
Como é interessante a repulsa que às vezes podemos sentir por uma posição parecida com a nossa mas diferente o suficiente para causar atrito... Minhas percepções *durante* a leitura foram mais duras do que seria justo; tendo terminado o livro, acho que é um argumento OK mas que peca em alguns pontos.
No que tange às diferenças, acho que o autor confunde algumas coisas, tira conclusões estranhas dos dados que apresenta, deixa no ar alguns não-ditos que prejudicam a apreciação de uma versão mais interessante do argumento... Em especial porque me parece que parte de uma posição bastante sectária de luta social em que não reconhece avanços parciais, muito rapidamente julga-os como recuperados pelo sistema e inúteis a um avanço maior (comenta sobre 2013 da perspectiva do ""grau de insuportabilidade"", mas não parece saber que na verdade essas revoltas ocorrem justamente após um período de ascensão social), e tem uma obsessão com a necessidade de ""unidade"" dentro da classe trabalhadora (e inclusive uma visão bem tosca - o futuro é colorblind, mano - de igualdade) que trai uma certa alergia ao reconhecimento de lutas transversais que possam provocar conflitos produtivos. Enfim, certas diferenças, mesmo entre posições parecidas, causam um ranço porque é justamente porque são com pessoas que pensam parecido que a gente acaba convivendo mais, e portanto com as quais acabamos nos estranhando mais... O ranço é grande porque eu imagino o tipo de consequência política que essa postura do livro traz pra militância, e sinceramente, acho essa postura tão improdutiva quanto os excessos identitários que o livro critica.
O livro é tão cansativo quanto importante, e enquanto a descrição dos fatos é interessante e abrangente, a abordagem do fenômeno é capenga. As impressões que ficam são:
1) Pouco rigor teórico. Não parece haver uma base firme metodológica sobre a qual o olhar dela se sustenta. Ela parece convocar autores pra vir ajudar a fazer o argumento daquele momento quase que procurando no google (hehe) que autor já falou sobre o assunto; é uma salada. E depois que vi que ela lida mal com um conceito de Arendt, começo a desconfiar da qualidade da leitura que ela faz dos autores que mobiliza. Já vi, por exemplo, leituras interessantes de Skinner [o psicólogo behaviourista] que vão na contramão da interpretação dela. No vácuo, e considerando os trechos que ela apresenta, tendo a concordar com a visão dela, mas os deslizes me deixam na dúvida. A literatura que ela cita pra falar da ligação entre uso de redes sociais e depressão / transtornos de saúde mental vem sendo contestada também.
2) O ranço com o desleixo dela se intensifica quando percebo que há uma enorme insistência na invenção de conceitos - há um milhão deles, não só ""capitalismo de vigilância""; tudo ganha um novo nome técnico -, sob a sombra da ideia de que se está mesmo falando de algo novo, e aí fica aquela dúvida se isso não decorre apenas da vontade de acumular prestígio acadêmico. Mas aí eu acho (vide o ponto abaixo, mais decisivo) que isso nem é tão nefasto assim e dentro da construção que a autora faz, faz sentido.
3) O problema contudo é justamente essa construção que ela faz. Pra mim, o hiperfoco dela nessa camada do capitalismo atual serve pra deixar de olhar criticamente para o capitalismo como um todo, que é a óbvia origem deste fenômeno específico que ela captura.
Inclusive o último capítulo dela é dedicado a responder à pergunta ""mas isso não é só o capitalismo?"", e ela responde muito, muito, mas MUITO mal. Em parte porque a resposta dela não dá conta do fato de que se o capitalismo de vigilância for o desenvolvimento do capitalismo de antes, não adianta querer combater só o de vigilância sem atentar para como todo o poder que lhe deu origem foi concentrado em primeiro lugar (e que torna, portanto, tão difícil de combater o de vigilância). Ela explica (e ainda o faz mal) a especificidade do aspecto da vigilância, o que justifica a distinção conceitual - em outras perguntas, ela pretende responder à pergunta interpretando ela num sentido restrito, acadêmico, como se a moral da pergunta fosse ""por que você precisa de um novo conceito?"". A questão não é essa. Ao dizer pra mim mesmo, durante a leitura, o tempo todo, ""mas gente, isso é só o capitalismo mesmo..."", eu não estava negando a especificidade do que ela está descrevendo, mas apenas observando que isso é a consequência óbvia de todos os imperativos da lógica do capital, e que portanto não é uma quebra com essa lógica que justifique ficar tão abismado com o que está acontecendo sem entender que esse sempre foi o caso.
E aqui vem outra razão pela qual a resposta dela é muito ruim. Na p. 470 em particular há um parágrafo muito emblemático quanto aos defeitos da abordagem dela:
Industrial capitalism depended upon the exploitation and control of nature, with catastrophic consequences that we only now recognize. Surveillance capitalism, I have suggested, depends instead upon the exploitation and control of human nature. The market reduces us to our behavior, transformed into another fictional commodity and packaged for others' consumption. In the social principles of instrumentarian society, already brought to life in the experiences of our young, we can see more clearly how this novel capitalism aims to reshape our natures for the sake of its success. We are to be monitored and telestimulated like MacKay's herds and flocks, Pentland's beavers and bees, and Nadella's machines.
Há tantas coisas curiosas aqui. Quer dizer, o capitalismo explorava e controlava a ""natureza"", não os trabalhadores! Incrível! Só agora nós reconhecemos - não, não, socialistas libertários, e principalmente povos indígenas colonizados ao redor do mundo, jamais reconheceram os problemas que a exploração da natureza gerava. Tudo bem, talvez ela esteja querendo dizer ""nós"" no sentido da opinião pública majoritária, mas ainda assim isso passa por essa divisão moribunda entre natureza e natureza humana. E embora ela justifique essa questão da especificidade do que ocorre agora como uma intensificação muito brutal dessa lógica, ela é incapaz de reconhecer onde a lógica começou. É muito curioso como acabo de escrever uma tese sobre como anarquistas criticam a conformidade criada por esquemas de soberania/dominação (Estado-capital-patriarcado-supremacismo branco) usando inúmeras vezes da metáfora maquínica, de que querem de fato nos transformar em máquinas.
É essa falta de veio crítico, que nasce da adoção dos conceitos acríticos do mainstream, que faz com que a análise dela seja tão ruim, tão incompleta. Ela dá importância demais ao fato de que no modelo chinês é o Estado que leva adiante a vigilância, enquanto que no ocidente esse poder passa por outras redes (em outro momento ela também explica porque esse poder instrumental não é totalitário mas é tão ruim quanto, etc). Mas são adaptações diferentes, baseadas em diferentes contextos socio-históricos, do mesmo impulso. Compreender as interpenetrações em termos de projeto social, de visão de mundo, entre Estado e capital, ajudam a explicar como que os Estados faziam antes o que agora se tornou inaceitável para que eles façam (uma certa vitória progressista); no entanto, o MESMO projeto continua agora com base na mesma ideologia liberal que atacou os Estados mas nos inoculou para essa vigilância aplicada a partir de entidades privadas. O fato é que esse poder instrumental todo sempre foi o impulso do binômio Estado-capital, e não enxergar essa compatibilidade de projetos faz com que se gerem todas essas reivindicações de que estamos olhando pra uma coisa completamente diferente.
Evidência dessas interpenetrações, de que não podemos entender esse fenômeno sem entendê-las, é um dos grandes calcanhares de Aquiles da análise dela: esse foco enorme nas novas formas de poder, que realmente atuam por ""incentivos"" no estilo individualista-mercadológico, mas que simplesmente não teriam nenhuma forma de ocorrer sem o músculo estatal (p. ex. de defesa da propriedade privada) que fornece as fundações do mercado em si. O jeito como ela fala da conexão entre liberdade e ignorância no contexto do mercado está destinado ao fracasso analítico porque a premissa já está inteira errada: a ação individual enquanto produtor/consumidor no mercado não abarca o papel da violência impositiva do Estado como viabilizadora fundamental da dinâmica do mercado.
Essa quase amnésia de toda a exploração ""suja"" e violenta das redes globais de dominação me fez perceber que é um livro decididamente escrito por uma pessoa branca dos Estados Unidos para o público do mesmo país. É uma coisa impressionante, mesmo, a forma como ela se choca e hipervaloriza essa nova realidade de dominação como se ela tivesse substituído outros modos de dominação, sem os quais na verdade ela não é nada - eu, sinceramente, não consigo dar toda essa trela para esse fenômeno _ainda que_ reconheça sua crescente importância; pra mim ela precisa supervalorizar o objeto para que possa inflar a importância da própria produção teórica. De qualquer modo o sinal mais importante do público para quem escreve e da visão que têm é um outro argumento que ela usa em resposta à ideia de que o capitalismo de vigilância é basicamente o capitalismo: ela diz que o capitalismo costumava ser ""definido por reciprocidades orgânicas"". Incrível! Que teoria colonial, cara. Impressionante. Ela tem em mente, é claro, o welfare state; fala da ""benevolência"" de um Ford, enfim. É uma coisa surreal mesmo de idealização do capitalismo que cai por terra no momento em que você entende seu papel mais amplo na maioria esmagadora dos contextos num nível global e historicamente mais amplo.
