas por outro, a quem eu quero enganar - assim como eu gosto de tomar suco de laranja gelado de golão em golão, eu nunca fui de ficar lendo histórias a conta-gotas, eu gosto que elas me atinjam como marretadas mesmo, e essa foi das boas. Enfim, uma última dica, pra quem fala inglês, é o vídeo, também no youtube, ""Hitler reacts to the end of The Turn of the Screw"". Não sei muito o que pensar desse negócio de que os fantasmas não têm voz, mas o vídeo é engraçado!

Por um lado, a narrativa é envolvente, bem escrita, bem arquitetada. Por outro, isso se aplica mais aos capítulos I e II que ao III, que achei mais confuso e estranho.

Ainda por um lado, os editores do livro (com seus materiais suplementares) querem me fazer crer que Conrad denunciava, com este livro, o colonialismo. Pode ser. Mas não foi bem isso que senti durante a leitura.

Uma das formas de atacar o colonialismo é dar protagonismo às figuras subalternizadas, pois anulá-las social e politicamente é justamente o que a dominação faz. Conrad, pelo contrário, mantém-nas às margens, caracteriza-as como selvagens e brutas, etc., de um jeito que poderia ser ""tecnicamente"" verdadeiro em contexto (p. ex. povos que desconheciam o barco a vapor ter medo do apito) mas, ao mesmo tempo, me parece bastante reducionista.

Porém, que os protagonistas o façam (é um livro em primeira pessoa, afinal) pode ser em si uma denúncia, uma forma de caracterizar o pensamento colonialista. Acho sim que uma obra de arte se prejudica, em termos de envolvimento e impacto, se for óbvia demais em sua ""mensagem"" - se ""forçar a barra"" com o que quer dizer. Não digo nem porque ela deve entreter; ela prejudica a própria mensagem ao fazê-lo. Só que, poxa, se eu tenho que fazer um esforço enorme pra ler uma mensagem antirracista / anticolonial na obra, sei lá, eu acho que a mensagem está mais na minha cabeça que na do autor.

Uma das coisas que mais me irrita, e se mistura à confusão narrativa que senti na terceira parte, é como o protagonista lida com a figura de Kurtz. Eu tinha ""embarcado"" (hehe) na proposta de torná-lo essa figura mítica que o personagem vinha a admirar ou ter uma curiosidade extrema sobre, ainda mais em conjunção com toda a atmosfera de ameaça tão bem construída nas primeiras partes. Mas aí Kurtz chega de um jeito muito estranho, age de um jeito muito esquisito... Não entendi metade do que estava acontecendo ali, em termos factuais mesmo; tem-se uma série de alusões e meias adivinhações, e uma hora o protagonista quer bater no Kurtz e em outra hora repete como ele era um ""homem notável"". Eu achava que - especialmente se a obra é lida nessa luz anticolonial - a figura de Kurtz seria construída pra depois ser destruída; o protagonista iria se decepcionar com ele, etc. Por exemplo, toda a ideia de que os ingleses estariam levando a iluminação aos brutos africanos seria subvertida de alguma forma. Há que haver algum momento de reconhecimento disso. Mas não. Até o final Kurtz ainda é amado, respeitado, idolatrado, o protagonista é ""leal"" a ele (???????? tipo, por quê???? ????). A frase famosa (""O horror, o horror"") parece engrandecê-lo em vez de ensinar algo sobre a experiência colonial. O coração das trevas não é o colonialismo (embora no começo parece que é disso que ele está falando quando fala do espírito maligno que é preguiçoso), parece no máximo a ganância individual de Kurtz, e isso nem é muito explorado... No material suplementar, Kurtz parece renegar o colonialismo quando pede pra fechar a cortina do barco porque não suporta mais olhar para fora. Acho que esse é outro exemplo de leitura generosa.

Aliás, achei que toda a questão dos povos locais adorarem-no como um deus seria mais explorada. Não vi nada disso se desenrolar, parece que o conhecemos, ele faz umas coisas lá que não dá pra entender direito, depois uma hora engatinha até a mata, e esse tempo todo está doente, já está morrendo... O gerente está puto com ele não se sabe muito bem por quê, ou quais eram suas ambições, ou quais o gerenge _achava_ que eram suas ambições... Olha, caramba, uma bagunça.