É esse liberalismo safado de ""vamos salvar o capitalismo do capitalismo de vigilância"" que enfraquece substancialmente a análise. Aliada à falta de rigor intelectual, ainda por cima, a coisa fica ruim. Eu acabo dando uma nota mediana pro livro porque há alguns insights interessantes dentro dele. Por exemplo, de que a frase ""se você não paga, você não é o cliente, mas sim o produto"" está errada; no caso de google, facebook e afins, você é a casca que sobra depois que sugaram o produto de dentro da sua subjetividade. Outro exemplo interessante é essa questão do mercado de futuros construído em torno da noção dos dispositivos voltados não só pra captação de dados mas para a atuação sobre as pessoas por meio do ambiente. Também tem a questão, acho que uma das melhores observações do livro, de que deixamos de questionar porque toda experiência precisa ser renderizada em textos (a mediação das atividades via textualidade digital etc). Então tem coisas boas, mas sofrer 520 páginas de conteúdo pra garimpar isso no meio de uma teoria mole e ainda salpicada de encheção de linguiça, sem falar algumas repetições chatas, é complicado.
Este livro é muito bom. Um resumo muito legal de muitos recursos e experiências, em linguagem acessível mas que mesmo assim pode ser útil a quem já conhece algumas coisas daqui. Não ficou claro se é uma tradução de algo estrangeiro misturado a conhecimentos e textos locais - é o que parece; seria legal apontar as fontes se for o caso, e embora a tradução tenha ficado atravancada em um ponto ou outro, não compromete a leitura e a qualidade do trabalho.
O que baixa a nota para mim é o endosso à homeopatia, que é patentemente absurda pra qualquer pessoa que busque saber o mínimo sobre ela - é realmente mortificante ver um trabalho tão lindo dar legitimidade a uma parada tão tosca. Nem dá pra se apoiar na ideia de medicina decolonial porque essa besteira foi importada da Europa. Enfim. Ignorando as menções a isso o livro é fantástico.
Excelente coletânea, presença obrigatória na estante de toda/o cientista social.
Textos ótimos: Martineau, Addams, Varga, Maruyama, Srinivas, Mardin
Textos bons: Firmin, Ramabai, Du Bois, [Marianne] Weber, Komarovsky
Textos não tão bons: Gamio (péssimo, não deveria estar aqui, única coisa realmente chata da coletânea), Kuper, Takeuchi, Ahmad
Acho que todos os pedidos de desculpa contidos no livro - que são engraçados, diga-se - são um mecanismo de defesa do Douglas, porque não podem ser reais - o livro é bom de verdade!! Não tem por que se desculpar.
Obviamente que não ""bom"" pela ótica de Esnobes da Grande Literatura que exigem grandes dramas humanos em tramas hipercomplexas e rebuscadas pra considerar alguma obra boa. Mas eu adorei que o Douglas tenha ""cometido"" esse livro, é muito gostoso de ler. Eu fiquei ainda surpreendido que os poemas foram minha parte favorita; não costuma ser o caso. Tem sacadas muito boas, tramas curiosas (pra dizer o mínimo), um tom desengonçado que deixa a leitura leve, uma sensibilidade nonsense que eu, pelo menos, compartilho... Enfim, eu, particularmente, adorei.
Este livro é uma etnografia do povo Guajá e, como tal, é certamente bastante densa e trabalhosa de ler. Dei cinco estrelas porque é foda julgar uma obra por uma coisa que ela não se propôs a ser, então ela certamente merece muitos elogios como etnografia. O autor transborda conhecimento, perspicácia, paixão, e mesmo nesse contexto acadêmico ainda consegue injetar algum humor aqui e ali, além de trazer algumas reflexões sobre pontos de maior alcance da própria obra.
Além disso, a resenha tem que se preocupar em julgar a obra e não seu vivo conteúdo, mas - não poderia deixar de dizer que a vida dos Guajá é interessantíssima, e muitos pontos de suas filosofias foram muito bacanas de descobrir. Em algumas partes, inclusive, me senti quase que numa história de detetive, pois é realmente um quebra-cabeça tentar decifrar como certas ambiguidades e sobreposições de significados podem coexistir nessa cosmologia. É muito, muito interessante, e apesar de ser um comentário sobre o objeto de investigação, não deixa de ser também um elogio ao trabalho bem feito do autor, pois isto só é possível de sentir devido ao seu bom labor como transmissor dessas impressões e dessas ideias.
O livro é muito bom, especialmente as partes finais, mas tem dois problemas que desapontam bastante.
O primeiro é um tratamento pouco complexo de uma certa duplicidade de tradições que ele classifica como anarquísticas no comunalismo africano. Às vezes os grupos que determinam punições para transgressores usam máscaras para mostrar que são imparciais, para se colocar como a voz da comunidade e não de indivíduos específicos - ok, mas se a classe judiciária usasse máscaras isso não mudaria nada, certo? Ok, mas esses indivíduos não são uma classe à parte - certo, mas também sabemos da via de mão dupla existente entre a concentração de poder político ou cultural e do poder econômico. Então isso é um problema estrutural pois abre um precedente _para que_ decisões parciais (mesmo que não haja um incentivo econômico estrutural para que o sejam) _se passem_ por imparciais, e com menos margem para questionamento a coisa vá permitindo uma concentração de poder. Fala-se também de punições para familiares e comunidades, não só para o indivíduo. Se estivermos falando de responsabilidade por compensação num esquema de justiça restaurativa, ok; mas dentro de um âmbito penal isso abre margens muito complicadas. Isso e outras coisinhas passam batido pela análise.
O segundo problema é uma adoção majoritariamente acrítica de um evolucionismo de ""formas econômicas"", e em certo momento até mesmo um determinismo tecnológico que, especialmente tendo acabado de ler o The Dawn of Everything (Graeber e Wengrow), parece-me extremamente ultrapassado e complicado.
São dois problemas de profundidade teórica que, no entanto, não diminuem a potência da análise de conjuntura sobre a África, nem a pertinência das colocações de caráter histórico e como o anarquismo se encaixa, no passado e no futuro, nessa dinâmica.
Unidas nos lancemos na luta: O legado anarquita de Maria A. Soares

Cuidadosa e primorosamente pesquisado, o livro é mais que uma compilação de textos de mulheres anarquistas do passado - o que já seria excelente; conta também com vários artigos originais analisando mais amplamente sua contribuição, e são ótimos. Um trabalho coletivo que incorpora os próprios ideais das mulheres aqui recuperadas e faz-se uma contribuição essencial para quem deseja compreender melhor o anarquismo, o feminismo, e as redes transnacionais de militância política no começo do século XX. Excelente!
Lindo e poderoso.
Uma potente denúncia da sociedade de sua época e uma bela visualização daquilo por que lutar. Curiosas as passagens sobre o Brasil... Excelente introdução e ótima ideia incluir o julgamento no final, talvez melhor até que o discurso do título. Bom demais. Projeto gráfico muito além das expectativas, maravilhoso. Livro incrível de uma pessoa incrível.
Contains spoilers
I am currently finishing a thesis on the anarchist concept of freedom, so when I came across a book called Dancing & Digging: Proverbs on Freedom & Nature, knowing it was written by someone in the anarchist community broadly conceived, I just had to take a look.
Dancing is a landscape oriented pocket book full of short phrases that encapsulate wisdom regarding, as the author explains, “freedom, nature, surprise, belonging, habitat, anarchy, rebellion, community”, and more. Written by Shaun Day-Woods and also featuring really beautiful woodcuts by Rick Herdman, it was published by Night Forest Press in 2021.
Shape and method
There is very little prose in it; the vast majority of pages are dedicated to housing one or two proverbs each. But the little explanation readers are given is quite insightful. We get a nice definition of proverbs as “the wit of one and the wisdom of many”, and then see them described as phrases that “allow for nuance, layered meanings, humour and irony”, which makes them “ideal to muse over or meditate on”. It is explained that these sentences are “based on [the author’s] lifetime of observations and study as well as on conversations had with friends and neighbours”.
However, it’s unclear whether the book’s “chapters” – such as “These I learned along the way” and “These are the words of my ancestors” – refer literally to the origin of the sayings, since one is more vague (“These came from the wind”) and none of the parts seem to have a particular “personality”. It feels like any proverb could fit anywhere in the book. In any case, most proverbs (in general) have “an untraceable progeny”, and the author writes that although he “might be associated with these for now, the hope is that over time a few will become part of an anonymous radical-folk philosophy”.
Readers are given a recommendation on how to use the book. Basically, there’s no particular order to it (the pages aren’t even numbered) and people shouldn’t binge it. This leads me to a disclaimer about how I used it. I’d love to have taken the leisurely and random approach suggested, but I faced two issues. First, I wanted to be able to cite some proverbs in the thesis. Secondly, I would soon lose access to the book (I bought it with an allowance from my scholarship that requires it to be turned over to the university after I’m done with the write-up). The solution I found was to read two pages (2 to 5 proverbs) every one or two days, sequentially, writing the page number as I counted it on a piece of paper that doubled as a bookmark. Even though I’ll admit this felt a little mechanical, quite unlike the magical promise the book represents, I’m glad I made sure I could read all of it before I had to give it up and that I could cite it properly when needed.