Full disclosure, eu já vi Apocalypse Now, e sabia que era uma adaptação deste livro (com muita licença poética, claro). Isso pode ter influenciado também minhas expectativas.

De qualquer forma, deixo aqui algumas das minhas partes favoritas, características da boa literatura que o livro representa, tirando tudo de ruim que descrevi acima:

""Eles não eram colonizadores; seu governo era pura extorsão e mais nada, eu suspeito. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta - nada de que se gabar quando se tem, já que a força é apenas um acidente que resulta da fraqueza de outros."" p. 14 [Note-se que aqui ele já caracteriza, ainda que comparativamente apenas, a colonização como algo bom. E ele está falando como narrador pós-acontecimentos, então, oras - que ""denúncia"" é essa?]

""é impossível transmitir a sensação viva de qualquer época determinada de nossa existência - aquela que constitui a sua verdade, o seu significado, a sua essência sutil e contundente. É impossível. Vivemos, como sonhamos - sozinhos..."" p. 49

""Não gosto de trabalho - ninguém gosta -, mas gosto do que existe no trabalho - a chance de a pessoa se encontrar."" p. 51

""Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por cima, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário."" p. 122

Tem seus altos e baixos.

Segundo resenha da Folha de São Paulo estampada na contracapa, neste livro Eco deixa seu “virtuosismo correr livre”. Livre demais pro meu gosto, sinceramente. É muita referência em cima de referência, menções em cima de menções, e talvez seja minha culpa por não estar no clima pra ficar correndo à Wikipédia 12 vezes a cada parágrafo pra saber de que diabo ele está falando, mas olha… Muito chato. Detestei esses arroubos de “virtuosismo” que povoam o livro todo e explicam o seu tamanho (quase 700 páginas).

Não são só as referências. Mesmo as ações das personagens, as reflexões, são colocadas de um jeito que deveria soar poético, misterioso, profundo, mas, sei lá, na maioria das vezes – e especialmente no começo – eu simplesmente achei bobo e pretensioso.

Mas eu queria gostar do livro. Amigos me disseram que ele demora pra ficar bom. Segui dando uma chance.

Foi lá pela página 200 que comecei a entender melhor o básico da trama, sua ideia geral, e é aí que deu mais ânimo de ler. As coisas v��o se desdobrando bem até que chega a parte em que Belbo decide agir, e aí a narrativa realmente te prende; se demorei semanas e semanas pra ler as primeiras 200 páginas, li as últimas 200 em menos de 24 horas.

No fim das contas, eu fiquei bem dividido com esse livro (por isso a nota 3).

Estruturalmente, ele é muito estranho, e acho que num sentido negativo. Ele é grande demais. Mesmo entendendo que ele narra uma lenta espiral de envolvimento com uma teoria de conspiração, e aí nesse sentido ele precisa passar essa atmosfera de entorpecimento, tem muita coisa desnecessária, aqui, e não falo nem necessariamente da erudição. Por que o protagonista veio ao Brasil? No fim das contas, que propósito tem a personagem Amparo? Esse livro poderia tranquilamente ter umas 250 páginas a menos, e seria melhor por isso.

Mas essa não é nem a maior questão. O livro se passa em três tempos distintos: o protagonista dentro do museu, esperando dar a meia-noite; o protagonista, dias antes, lendo os registros que Belbo fez no “Abulafia”; e tudo que aconteceu antes, explicando esses dois momentos. Só que, por um lado, nada acontece ao longo de 500 páginas enquanto o protagonista espera, então, nós somos lembrados que ele está lá, esperando, pra nada… E os arquivos do Abulafia que ele vai lendo, nossa senhora, outra chatice sem fim. Teve uma hora que eles ficaram tão, tão, tão longos, que não deu pra mim – eu pulei um inteirinho. Horrível. Inúteis pra história e chatos em termos de seja lá qual mensagem ele estava tentando passar.