The book is well typeset, with its design perfectly in tune with its content. The format is unusual, and so it immediately sparks curiosity. I wished there were more woodcuts, cause they were just marvelous. There are blank pages at the end, as readers are encouraged to write their own proverbs and share them with the authors, which I thought was a lovely touch. The preface also suggests games to play with the sentences.
On cities
What about the proverbs themselves? I thought at least about a third of them were really good, and for me (as a person even more than as a researcher) they made the book quite worth it. But there were a few things about the rest that irked me in varying degrees.
What first jumps out is a deep hatred for urban landscapes. “Living in a city is living in a dead habitat”; “The city owns the individual”; “Cities arose from negative and harmful forces”; “Hyper-alienation was born in the city”; “Cities are cemeteries” (… because “the wild” is not?), etc. It’s just so relentless that all nuance is lost. I mean, maybe this last one has “layers” – cemeteries are not necessarily bad, right? Well, after reading two dozen variations of “cities are bad”, I doubt it’s not an attack.
Granted, capitalism does shape cities into hellscapes, and so this denunciation is valid. But aren’t proverbs supposed to go beyond current facts to reach for deeper truths? I think there is something charming and genuinely alluring about cities as large gatherings of networked people. What I mean is that it’s legitimate for people to want to “conurbate”, even though I wish we did it in more egalitarian and diverse ways. Cities can surely become better environments overall, also; Kropotkin’s and Reclus’s always struck me as powerful visions for cities.
But criticism here is absolute. “Cities require obedience to authority” – no, no they don’t. They don’t! There’s something about being close to a lot of people that energises us with the prospect of chance encounters, transformations, alternatives, complex collaborations… Something warm and exciting that people should not have to choose over and against “forests”, but neither give up for the sake of those. So even though I can totally see what these proverbs are getting at, the blank condemnation of “the city” as an archetype falls flat on me, and I’m sure it also will on many others.
Shouldn’t I have expected this from a book about nature? Definitely not. I thought it would challenge any rigid boundaries between humans and nature, as anarchists have almost universally done. In fact, a good proverb from the book goes like this: “The fewer the boundaries, the closer to truth”. It could push beyond other dichotomies too, such as life and death. A sentence like “Cities are cemeteries”, by itself, could certainly be a reflection of this last sort – which the book actually does well with other sayings, such as one of my favourites: “You aren’t alive if you aren’t being eaten”. There’s also “After death we decay and become soil nutrients, a final reciprocity with the earth”. And it’s not like the human-nature divide is not challenged either; one of the opening proverbs is “All of nature is inside you”. That, I like. But nuance goes out the window the second cities are mentioned.
I just think we as humans are part of nature and hence everything we do, including cities, is as natural as everything else around us. It might not be good for us, what we’re currently doing with them, but then again nature is about reality itself, encompassing everything, good and bad alike. Maybe I’m thinking about nature, the concept, while the authors just meant it as “trees and rivers and stuff”. It would be a little disappointing, but understandable. Come to think of it, there’s not a lot here about farms… Perhaps they are talking about “wilderness” more specifically. What does a proverb sound like?
In any case, as the idea of “timelessness” was behind my negative reaction to this city-shaming, I started to ponder on what made a good proverb; perhaps other expectations I had about them could explain what made me dislike other sayings in the book.
For me, proverbs require a “turn-of-phraseness” that includes a certain… pattern? Rhythm? They shouldn’t be too short; “Kill to live” is more like a motto or a slogan. And they definitely should not be very long. The one about “soil nutrients” above could lose the bit after the comma, or collapse it into the first part somehow. Then there’s this: “All around us are invisible veins of existence, streams of life. We need only cup our hands and dip into them to retrieve music, ideas, insights, power”. I’m sorry: this is either a poem, a mini-lecture, or a tweet, but not a proverb.
It also struck me as odd that some sentences were in the imperative mood. What is up with that? Take “Kill to live”, mentioned above. Why not “Everything that lives must kill”, or “To live one must kill”? I don’t know, maybe it’s a Western prejudice that “wisdom” has to do with declarations about reality. But formulas like “X is Y”, “X is not Y, but Z”, “When A, then B”, or “Not every W is C” just seem to fit much more comfortably in that proverb outfit. The imperative mood is even acceptable if it’s a little more complicated; something like a negative conditional (“Don’t X if Y”). Day-Woods is quite clear in the preface that he seeks a more “practical” wisdom, so maybe these instruction-like sayings are coherent in that sense. Regardless; when I read “Become a child” or “Deify your prey”… They just don’t feel like proverbs to me. What should a proverb do?
Aside from phrasing patterns, there is also the content, and here I had two separate issues: “directness” and the use of “big words”.
I think proverbs stick when they’re not easy. They put you off a little, puzzle you; they are not obvious, even when they’re simple. This involves, for example, playing with angles (“A society with prisons is a prison”), presenting apparent paradoxes (“The more you give the more you have”), or using metaphors (“Don’t turn down the deer unless you have a salmon” – a negative conditional imperative, by the way!).
Some proverbs in the book lacked this; glaringly at times. Take, for example, the classic “An empty mind is the devil’s workshop” (not in the book). The authors seem to disagree, for they’ve given us “An empty mind heals”. Notice the difference? The first one doesn’t go “An empty mind is bad for you”, or “An empty mind harms”. It gives you a mental image to process – a demon cutting plywood. Why not “An empty mind is”… “a hospital”? Maybe these are bad because they are part of the city or something. Fine – “a bandage”? Too simple? “Aloe vera” – medicinal plant, can be found everywhere… Weird sounding? How about this one: “An empty mind is a sage” – a word for both a wise person and a medicinal plant! Another one: “For a broken bone, an empty mind”. It gives pause; surely you want to do something more with the bone to heal it. But while it incorporates the suggestion that empty minds heal, it also says something about cooling down after an aggression or an accident, instead of seeking revenge or feeling guilty.
This is unfortunately a very common problem in this book. “Cities arose from negative and harmful forces”. This is a mini-lecture too, despite its size. “A society with prisons has no greatness” – I much prefer the one above, about it being a prison itself; this one doesn’t leave anything to imagination. It just states what it means! “Music connects hearts”. Yes it does. “Lack of courage dulls life”. Can’t argue with that. “Play is superior to work”. Of course it is!
I mean, they’re not wrong. Maybe I’m not the one who needs to hear them; I’m not a calvinist. It’s just that it doesn’t give the reader the joy and wonder of discovering the meaning through toying around with the words. Or chewing it over time because it’s not clear what it means until you stumble upon an experience that opens it up for you and you finally get it. Critical reflection doesn’t go very far because there’s nowhere to go. “Ah, but you see, one must work to be able to live to able to play, how about that? Gotcha“. But if play is the reward we’re after, it’s still superior. Straightforwardness leads to pedestrian discussions.
I think the directly political proverbs suffer slightly more from this than others. “Often it is most efficient to make your resistance indirect”. “Understand the difference between attack and defence, or lose”. “Do not let anyone get political power”. “The statist is never on the people’s side”. Are these proverbs or guidelines in a manual for guerrilla warriors? I mean, proverbs can induce us to become a “liberation army” (as one saying goes), and this is a radical book so they really should. But I think they are more effective in this regard if they do so as proverbs; with subtlety, without broadcasting what they are so that they can be planted like seeds on minds behind conservative gates. Funnily enough, I like “Secession is smarter than civil war”, because the macropolitical implications are less interesting than the general principle, which can be applied in many other circumstances. On the other hand, “The cat is patient, but to live must eventually pounce” (right above the “attack and defence” one, by the way) is a good example of wrapping these messages in little disguises. “The currency of banks is the sorrow of exploited humans and the cry of plundered nature”. Why not “Coins are made of tears”? The one in the previous page is more like this: “Our wallets are filled with suffering”.
Let me return to “Play is superior to work”. Why not this: “It’s better to play with a computer than to make one”. Not so fast – there are people who enjoy building computers. This is playful for them! But maybe this refers to the terrible conditions in which the chips and parts themselves are made, or to child slaves in mines and stuff – so considering this, is it good to play with computers at all? We’d still be comparing “play” to “work”, but their complex intertwinement can be teased from the imagery employed. How about this: “I’d rather seesaw than saw”. There is the seesaw (to play with) versus saw, the verb related to using the tool (which can be used to build a seesaw), but there’s also the verb seesaw (as in oscillate, have mood swings) compared to using the tool not for work but for violence. There’s even the revolutionary point, that I don’t think any of these transmit, that we shouldn’t hate “useful activity” itself but make it playful and artistic; we should eliminate drudgery in the “work” needed for everyone’s nourishment and satisfaction.
There are many exceptions here. Indeed there ought to be, since “X + relational verb + Y” is a good shape for proverbs – wouldn’t all of these fall under this criticism? Not really. Take one of my favourites from the book: “Beauty is found, not created”. This is wonderful, because you really resist it at first. Doesn’t it seem odd? Of course it’s created, artists do it all the time! But what are they doing, really? And then you get to thinking… Then you apply it to aesthetic judgments of nature (including people)… Then you return to artists’ processes… Then you think about music – the notes and chords are all there, nothing new is being created; you’re just finding out which go well together. Then you go back to people: are there really ugly people? Or are you just not looking at them with the perspective needed to find the beauty that’s in everyone?
To be fair, “An empty mind heals” can also be resisted (maybe because of the hold the “devil’s workshop” paradigm has on people). I understand that what each proverb in the book has to give depends entirely on the receiving end. Maybe this is absolutely mind-blowing for non-anarchists. But unlike the one about beauty, there’s not a lot to explore about the empty mind’s healing powers. You either accept that as a truth or you deny it. The same goes for “The statist is never on the people’s side”. What about literal populists? Wouldn’t many knee-jerk reject this without a second thought? There’s nothing in the sentence itself that gives you something to work with to help reflect on the issue. There’s no journey. Proverbs should pack a punch and reveal more stuff inside when unpacked. They can be simple, even straighforward, but shouldn’t be a piece of cake nor fall on our ears like a tautology. Who is a proverb for?
A second problem is the use of big words. Compare, for example, “You aren’t alive if you aren’t being eaten” with “After death we decay and become soil nutrients, a final reciprocity with the earth”. The second one is not only unwieldy, it’s also a bit… Technical? “Decay” has a haunting beauty to it, at least, but “nutrients” and “reciprocity” don’t match its poetic stance. The first, in contrast, uses a basic activity (eating) to explore the hefty concept (being alive), and it makes for a delightful sentence.
The worst offenders here are technical words from the social sciences. “Putting others into a category box is oppression”; “Political power opposes self-creation”. Come on – this could be plucked straight from a text by Foucault, if only he hadn’t been born in France. “Society” is a frequent notion in the book, but what is “a society”? I just don’t believe it’s a useful word for proverbs. I don’t even understand whether the authors think it’s good or bad, since we’re also given phrases like “Societies emerge only when people have lost their connection to nature” and “A group of friends is an intimate, organic circle, not a society”.
I return to timelessness as a criterium. Although there are some modern phenomena discussed that are worth including in sayings, as we can more readily understand them (did I not suggest “computers” above?), there’s something fascinating about reading a proverb about “a village”, because you can extrapolate it to mean something about any “large group” (including cities). On the other hand, modern stuff (prisons, schools) work wonderfully here as symbols for notions that would have otherwise felt like big words – domination, indoctrination, etc.
In the end, I do have to admit timelessness is a little dumb when we’re talking about human affairs, and I came to realise I’m being cranky at this point. There aren’t many more examples of this use of big words, anyway. I guess I initially thought that proverbs should be easily digestible, in terms of the vocabulary used, because if you have to go to the dictionary to understand it, you probably won’t pass it around – you’d be afraid of sounding awfully pedantic. Plus they perform a sort of teaching function, so kids, for instance, should be able to understand them. But then again, it’s important for us to be confused in more than a poetic way, and proverbs could teach people new words, too. There’s nothing wrong with that.
Amidst the recognition that nothing that I’ve written here is a fair appraisal of the book, for every reader will react differently to it, I wish to mount one last defence of my thought process. I guess it all boils down to something like the ability to picture someone saying out loud: “Well, you know what they say! <insert proverb here>”. I swear to you: I cannot imagine someone non-ironically saying “As my grandparents used to say, let ghosts and dogs touch your heart”. I just can’t. It’s not gonna happen. But the criteria above are not absolute. “There is a saying in my family that goes like this: be the first on the dance floor at least once in your life”… Yep. This works. Let this book touch your heart
In the end, I don’t want to give the impression that these issues are overbearing. In fact – and this is the reason for the disclaimer above – I wonder if I would have even thought about all of this had I not combed down the book’s content at a regular pace. I think engaging so systematically with it made me critical because I liked it; I recognised greatness in the overall idea but thought the execution could be more fine tuned.
There’s a lot to like here; sayings I’ll cherish forever and that I hope I can incorporate into my life. In addition to the ones I already mentioned, here are a few others I really liked: “Don’t die more than once”. “Don’t hide in a maple tree. Autumn always comes”. “Music is the easiest friend one could ever have”. “Enemies can still be our teachers”. “Secure fighters choose their tactic, the weak have it imposed on them”. “The one who calls their opinions theories has colleagues but no friends”. “Facts settle arguments, but they do not solve problems”. “Lack of free time is the greatest poverty”. “Everyone should know what it is to follow, to lead and to walk alone”. “Prisons don’t prevent crime, hospitals don’t prevent illness, schools don’t prevent ignorance”. “Don’t confuse success in adapting to confinement with wisdom”.
Regardless of the end result, this is a very nice initiative that, come to think of it, couldn’t have been better, simply because even if proverbs are born as “the wit of one”, their edges are roughed out and their references are consolidated only by the “wisdom of many”. I didn’t do a better job myself. In the “Proverbs by you” blank pages at the end of the of book, I wrote three proverbs: “Conflict requires immediate attention, but only time can bring true resolution”. “To know oneself is also to make oneself”. “The antidote to negativity is not positivity, but warmth” (I stole this one from Facebook). Not quite masterful, eh? I like them because they speak to me, and they took shape as I battled writing the thesis and seeing a shrink (for the first time in my life). But they could have been better, too.
In the preface, Day-Woods admits that some of the proverbs in the collection “might already exist, are derivative […], won’t pass the test of time or are idiosyncratic[…]”. He goes further: “some will be misunderstood, some will be challenged or be scoffed at for various weaknesses”. I have done all of these things in this review, I guess. I do think some of them could be cut out (the number of proverbs was based “on the number of intersections of the Go board” – that might explain why some feel like filler), and a lot could be improved. But this was never up to Day-Woods, was it?
Just today I was reading a book of texts published in the early 20th-century Brazilian anarchist press by Isabel Cerrutti (1886-1970). She mentions going to a lecture and hearing Maria Lacerda de Moura repeat something that goes (translated) a little like this: “Peace among us, war against those who exploit men!”. Funny – I recognise that from protest chants, but it’s a little different; “Peace among us, war against the lords”. So the version that reached my generation is a little simpler, and thus a little more elegant. And it’s probable that de Moura didn’t create it in the first place either (edit: yep – apparently she did not).
It was never up to Day-Woods because it’s not really an individual process. It’s a collective, never-ending attempt to condense radical sensibilities into practical truth. With this book, I think Day-Woods and Herdman have contributed a lot to this beautiful endeavour.
Originally posted at petercast.net.
Curioso. Se eu tivesse lido este livro há, digamos, uma década, a simbologia cristã teria me feito torcer o nariz. Hoje consigo apreciar a mensagem por suas implicações políticas a despeito dessa questão pessoal. Muito legal. Quatro histórias curtas (duas delas mais que as outras, mas nem por isso piores) e encantadoras, cada uma a sua maneira, e a última sendo sem dúvida merecendo o destaque do título - sem dúvida a mais divertida e também a mais impactante.
Sublime
Este livro é fenomenal. Não sei como demorei tanto pra lê-lo. Fui completamente envolvido pela leitura, pelos personagens, por tudo; o estilo é impecável (se ao menos um pouco antiquado, mas combina, em vários sentidos, com a ambientação) e as possibilidades que ele nos lega são muitas. Amei, amei demais!
Vou comentar o que fui pensando à medida que fui lendo, e vou fazê-lo, a partir daqui, com spoilers.
No prólogo, minha primeira opinião foi que somos jogados em cena de uma forma um pouco ""impressionística""; personagens sem nome nem características têm voz, sabemos que se trata de uma fogueira na noite de natal mas não sabemos bem onde, ou por que aquelas pessoas estão ali, ou qual a ambientação exata... Parece como um daqueles filmes antigos sendo queimados, só que ao reverso, em que a imagem completa (que de fato nunca se forma) vai aparecendo aos poucos, do meio pra fora, um círculo ali, um pontinho aqui, depois se juntam e vão se espalhando com um detalhe a mais aqui e ali, e assim vai, meio que com o mínimo de informação que for possível conceder. Talvez por ter vindo de uma leitura bem diferente ('O Coração das Trevas') fui impactado por esse estilo como se fosse algo ruim. Mas imediatamente reconsiderei: não, não, é bom. É perfeito, na verdade, para o tom sinistro que se quer dar à história que virá a seguir.