Então em termos de “formato” foi um livro bem difícil de engolir. Mas, em termos de conteúdo, ele é no mínimo curioso. Há partes muito legais (as duas intervenções da Lia me vêm à cabeça; o final do cap. 37, algumas coisas do 119), mas na verdade o que fica é a reflexão posta na mesa pelo conjunto da obra (e reforçada, talvez explicitamente até demais, pelas reflexões finais de Casaubon). A tensão esperada entre “magia” (existe conspiração) e ciência (é tudo teoria da conspiração) vai se desfazendo na medida em que se entende que há um esforço científico em entender as coisas ao mesmo tempo em que isso ocorre no contexto de uma busca por um “segredo” que venha preencher um vazio – e, claro, muita sede de poder, ou, no mínimo, de “distinção”, o que é um toque muito interessante que o livro vai desenvolvendo a partir da psicologia de seus personagens.

Não sei, sinto que há bastante a se explorar em termos da “mensagem” do livro; é algo que ainda estou mastigando, sinto que vou retornar a seus temas muitas vezes – mas, também, que bom seria que eles fossem desenvolvidos em um formato um pouco menos maçante e truncado.

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A metáfora é dissecada e utilizada de forma incoerente e confusa, numa mistureba irresponsável de conceitos e paradigmas, enchendo linguiça até não poder mais. O propósito prático do autor pode ser em alguns momentos positivos, mas a forma é extremamente enfadonha, repetitiva e aparvalhada.

A história original é bem simples: quando nos acostumamos a uma situação de inferioridade, podemos demorar até reconhecer que podemos atualizar potências inerentes e sermos mais do que somos no momento. Isso tem uma dimensão individual (embora nesse caso tenha conotações meio arrogantes) mas principalmente social, que é o contexto original da história (Gana colonial), que trata da coragem para fazer lutas sociais contra desigualdes e injustiças. É isso. O resto é uma hipermetaforização absurda.

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Contains spoilers

Como esse livro pode ter conseguido tantos prêmios literários?

Bem, talvez porque a mensagem que o livro passa é boa. As mensagens, porque há várias contidas nisto que é essencialmente uma fábula. Aceite os desafios da vida, seja feliz com as pequenas coisas, faça o bem sem ver a quem – mas, principalmente, “se você é um merda, pode superar essa condição e se tornar alguém”. Essa é uma parte bacana do livro, mas é uma parte. A mensagem não é responsável pelo valor literário de uma obra; como amante da literatura, julgo um livro pela forma como as letras são usadas para passar a mensagem! Ela, a vibe positiva, não pode ser usada como desculpa para o final horroroso que esse livro tem, além da série de problemas narrativos e estilísticos que fazem dessa história uma gigantesca decepção.

Não é nada contra Zusak (afinal, A Menina que Roubava Livros é incrível). É que a mensagem aqui carrega tanto peso, canibaliza tanto a história, que esse livro seria melhor avaliado como auto-ajuda. Mas não é; é ficção, e para uma ficção só a droga da mensagem não basta!

Descompasso

Em se tratando de construir um personagem, ou você tem um proletário desiludido ou tem um poeta desiludido.

Ed Kennedy é uma pessoa simples e sem ambições. Não se importa nem com o próprio trabalho, nem com valores burgueses como ter uma casa limpa ou impressionar os vizinhos – é basicamente um cara do povo, só que meio deprê e sem esperança.

Mas isso não casa com a voz interior dele, que é o narrador do livro. Há um descompasso gritante entre quem ele é e o jeito como ele pensa. Um “tipo proletário” pode ser poeta por dentro, mas a poesia dele não vai ser a de Camões, e sim algo como Racionais MCs ou Emicida – a depender de vários fatores (eu estou discutindo estereótipos aqui, afinal) vai ser provavelmente mais rasgada, cínica, irônica, seca. Por exemplo:

Pego a faca do chão e a seguro firme.
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela. Se desse, eu cortaria o mundo em duas fatias e subiria em uma delas. (p. 263)

Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela? Quem PENSA assim? Quem tem ESSE fluxo de ideias?

E tudo bem ser bobo se você é um poeta desiludido, mas esse simplesmente não é o personagem que nos foi apresentado!

O cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim, mas eu não deixo, e vou andando. Toda vez que me dá um arrepio nos braços e nas pernas, eu aperto o passo, sem saber se Audrey está precisando de mim, ou talvez Ritchie ou Marv… Cara, tenho que correr.
O medo é a rua.
O medo é cada passo. (p. 258)

O medo é a rua… Pelo amor. Esse é o problema quando você quer escrever em primeira pessoa mas não está disposto a realmente entrar na cabeça do personagem (Liberdade é um bom exemplo de como fazer isso bem, mesmo que o estilo não mude tão radicalmente de um ator para outro). Você, como escritor, quer fazer suas metáforas, comparações, jogos linguísticos bonitos e imagéticos. E nós, seres humanos, fazemos isso de vez em quando. Mas não todos do mesmo jeito! Isso aí não é o Kennedy pensando, é o Zusak usando a boca do Ed Kennedy. O real Kennedy, como muitos de nós ficaríamos se estivéssemos correndo, na rua, à noite, com medo de não chegar a tempo para alguma coisa, não ficaria pensando “ah, o medo é a rua. Oh, cada passo que eu dou é medo, oh, oh”. Não, metade do tempo seria gasto inutilmente com “putaqueopariuputaqueopariuputaqueopariu” e na outra metade nosso cérebro, muito à revelia do que um eu racional quereria, ficaria imaginando em loop os piores cenários possíveis.

Uma prova de que se trata do escritor simplesmente dando um jeito de escrever algo que ele achou fofo só porque ele quer, e não porque faz sentido e casa com o personagem, é que não é só o Kennedy quem faz isso. Marv, um trabalhador de construção civil casca grossa e orgulhoso, quando tem uma confissão emocional a fazer, diz:

É este o meu estado às três da manhã, Ed. Todo dia. Vejo aquela garota – aquela garota pobrezinha e espetacular. Às vezes eu vou ao milharal e caio de joelhos. Ouço meu coração batendo, mas eu não quero. Odeio as batidas do meu coração. São muita altas naquele campo. Elas caem. Direto de mim. Mas então voltam, igualzinho como eram. (p. 281)

Repare que até a parte destacada a frase vai bem. Depois é que Zusak não se aguenta e tem que colocar a parte bonitinha que Marv jamais diria. Isso não é só ruim pela sensação esquisita que dá; trata-se de uma oportunidade roubada do personagem dizer a mesma coisa, mas à sua própria maneira – o que nos permitiria ficar mais à vontade com ele; faria com que ele se tornasse mais tridimensional para nós.

É verdade que o livro todo não é assim. Não é como se eu pudesse simplesmente abrir uma página aleatória e encontrar uma parte vergonhosa dessas, e há frases boas, em que o jeito de cada personagem marca bem a interação entre eles. Muito do embaraço pode se dever à tradução (“poor spectacular girl”, eu presumo, é bem melhor que “aquela garota pobrezinha e espetacular”, combinação de palavras que 99,99% dos falantes da língua portuguesa vão passar a vida sem jamais pronunciar ou escrever), mas não descontaria muita culpa por causa disso… A verdade é que se isso vai ficando mais irritante à medida que você conhece Ed (porque o descompasso fica mais evidente), a narrativa tem uma série de outros problemas maiores.

Um desperdício de suspense, uma abundância de narração

Esse livro é uma comédia ou um suspense? É acima de tudo auto-ajuda, é claro, mas você pode fazer uma “suspédia” ou um “comense” sem problemas; o duro é quando a comédia envenena o suspense.

A premissa do livro é interessante e desafia o leitor: quem está mandando essas cartas misteriosas? Isso é fantástico. Zusak quer o suspense, quer o drama. Ele quer que o leitor se sinta com medo por causa de Ed; quer que sintamos que alguma coisa está em jogo se ele não conseguir o que quer.