Inclusive achei que voltaríamos àquela cena inicial. Por que começar com um grupo lendo a história que leremos se não for pra terminar acompanhando os efeitos da leitura sobre eles? Bom, porque essa narração indireta (que aparentemente foi bem marcante de Henry James, conforme vim a saber depois) aumenta ainda mais o suspense, a expectativa. Nos deixa ainda mais conscientes de que estamos lendo um relato, por assim dizer, então nos distancia um pouco do ocorrido, em termos de julgamento sobre o que de fato aconteceu (algo muito importante nessa história) ao mesmo tempo que nos aproxima - que é o que toda adaptação tenta fazer quando coloca no cartaz aquela velha frase, ""baseado em fatos reais""... De qualquer forma, não digo que senti falta do reaparecimento dessa trupe no fim do livro. O fim é bom do jeito que é, e depois, o que é que se ganharia voltando a eles? O jeito que eles reagiriam nós já sabemos - é provavelmente como estamos nós mesmos reagindo.
De qualquer forma, sobre a história de fato. É o seguinte: sim, a relatora pode estar inventando tudo, ou escondendo coisas, ou ter escrito as coisas de um jeito extremamente parcial. Mas eu acho que a galera se passa um pouco ao falar de ""unreliable narrator"" _nesse_ livro em particular. Narrador que não dá pra se confiar você não confia porque existem elementos narrativos que te dão margem pra isso. Se for pra presumir que toda narrativa em primeira pessoa é ""desconfiável"" na literatura, daí fica difícil mesmo ler. Não é nem divertido, né. Me lembra aquele experimento do sociólogo Harold Garfinkel:
""Foi pedido aos estudantes que conversassem e agissem com alguém supondo que a outra pessoa estava escondendo os verdadeiros motivos para tudo que dizia ou fazia. Ou seja, cada estudante deveria presumir que a outra pessoa estava tentando enganá-la. Foi difícil sustentar e levar adiante a tarefa. Os estudantes disseram ficar o tempo todo pensando que eram parte de um ""jogo artificial"" e que não estavam conseguindo ""fazer o papel deles"", e que frequentemente “não sabiam o que fazer a seguir”. Ao escutar a outra pessoa, não conseguiam fazer mais nada ao mesmo tempo. [Muitos] disseram que se esforçaram tanto em manter a atitude de desconfiança que se perdiam no meio da conversa. [...] Para muitos estudantes, supor que a outra pessoa não era o que parecia e por isso devia ser tratada com desconfiança era o mesmo que supor que a pessoa estava irritada com eles, ou que os odiava.""
Tipo, sem a gente ter evidências de que falta algo na narrativa, ficar pensando ""ah mas pode ser que"" é meio que um exercício vazio. Sim, ela pode ter mentido, porque sim. Tá, e...? Pode ser que tudo que aconteceu em Harry Potter é um delírio dele, um sonho que seu cérebro inventou quando ele tinha 10/11 anos pra fantasiar com uma vida além da horrível que ele tinha. E daí? O que isso adiciona? Qual o sentido dessa interpretação? Eu acho que ela só atrapalha a imersão na história.
Então, eu gosto de pensar que a narrativa deve ser interpretada, no mínimo, como algo ""sincero"". Se ela estiver ""louca"" e os fantasmas forem coisas de sua cabeça, ok - mas eu quero que isso seja uma interpretação plausível _dentro da história_, e não porque ela, ao ter escrito suas memórias, escondeu alguma coisa no relato dela, que é uma coisa que podemos tirar da cartola se quisermos mas não tem evidência nenhuma.
E, com esse parâmetro, há duas evidências, uma fraca e uma forte, de que as aparições eram reais. Em primeiro lugar, Miles de fato morre. Ok - essa é fraca porque o garoto podia ter, sei lá, uma condição genética do coração, e ter dado um infarto ali numa situação emocional. Bem, a questão é que, sem nunca ter conhecido, visto, ou ouvido falar de Quint e Jessel, a narradora os viu, e conseguiu, AO DESCREVER o que tinha visto, evocá-los na memória da governanta. Ah, gente, não, poxa... Isso pra mim é cheque mate. Os fantasmas são reais! O único jeito de não serem é a narradora ter tido conhecimento detalhado deles _antes_ disso e não ter _nos_ contado. De novo, acreditar nisso só porque a gente quer? Não, né? Pra mim, são reais.
Uma objeção em termos de ""o que essa interpretação adiciona?"" é que, bem, sim, se a gente brincar de não saber se é coisa da cabeça dela ou se as aparições são reais (no mínimo, se as crianças também as veem)... A parte da Flora no final fica muito mais legal. A criança reagiu daquele jeito como ela reagiu porque estava sendo acusada de mentirosa, e a preceptora estava sendo levada ao limite da paranoia, ou porque seu fingimento de fato chegou ao fim? É um cenário muito interessante, e confesso que ele nos tenta a duvidar das aparições, com a simpatia por todas as personagens (... e se realmente for paranoia - coitadinha da Flora!!!). A narrativa realmente tem dessas, e por isso acho ela TÃO boa! Mesmo assim, ainda fico com essa leitura, até porque várias outras partes ainda mantém essa questão de dúvida: será que as crianças veem ou não? Isso aí realmente é um mergulho na paranoia mesmo, porque é uma coisa muito de a opinião da preceptora sobre as crianças ir mudando, e ela presumindo coisas a partir de impressões muito subjetivas - isso aí eu realmente confesso que, na medida em que ia lendo, não tinha uma opinião formada. E que jogo divertido querer saber mais sobre isso.
Mais divertido ainda, no caso, que o autor se recuse a determinar isso. Acho interessante que tem alguns finais ""abertos"", ""ambíguos"", que me deixam decepcionado. Eu não sei dizer por que alguns finais abertos me satisfazem e outros não. Mas sei que esse me deixou não só impactado e pensativo, mas há algo de satisfatório nele também.
Mas agora, vamos lá. Os fantasmas são reais. E daí? Que quer dizer essa história?
Há quem diga, não só pelo texto mas também pelo contexto (de sua produção) que ela é bem ""entretenimento"" mesmo. Depois que terminei precisei ir buscar uns vídeos no youtube pra ver o que as pessoas estavam falando dela e me surpreendeu um pouco que as pessoas só comentem, ao falar sobre a grande variedade de interpretações possíveis, sobre coisas ""factuais"" - quer dizer, a margem de interpretação da obra é sobre o que aconteceu, mas não tem um significado mais profundo aí.
Primeiro, sobre essas questões de interpretação factual, tem várias coisas interessantes de fato... Eu confesso que, sabendo se tratar de uma história de terror (mais por conta do prólogo que por outras coisas; eu entrei meio ""frio"" no livro), eu esperava ali alguma coisa sobrenatural, e à medida que a história foi avançando comecei a ""duvidar"" de tudo: será que as crianças estava mortas também? (uma dúvida que vi algum youtuber, agora não me lembro quem, expressar também)... Não, mas o diretor do colégio, no mínimo, sabia quem era Miles, esteve com ele por tempo o suficiente para expulsá-lo, ele veio num carro dirigido por alguém que certamente não estava dirigindo um coche vazio... Então ok, ele era real. Provavelmente Flora, então, também era. Mas e a governanta e as demais funcionárias? Será que estavam todos mortos? Será que a própria preceptora estava morta? Não, não, ela teve que viver alguns anos mais, o narrador inicial a conhecia e soube a data de sua morte, quando ela lhe entregou o relato, etc. Ok, ela não. E o tio? Bom, o dinheiro que mantinha a casa tinha que vir de algum lugar, então...
De verdade, quando fui chegando mais ao final e intuí que a coisa não ia nessa direção (em nenhuma dessas direções), eu fiquei bem aliviado, sabe? Acho que fiquei esperando, ou suspeitando, desses ""twists"" todos porque a gente vai sendo adestrado por Hollywood a achar que as histórias precisam ter dessas coisas (""AHÁ... Na verdade... Ela estava morta O TEMPO TODO!!""), quando o verdadeiro terror é algo mais insidioso e, ao mesmo tempo, mais simples (mais sobre isso depois)...
Isso é uma coisa muito boa que eu vejo na literatura, e que tinha me esquecido um pouco, porque ando nos últimos anos um pouco (comparativamente) afastado das ficções, ao mesmo tempo em que consumo muuuita análise cinematográfica via Youtube. E aí eu acabo absorvendo muita coisa sobre narrativa dessa perspectiva mais ""pop"" - digo, mesmo que vá além da ""jornada do herói"", não vai muito; sempre aquela coisa de estrutura de 3 atos, tropes, certas coisas que a história ""precisa"" ter... E é muito bom quando a estrutura da história se desvia um pouco ou, mesmo quando não se desvia, se torna ""invisível"". Isso pode acontecer em histórias indie, em clássicos, ou em filmes de grandes orçamentos cheios de efeitos visuais... Mas é muito frequente que nestes últimos (e, vamos e venhamos, em histórias mais amadoras) a coisa fique MUITO transparente. Tipo, as coisas vão acontecendo e você sabe _exatamente_ o que está acontecendo; você quase consegue ver o roteirista checando a lista do molde pronto pra ver se não esqueceu nada. Nessa história, pelo menos, a imersão foi grande; eu nunca senti que estava sendo levado por caminhos típicos, por uma narrativa padrãozinho, pra um lugar-comum.