Só que aí, quando nosso herói está sendo brutalmente atacado por dois mascarados…

– Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
– E?
– A gente deu uma tortinha pra ele.
– Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
– Assada, Ed! – ele se ofendeu. – Não somos selvagens, tá sabendo? Até que somos bem civilizados. (p. 98)

Oh… OK. Esses são as caras, perceba, que dão uma surra nele como “corretivo” ou coisa parecida.

A próxima vez que eles aparecem proeminentemente é assim:

– Exatamente, Keith, é simplesmente perigoso demais pro Ed chegar a pensar em comer essa torta com molho (…) Vai cair nesta linda camisa branca, e o infeliz ainda vai ter que lavar a desgraçada. E esta é a última coisa de que precisamos agora, concorda? (p. 261; os “bandidos” discutem por que não trouxeram ketchup junto com as tortas que ofereceram a Ed).

Tudo bem você ter comédia no livro. Há várias partes boas nesse sentido. Mas você não precisa pegar todo o seu potencial de suspense, de mistério, de que algo sério está acontecendo, e então transformar numa piada. Tirando dois momentos (de violência, aliás), quase não há a sensação de que alguma coisa importa aqui. A narrativa fica muito mais domesticada.

Todo o resto da narração se arrasta por explicações desnecessárias e comentários expositivos. É o velho “show, don’t tell” levando múltiplos tapas na cara de novo; não são só coisas que simplesmente subtraem do impacto do que está acontecendo – pare de ficar explicando que a sua vida mudou, Ed, que você mudou, e me deixe PERCEBER isso, diabo – mas também que compõem um excesso de “gordura” literária fenomenal.

Leia de novo aquele trecho da página 258 ali em cima – vai lá, eu espero – e me diga: o cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim… Mas eu não deixo. O que demônios quer dizer “eu não deixo”? O que o personagem fez, exatamente? Nada. O personagem não fez nada, essa é uma frase absolutamente vazia e, como tal, tem um efeito absolutamente nulo no leitor – ou quase, porque pode causar chateação pelo fato de ser inútil (como acontece com cada vez que ele sonha e avisa que vai descrever um sonho. Eu pulei todos os trechos de sonhos. Sério, ninguém se importa com o sonho de ninguém na vida real e não é em livros não-sobrenaturais que vão se importar). É poética a frase, é bonita, deveria soar como se o cara fosse corajoso ou algo assim e eu a levaria em consideração para uma narração em terceira pessoa, mas… Não está fazendo nada de bom aqui.

Quando o monstrinho acorda…

Sim, Ed menciona três ou quatro vezes que a vida dele mudou, que ele está diferente, etc. De vez em quando isso é mostrado através dos acontecimentos que compõem a narrativa – e deveria ter parado por aí; já estava ótimo (só que, claro, não parou). Mas, vamos analisar melhor o que aconteceu de verdade nessa narrativa, especialmente com as cartas.

Primeira carta: ele foi fazer companhia a uma velhinha, fez uma adolescente acreditar um pouco mais em si mesma (meh), fez um estuprador sair de cena. Segunda: encheu a igreja de um padre com cerveja de graça, bate num garoto pro irmão mais velho defender o mais novo, compra um sorvete para uma mãe solteira. Terceira: compra luzes de natal novas para uma família mais ou menos pobre, lava roupa suja com a mãe (metaforicamente) e… Vai no cinema costumeiramente vazio de um… Cara qualquer? Quarta: Ajuda o Ritchie a começar a procurar emprego, ajuda o Marv com a filha perdida dele e dança um pouquinho com a Audrey.

Metade dessas coisas não é lá muito transformadora, pra dizer o mínimo. De novo, a mensagem é boa, mas lá pela terceira carta, quando ele fica dizendo “Ai meu Deus, lá vem a quarta carta, o que vai ser de mim, Copas lembra corações e as pessoas sofrem ataques de coração e etc”, você se pega pensando “oh, tadinho, toma cuidado que é capaz de você comprar mais um sorvetinho pra alguém”.

Os riscos a que ele está submetido são extremamente exagerados, especialmente porque o autor desfaz o mistério de algumas das partes de onde ele poderia vir (como quando o cara entra no taxi dele e manda ele seguir em frente, e tal – parece um assalto, mas o autor é incapaz de não transformar mais uma ameaça em caricatura e você já relaxa em dois parágrafos). De vez em quando o Ed leva umas pauladas e a primeira é tão absurda e desnecessária que só agora você pode entender que aquilo era uma exigência da história – para que você pudesse sentir um pouco de pena do Ed, já que é algo que não vem naturalmente.

“Mas e o estuprador?”, você pergunta. É o seguinte: aquela coisinha chamada “suspensão de descrença” é um monstrinho traiçoeiro. Se o livro fosse bem narrado e construído, tudo seria aceito numa boa. Mas quanto mais ele te irrita, mais você começa a pensar: o cara presenciou um estupro, descobriu que ele é regular, e ao invés de ir à polícia, a solução lógica é matar o cara. Sim, a polícia não é gentil com vítimas de estupro, mas ele é uma testemunha ocular que pode ajudar a fazer uma prisão em flagrante. Uma operação dessas é extremamente fácil de conduzir, principalmente naquelas condições.

E a coisa só piora. Você recebe uma carta de baralho com três endereços e… Leva a sério? Imediatamente entende que é uma “missão”, e seus amigos são compreensivos em relação a isso? Você tem a casa invadida, leva uma surra e, pela terceira vez, não vai à polícia denunciar a clara intimidação que está sofrendo? Você vê uma família desestruturada e acha que o problema é só uma briguinha de irmãos – e resolve solucionar o caso sentando o cacete no irmão mais jovem? Que porra é essa, Ed? Se o garoto é um bully proto-fascista revoltado, o irmão maior dele é o menor dos problemas. Você não resolveu caralho nenhum dando bola pra birra de uma criança que fica “ai, vou matar meu irmão, buh buh”.

Isso não faz sentido e, de novo, se o suspense fosse real e a narração menos preguiçosa e desleixada, ninguém nem pensaria nisso. Mas depois de um tempo, você começa a se perguntar que mundo é esse em que Ed vive em que as únicas instituições são uma empresa de rádio-taxi e uma igreja progressista. Por outro lado, o livro teria que ser muito bem escrito para apagar a decepção que foi esse final.

De How I Met Your Mother a Lost

Ok, vamos falar sobre uma coisa: Audrey é a única protagonista feminina. O arco narrativo dela é mais insignificante que o da mulher que ganha o sorvete e menos desenvolvido que o do irmão do padre. Pra você ter noção, caso tenha esquecido, Ed precisa ajudar Ritchie a vencer na vida pela primeira vez. Precisa ajudar Marv a reencontrar uma filha que foi tomada dele por uma família conservadora (de novo: Tribunais. Não. Existem nesse mundo.). Mas a Audrey, ah, o amor da vida dele, essa ele tem que ajudar demais… Fazendo ela aprender a encontrar o amor… Ok, ok, vamos ser justos, mesmo que isso seja um clichê de papeis de gênero ela é uma pessoa fechada e emocionalmente machucada, então… Ainda está valendo – como ele vai fazer ela se abrir para o amor?

Dançando uma música de três minutos com ela no quintal na frente da casa dela logo depois de ela ter transado com o namorado dela (que não é o Ed) e indo embora sem dizer nada e sem que nada mude.

Ele veio do nada, dançou um pouco e ao ir embora imediatamente depois deixou ela se perguntando se ele está precisando de ajuda psiquiátrica. De novo – poético, mas não faz o menor sentido.

Então por que o final é tão decepcionante? Primeiro porque pega essa personagem que, coitada, já é tão mal feita, e a piora. Em uma página, literalmente no epílogo, ela faz algo que não condiz com absolutamente nada que já tenha feito no livro inteiro – apenas para que possa servir de prêmio para o Ed, já que seria inconcebível que um merda que queira provar que é possível se dar bem na vida não tenha uma bela mulher ao seu lado. Não que ele não “mereça” o amor dela ou que ela não possa finalmente admitir o que sente por ele. Mas é súbito. É brusco. O diálogo deles, especialmente o que ela diz, é forçado e não tem nada a ver com a personagem (novidade!). É como Ron terminar Harry Potter com a Romilda, a Hermione com Krum, nenhum livro ter dado indicação de que eles estavam se aproximando e de repente, 17 ou sei lá quantos anos mais tarde… Eles aparecem casados um com o outro. Com filhos. Ou, embora tenha a ver com os personagens porém é brusco, quebra a narrativa e decepciona, o que aconteceu com o final de How I Met Your Mother.