Outra questão que ficou pra mim, e fala bastante sobre a profundidade psicológica e o excelente estilo do autor, é sobre a opinião da governanta sobre tudo que estava acontecendo. Primeiro que a relação dela com a preceptora é muito legal, muito interessante. Mas fico pensando no que ela diz, mais tarde, sobre a Flora, que negava ter visto a fantasma da Jessel. Quando a preceptora pergunta pra governanta se esta acredita na Flora, a governante responde: ""não posso contradizê-la"". Nossa - isso me fez repensar tuuuudo que tinha acontecido até aquele ponto, porque inicialmente eu pensei ""ok, será que ela está engolindo essa história de fantasmas porque naquela época o pessoal era mais crédulo mesmo?""; depois, pensei, ""não, ela realmente gosta da preceptora e está sendo uma boa amiga ao realmente confiar no que ela tem a dizer"". Inclusive achei que era legal, pra variar, não seguir pelo caminho comum de, tipo, todo mundo imediatamente desconfiar do testemunho sobrenatural. Aliás - meu deus, é muita coisa pra falar desse livro - achei bacana que a própria personagem nunca pensou ""ah, todo mundo vai achar que estou doida!"". Ela escondeu o que sabia POR OUTROS motivos, achei isso muuuito interessante! Uma lufada de ar fresco, realmente.
De qualquer modo, voltando ao ponto original, a governanta - sim, achei que ela estava sendo crédula, depois, amiga, e finalmente, achei que ela simplesmente estava sendo educada: achei que sua posição profissional tinha mais influência sobre ela do que inicialmente percebi: ela não podia, realmente, contradizer, nem a preceptora, que tinha mais autoridade ali, nem a filha do patrão (mais sobre isso depois). Então naquele momento que ela disse ""não posso contradizê-la"" ela realmente expôs a agonia do subalterno: e agora? ""Po, você me coloca numa situação dificíl desse jeito... Não posso dizer que você tá mentindo, mas não me peça pra dizer que ela está mentindo também!"". Então aí titubeei: será que ela só estava, esse tempo todo, tentando gerenciar o que ela via como desvarios da preceptora? Será que ela, como muitos leitores, também achava que ela tinha visto um retrato ou o que seja do Quint e da Jessel e estava de sacanagem, ou doida? Fiquei pensando, eu não podia mesmo ter negligenciado a influência de sua profissão, pois não estamos falando de um cenário urbano moderno, mas de uma história praticamente feudal: havia uma junção muito forte entre sua identidade pessoal e sua identidade enquanto governanta daquela casa. E mesmo assim, ela cede mais uma vez quando confessa que sim, podia contradizer a Flora - que acreditava que ela via Jessel porque não sabia de onde podia ter tirado tantas coisas ""feias"" pra dizer. E chorou. Bah - acreditei nela. Mas será que fui enganado pelo choro da governanta, que estava tentando AINDA dar um jeito de ser fiel a duas patroas?
Caramba que livro BOOOOOOOOM
Mas ok, temos uma última questão factual a analisar. Este livro, por acaso, é sobre... Abuso sexual?
Confesso que quando começaram a falar que o Quint passava muito tempo sozinho com o Miles... Que tomava ""muitas liberdades"" - com ""todos""... E que a Jessel passava também muito tempo com a Flora... Hmmm... É claro que a minha cabeça foi _direto_ pra lá, né. Pra esse cenário. Aliás, eu acho que no mínimo dos mínimos uma coisa que eu achava que estava seguro é que Quint E Jessel eram, entre eles, um casal, por alguma razão secreto, sei lá. Algum escândalo rolou ali, talvez ele tenha engravidado ela, sei lá. ISSO eu senti segurança pra supor. Mas esses silêncios e meias-frases e coisas subentendidas ao redor da questão de qual era exatamente o problema de Quint (e de Jessel) me deixaram bem incerto mesmo. Afinal de contas, eu estava sendo muito depravado ao pensar direto nesse cenário? Será que eu não deveria considerar outras coisas?
Fui abandonando um pouco a conjectura, tanto é que, no final, quando Miles foi lentamente dizendo que foi expulso do colégio por ter ""dito coisas"", confesso que nem aí eu retomei a hipótese. Agora me parece óbvio - sim, ele contou pra outros as coisas que Quint fez com ele (seja com ou sem contexto), chocantes o suficiente pra terem causado sua expulsão. Mas eu não estava mais pensando nisso, talvez porque o tema da morte me fazia pensar que tinha a ver com um horror mais... lovecraftiano, talvez? Uma coisa mais ""indizível"" e etérea, um mal mais elementar, sem forma, e que por isso mesmo era rodeado de ""faltas de descrição"", isto é, ninguém conseguia se levar a botar em palavras o que essas figuras representavam. Como coloquei acima, algo mais insidioso, porque mais simples, mais fundamental. Acho que por isso eu afastei a hipótese sexual, até reencontrá-la nos vídeos do youtube - inclusive em um deles alguém (de novo não lembro quem) aventa que Quint abusava as crianças e Jessel acobertava (e aí não necessariamente os dois tinham uma relação). Hm. Não sei. Pode ser, também.
Pensando melhor agora, depois do fim, fico achando que não tem mesmo essa dicotomia entre os tipos de horror. Afinal, o mistério da morte representado pelas aparições acaba como que espelhando o sexo como mistério da vida; numa análise de simetrias, o pós-vida aterroriza por sua presença do mesmo jeito que a presença do impulso, ou do prazer, sexual aterroriza o pré-vida (adulta), que aí, no caso, são as crianças - todo o papo do guri de 11 anos já se achando um adulto, pô, tá meio que na cara, né... Embora isso (esse ""tornar-se um aristocrata adulto"" aos 11) era mais a norma na época que o livro foi escrito e mais ainda nos anos em que o relato ter-se-ia passado. E aí, quando falamos sobre traumas de abuso sexual, não é comum ouvirmos sobre como é difícil pra pessoa falar sobre o que aconteceu? Esse também é um horror ""indizível"". De fato, no fundo, todos os horrores são; pra Stephen King, é por isso que esse é um livro tão foda; porque histórias de terror são histórias sobre ""segredos que seria melhor não contar e coisas que seria melhor não dizer"". E isso permeia a narrativa inteira, todinha, e, aliás, não daquele jeito forçado - tipo um conflito artificial que se resolveria com uma frase de 5 segundos. Não. O livro é todo sobre ""o indizível do horror"" mesmo.
Tanto é que parece que forçar a dizer o indizível é o que mata Miles. Na forma do fantasma, claro, mas não é a mesma coisa? - o inconfessável se confessa, o reprimido é lembrado, e Quint se manifesta na realidade; o mal que fez, quando é trago à tona após sua morte, causa dor demais, causa _também_ a morte, então é como se Quint o tivesse matado. E não é como nos sentimos, ao confessar coisas terríveis, inclusive quando somos vítimas, quando temos vergonha de algo mesmo sabendo racionalmente que não deveríamos ter, que não é justo conosco, que... A gente diz, brincando, ""eu prefiro morrer do que alguém saber disso"". Ou, se não diz, sente um pavor que é pior que o medo dessa coisa desconhecida que é a morte. A morte aqui não é o medo principal, é a metáfora pro medo maior que é o medo de ter a intimidade revirada... Muito embora Miles já teria se revelado antes, em tese, para os amigos na escola, não? Então a questão é revelar para a preceptora. Por quê? Porque poderia chegar em seu tio, e aí ter consequências maiores? Porque agora que ele já estava crescido/crescendo, ele se sentia finalmente pronto pra deixar isso pra trás, e no entanto a preceptora o arrasta de volta, e ele sente que nunca vai conseguir se livrar disso? Hmmmm. Não sei.
Então de certa forma, independente se isso estava na mente do autor ou não, a metáfora do ""mal"" indizível aqui parece muito, muito maleável à realidade do trauma sexual; nos coloca inclusive diante de preconceitos próprios - por exemplo, acho que uma das razões pelas quais afastei a hipótese sexual de início é que as crianças estavam tão felizes e, digamos, ""produtivas""; o que é um trauma que nunca se manifesta? Aí entramos em uma série de outras questões... Por acaso não podem as vítimas de um trauma serem felizes e produtivas? O trauma não pode se manifestar na interpretação de algo perigoso e daninho como prazer, e a busca desmedida por esse prazer, não ser uma consequência? (Penso aqui na ida de Flora, sozinha, ao lago). Coincidentemente há apenas alguns dias mesmo vi um vídeo da Kat Blaque sobre hipersexualização pós-violência (""Hypersexuality, Sex Positivity and Healing"") que vai por aí, mais ou menos... Então, enfim.
Mas isso me leva à última questão: que outras coisas estão abertas pra interpretar nesse livro, que não sejam apenas as coisas factuais? Isto é, pra além de pensar no que de fato aconteceu ou não, este livro fala sobre o quê, no fim das contas? Acho que isso é pouco explorado nas resenhas que vi, ao menos no youtube, mas é real: o livro aqui TAMBÉM é muito multifacetado. Dá pra fazer uma análise socialista / de relações de poder - e aqui conta muito a relação entre a governanta, a preceptora, o tio ausente, os 2 sobrinhos (estes quatro últimos, ou no mínimo estes três últimos, como consta no material suplementar da edição que li, ""na mesma esfera de poder"")... Dá pra fazer uma análise feminista para além da questão do abuso sexual (e pra além da questão de gaslighting, também, que, como eu disse, não tem muito aqui não)...
E dá pra fazer também uma análise educacional. Um dos prazeres que eu tive nessa leitura foi justamente pensar, a certa medida, lá pela metade, que se tratava de uma metáfora sobre o crescimento e o processo de educação. A preceptora tinha um controle férreo sobre o processo educacional das crianças (embora aparentemente nada ""industrial"" como o sistema escolar moderno), e os fantasmas seriam como influências externas que estariam ""doutrinando"" as crianças, e ela sentia um ciúmes imenso disso. Pode ser uma questão também de pais, ou mesmo de toda uma geração, perdendo o controle sobre seus filhos ou a próxima geração, com crianças e adolescentes criando sua própria linguagem, seus próprios gostos, suas próprias opiniões, muitas vezes irreverentes, contrárias, ou mesmo indiferentes ao que veio antes, de um jeito que desespera quem não consegue deixar de ver o seu jeito de viver como o único correto e moral. Desespera tanto, de fato, que justifica o conservadorismo de costumes, isto é, uma atitude autoritária mesmo, e que leva, no campo da educação, a um protecionismo elevado, e uma demonização de qualquer um que tente, mesmo que com argumentação racional e por méritos próprios, influenciar jovens para uma certa direção. A demonização, então, tem a ver com essa questão de que essas outras influências (de quem a narradora não parece ter apenas medo, mas CIÚME mesmo) são representadas por fantasmas; pessoas que, afinal, nessa perspectiva de raiva, ""deveriam estar mortas"". Tá certo que a preocupação da narradora é com a educação porque ela foi contratada pra isso, mas enfim, em vários trechos, é isso mesmo: ela estava preocupada que seus pequenos seriam ""corrompidos"". Ora; estamos falando de sexualidade ou é uma metáfora para ensinamentos que venham a ""desvirtuá-los"" num sentido intelectual?
Por alguma razão que não lembro, essa interpretação deixou de me fascinar mais pro final do livro. Essa minha perda de interesse fez com que eu não pensasse muito mais nela, tentando encaixar o resto dos elementos - talvez não faça sentido, então, sei lá. Mesmo assim, é uma pequena provinha de que há aqui uma história muito rica. Muito simples, sim, em certo sentido, mas dessa simplicidade faz-se muito: é psicologicamente complexa de um jeito delicioso, narrativamente construída de forma exemplar, muito potente nas sensações que evoca, nas impressões que causam na imaginação, e, enfim, muito ampla nas possibilidades de projetar sentidos e interpretações até mais sociológicas.
Pra fechar: um vídeo no Youtube (em inglês) sugere ler o livro em partes ao longo de 3 meses, porque foi dessa forma que foi publicado (aquelas coisa de ""o autor queria que fosse lido assim""), mas também porque isso dava um impacto muito bacana em termos de ir ""mastigando"" a narrativa aos poucos. Por um lado fiquei triste que não vi esse vídeo antes, já que talvez seria bacana fazer isso mesmo, mas por outro, a quem eu quero enganar - assim como eu gosto de tomar suco de laranja gelado de golão em golão, eu nunca fui de ficar lendo histórias a conta-gotas, eu gosto que elas me atinjam como marretadas mesmo, e essa foi das boas. Enfim, uma última dica, pra quem fala inglês, é o vídeo, também no youtube, ""Hitler reacts to the end of The Turn of the Screw"". Não sei muito o que pensar desse negócio de que os fantasmas não têm voz, mas o vídeo é engraçado!
Por um lado, a narrativa é envolvente, bem escrita, bem arquitetada. Por outro, isso se aplica mais aos capítulos I e II que ao III, que achei mais confuso e estranho.
Ainda por um lado, os editores do livro (com seus materiais suplementares) querem me fazer crer que Conrad denunciava, com este livro, o colonialismo. Pode ser. Mas não foi bem isso que senti durante a leitura.
Uma das formas de atacar o colonialismo é dar protagonismo às figuras subalternizadas, pois anulá-las social e politicamente é justamente o que a dominação faz. Conrad, pelo contrário, mantém-nas às margens, caracteriza-as como selvagens e brutas, etc., de um jeito que poderia ser ""tecnicamente"" verdadeiro em contexto (p. ex. povos que desconheciam o barco a vapor ter medo do apito) mas, ao mesmo tempo, me parece bastante reducionista.
Porém, que os protagonistas o façam (é um livro em primeira pessoa, afinal) pode ser em si uma denúncia, uma forma de caracterizar o pensamento colonialista. Acho sim que uma obra de arte se prejudica, em termos de envolvimento e impacto, se for óbvia demais em sua ""mensagem"" - se ""forçar a barra"" com o que quer dizer. Não digo nem porque ela deve entreter; ela prejudica a própria mensagem ao fazê-lo. Só que, poxa, se eu tenho que fazer um esforço enorme pra ler uma mensagem antirracista / anticolonial na obra, sei lá, eu acho que a mensagem está mais na minha cabeça que na do autor.
Uma das coisas que mais me irrita, e se mistura à confusão narrativa que senti na terceira parte, é como o protagonista lida com a figura de Kurtz. Eu tinha ""embarcado"" (hehe) na proposta de torná-lo essa figura mítica que o personagem vinha a admirar ou ter uma curiosidade extrema sobre, ainda mais em conjunção com toda a atmosfera de ameaça tão bem construída nas primeiras partes. Mas aí Kurtz chega de um jeito muito estranho, age de um jeito muito esquisito... Não entendi metade do que estava acontecendo ali, em termos factuais mesmo; tem-se uma série de alusões e meias adivinhações, e uma hora o protagonista quer bater no Kurtz e em outra hora repete como ele era um ""homem notável"". Eu achava que - especialmente se a obra é lida nessa luz anticolonial - a figura de Kurtz seria construída pra depois ser destruída; o protagonista iria se decepcionar com ele, etc. Por exemplo, toda a ideia de que os ingleses estariam levando a iluminação aos brutos africanos seria subvertida de alguma forma. Há que haver algum momento de reconhecimento disso. Mas não. Até o final Kurtz ainda é amado, respeitado, idolatrado, o protagonista é ""leal"" a ele (???????? tipo, por quê???? ????). A frase famosa (""O horror, o horror"") parece engrandecê-lo em vez de ensinar algo sobre a experiência colonial. O coração das trevas não é o colonialismo (embora no começo parece que é disso que ele está falando quando fala do espírito maligno que é preguiçoso), parece no máximo a ganância individual de Kurtz, e isso nem é muito explorado... No material suplementar, Kurtz parece renegar o colonialismo quando pede pra fechar a cortina do barco porque não suporta mais olhar para fora. Acho que esse é outro exemplo de leitura generosa.
Aliás, achei que toda a questão dos povos locais adorarem-no como um deus seria mais explorada. Não vi nada disso se desenrolar, parece que o conhecemos, ele faz umas coisas lá que não dá pra entender direito, depois uma hora engatinha até a mata, e esse tempo todo está doente, já está morrendo... O gerente está puto com ele não se sabe muito bem por quê, ou quais eram suas ambições, ou quais o gerenge _achava_ que eram suas ambições... Olha, caramba, uma bagunça.
Full disclosure, eu já vi Apocalypse Now, e sabia que era uma adaptação deste livro (com muita licença poética, claro). Isso pode ter influenciado também minhas expectativas.
De qualquer forma, deixo aqui algumas das minhas partes favoritas, características da boa literatura que o livro representa, tirando tudo de ruim que descrevi acima:
""Eles não eram colonizadores; seu governo era pura extorsão e mais nada, eu suspeito. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta - nada de que se gabar quando se tem, já que a força é apenas um acidente que resulta da fraqueza de outros."" p. 14 [Note-se que aqui ele já caracteriza, ainda que comparativamente apenas, a colonização como algo bom. E ele está falando como narrador pós-acontecimentos, então, oras - que ""denúncia"" é essa?]
""é impossível transmitir a sensação viva de qualquer época determinada de nossa existência - aquela que constitui a sua verdade, o seu significado, a sua essência sutil e contundente. É impossível. Vivemos, como sonhamos - sozinhos..."" p. 49
""Não gosto de trabalho - ninguém gosta -, mas gosto do que existe no trabalho - a chance de a pessoa se encontrar."" p. 51
""Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por cima, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário."" p. 122
Tem seus altos e baixos.
Segundo resenha da Folha de São Paulo estampada na contracapa, neste livro Eco deixa seu “virtuosismo correr livre”. Livre demais pro meu gosto, sinceramente. É muita referência em cima de referência, menções em cima de menções, e talvez seja minha culpa por não estar no clima pra ficar correndo à Wikipédia 12 vezes a cada parágrafo pra saber de que diabo ele está falando, mas olha… Muito chato. Detestei esses arroubos de “virtuosismo” que povoam o livro todo e explicam o seu tamanho (quase 700 páginas).