Sinceramente? Eu seria capaz de apostar que a editora simplesmente não gostou que Ed e ela não ficaram juntos. Zusak, sem saco pra reescrever os últimos capítulos, jogou aquelas duas páginas de bosta ali para prometer um ao outro em matrimônio implícito.

E mais ou menos isso, eu ouso suspeitar, é exatamente o que aconteceu com o final inteiro. Zusak, em 2002, basicamente previu o destino da série Lost: uma premissa convoluta que no final não seria satisfeita por nenhuma solução – e a saída é qual? O deus ex machina de que tudo aquilo é uma ficção, Ed é um personagem de um livro (ha!) e quem estava mandando as cartas para ele era o escritor. Nossa, que inteligente.

Sabe o que é inteligente? Foreshadowing. Motivos para você ao menos suspeitar do final do livro. Coisas sutis que façam você reler a obra (ou simplesmente relembrá-la) e pensar “Uau, eu não tinha percebido esse detalhe! Caramba, que genial!”. E isso é extremamente frustrante porque a premissa do livro, como dito acima, é um mistério bom. O mistério invariavelmente convida a conjecturas; você quer ler até o final basicamente para descobrir quem é o puto que está mexendo com a vida dele dessa forma. Minha teoria é a de que era a Audrey – o que seria genial, porque explicaria a razão para ela se manter distante e namorando outro cara (ela estaria fingindo que não sentia nada por ele para que esse fosse o “gran finale”), ela teria um motivo pra fazer isso (como dito no próprio livro… Ela poderia amá-lo e querer que ele fosse uma pessoa melhor) e ainda seria muito bacana porque ela teria planejado até mesmo a parte do cinema (reler esse livro seria fantástico sabendo que ela sabia de tudo).

Mas não.

Esse recurso não é nada original. Uma das mais famosas aplicações recentes dele foi em O Mundo de Sofia, fenômeno mundial lançado em 1991. A diferença é que nele essa premissa é central, e explorada em profundidade; é marcante, é sensível, é coerente com a trama toda. Aqui, nada disso. Aqui é absolutamente broxante.

Esse livro tem partes boas; tem coisas legais, elementos que funcionam. Tudo que se relaciona ao sexo é bem construído, até mesmo a arriscada conexão entre Ed e Sophie. A mensagem é positiva e você fica investido no que vai acontecer, é verdade. Mas não dá pra aceitar algo como “ah, então tanto faz; você ficou doido pra saber o que acontece e isso significa que o livro é bom”. Não, não significa, porque eu também estou doido pra saber como as eleições dos EUA vão terminar, mas se o Trump vencê-las elas ainda serão um desastre.

Se eu tivesse gostado do livro essa postagem seria outra. Minha maior reclamação seria, talvez, uma ponta solta ou um tema pouco explorado (o que é que no passado machucou tanto a Audrey? Não seria bom ver o Ed ganhar confiança também em sua performance sexual?). Faria uma análise sociológica sobre a mensagem do livro – o culto ao sucesso individual e o foco no “indivíduo” como o alvo de toda ação que visa melhorar o mundo – ou quem sabe até sobre a metafísica do sacrifício que se liga, inclusive, à ideia de liberdade de expressão como valor absoluto. Mas fiquei tão pra baixo que já não estou mais nem aí pra “mensagem”.

Esse livro tem uma premissa fantástica e consegue envolver o leitor, mas envolve que nem uma cobra; falha miseravelmente com um estilo inapropriado (que subdesenvolve personagens), uma trama que não se leva a sério, e um final indigno que transforma um suspense fraco numa auto-ajuda barata.

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