Não são só as referências. Mesmo as ações das personagens, as reflexões, são colocadas de um jeito que deveria soar poético, misterioso, profundo, mas, sei lá, na maioria das vezes – e especialmente no começo – eu simplesmente achei bobo e pretensioso.
Mas eu queria gostar do livro. Amigos me disseram que ele demora pra ficar bom. Segui dando uma chance.
Foi lá pela página 200 que comecei a entender melhor o básico da trama, sua ideia geral, e é aí que deu mais ânimo de ler. As coisas v��o se desdobrando bem até que chega a parte em que Belbo decide agir, e aí a narrativa realmente te prende; se demorei semanas e semanas pra ler as primeiras 200 páginas, li as últimas 200 em menos de 24 horas.
No fim das contas, eu fiquei bem dividido com esse livro (por isso a nota 3).
Estruturalmente, ele é muito estranho, e acho que num sentido negativo. Ele é grande demais. Mesmo entendendo que ele narra uma lenta espiral de envolvimento com uma teoria de conspiração, e aí nesse sentido ele precisa passar essa atmosfera de entorpecimento, tem muita coisa desnecessária, aqui, e não falo nem necessariamente da erudição. Por que o protagonista veio ao Brasil? No fim das contas, que propósito tem a personagem Amparo? Esse livro poderia tranquilamente ter umas 250 páginas a menos, e seria melhor por isso.
Mas essa não é nem a maior questão. O livro se passa em três tempos distintos: o protagonista dentro do museu, esperando dar a meia-noite; o protagonista, dias antes, lendo os registros que Belbo fez no “Abulafia”; e tudo que aconteceu antes, explicando esses dois momentos. Só que, por um lado, nada acontece ao longo de 500 páginas enquanto o protagonista espera, então, nós somos lembrados que ele está lá, esperando, pra nada… E os arquivos do Abulafia que ele vai lendo, nossa senhora, outra chatice sem fim. Teve uma hora que eles ficaram tão, tão, tão longos, que não deu pra mim – eu pulei um inteirinho. Horrível. Inúteis pra história e chatos em termos de seja lá qual mensagem ele estava tentando passar.
Então em termos de “formato” foi um livro bem difícil de engolir. Mas, em termos de conteúdo, ele é no mínimo curioso. Há partes muito legais (as duas intervenções da Lia me vêm à cabeça; o final do cap. 37, algumas coisas do 119), mas na verdade o que fica é a reflexão posta na mesa pelo conjunto da obra (e reforçada, talvez explicitamente até demais, pelas reflexões finais de Casaubon). A tensão esperada entre “magia” (existe conspiração) e ciência (é tudo teoria da conspiração) vai se desfazendo na medida em que se entende que há um esforço científico em entender as coisas ao mesmo tempo em que isso ocorre no contexto de uma busca por um “segredo” que venha preencher um vazio – e, claro, muita sede de poder, ou, no mínimo, de “distinção”, o que é um toque muito interessante que o livro vai desenvolvendo a partir da psicologia de seus personagens.
Não sei, sinto que há bastante a se explorar em termos da “mensagem” do livro; é algo que ainda estou mastigando, sinto que vou retornar a seus temas muitas vezes – mas, também, que bom seria que eles fossem desenvolvidos em um formato um pouco menos maçante e truncado.
O interesse acadêmico pelo anarquismo foi revigorado, ainda que timidamente, após as agitações globais da década de 90. Desde então, desenvolveu-se uma dicotomia em torno de uma suposta descontinuidade no anarquismo. Para uns/umas, este teria basicamente morrido após a Revolução Espanhola (1936-1939), e então ressuscitado - com diferenças notáveis - na forma de neoanarquismo (Ibañez, 2014), ou “anarquismo com a minúsculo” (Graeber, 2009), ou pós-anarquismo (Newman, 2010), entre outros. Por outro lado, autores/as como Walt e Schmidt (2009) teorizam sobre um anarquismo de luta de classes que nunca deixou de influenciar eventos importantes, em escala global - mas tampouco tornou-se muito diferente do que era quando foi primeiro formulado no século XIX, o que exclui outros elementos que vieram Peterson Roberto da Silva92 a ser associados ao anarquismo, tanto naquela época quanto nos últimos 60 anos.
É neste contexto que surge The Government of No One (“O Governo de Ninguém”, em tradução livre), da politóloga britânica Ruth Kinna (2019). O livro não parece uma intervenção direta nessa disputa, mas qualquer introdução ao anarquismo, hoje, invariavelmente incide sobre ela. Não obstante, Kinna encontra sua própria forma de apresentar o anarquismo. Simples mas não simplista, a autora surpreende ao reformular interrogações clássicas e respondê-las de maneiras inesperadas.
Para não ignorar a materialidade da atividade acadêmica, algumas palavras sobre o livro como objeto: a edição é bem construída e tipografada (mas é preciso denunciar as notas: colocá-las no fim do livro é um atentado à curiosidade humana). O espaçamento das margens e entre as linhas faz com que a leitura, prazerosa no papel amarelado, flua rapidamente. Dois aspectos, no entanto, intrigam: o preço (em média £16.26, cerca de R$ 100,00 em março de 2020) e o estilo tão pouco característico. Afinal, iniciados esperariam um layout “transgressor”; fotos de militantes, de revoluções, de protestos - no mínimo, a preponderância de preto e vermelho. Não neste livro: de capa ciano e sobrecapa cor de trigo, as letras são sóbrias, e a iconografia se resume a cinco bandeiras relativamente genéricas. É claro que ambos os aspectos costumam estar fora do alcance da autora. Contudo, enquanto o primeiro é incidental - talvez o preço a pagar, literalmente, para um livro desta qualidade material, ainda que isto limite seu alcance até mesmo entre acadêmicas/os - o segundo representa o quão não-convencional é a abordagem de Kinna.
O livro é organizado por temas, embora certos “arcos narrativos” cronológicos subsistam ao longo da obra. Na breve introdução (“Anarquismo - mitos e realidades”), a autora descreve sua abordagem como “mais impressionista que ideológica”, por não desejar “sistematicamente analisar as formas como anarquistas entenderam as ideias de liberdade, igualdade e assim por diante”, e tampouco “demarcar as fronteiras do anarquismo” (Kinna, 2019: 8). Ela se distancia simultaneamente, assim, de um anarquismo “infinitamente poroso” (ela ativamente rejeita ideias como “anarquismo de mercado”, “anarco-capitalismo” e “anarco- nacionalismo”) quanto de abordagens mais focadas.
As consequências aparecem já no primeiro capítulo (“Tradições”). Para Kinna, foi a partir de três momentos decisivos - a Comuna de Paris (1871), a expulsão de Mikhail Bakunin da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) no Congresso de Haia (1872), e a Revolta de Haymarket, em Chicago (1886) - que o anarquismo começou a emergir como um movimento distinto. Porém, essa emergência “representou a cristalização de uma tradição política fluida que se estende para além dos limites históricos e geográficos que a ideologia assume” (Kinna, 2019: 12). Princípios defendidos por anarquistas reverberam pela história em diferentes culturas, mas estes princípios tomaram formas muito diferentes em contextos diferentes, e também foram defendidos (a varejo) por outras ideologias. E é por isso que o anarquismo é de fato algo específico no espaço e no tempo. As personalidades que mais contribuíram com seu formato particular desenvolveram suas ideias a partir de suas atividades no movimento, amplamente concebido (“quando anarquistas identificam notáveis entre as suas fileiras”, destaca Kinna (2019: 49), “eles/as geralmente se referem a uma dedicação e a um comprometimento extraordinários”, não necessariamente a quão certos estavam acerca das questões intelectuais). No entanto, a tradição também foi construída por seus/suas oponentes. Os vieses destes/as críticos/as causaram certos problemas - por exemplo, o próprio foco em “grandes indivíduos” em vez de nos movimentos nos quais eles estavam inseridos - mas eles/as foram cruciais na medida que, em sua repressão e consequente necessidade de compreensão daquilo que combatiam, imprimiram certa unidade e certas posturas ao que poderia de outro modo manter-se difuso (por exemplo, em um socialismo geral).
Esta perspectiva permite uma visão, como talvez colocaria Graeber (2001), menos baseada em “Parmênides” e mais em “Heráclito”; menos preocupada com objetos discretos (“o anarquismo começa aqui e termina ali”) que com potencialidades e deslocamentos contextualizados. Kinna não se propõe a dizer quem está “dentro” ou “fora” do anarquismo, e sim a analisar como diferentes atores e grupos se mobilizaram em diferentes circunstâncias (inclusive ao argumentar sobre fronteiras ideológicas - não só entre si, mas com e contra marxistas, republicanos/as, liberais) de modo a construir “um rico corpo literário, mas sem lei”: uma “abundância de líderes, ideias, propostas e iniciativas”, forjadas em lutas comuns, “sem deuses e sem mestres”.
No segundo capítulo, “Culturas”, Kinna analisa como anarquistas compreendem os mecanismos que estabilizam regimes políticos injustos, e como estes mecanismos - que são efetivamente “aprendidos”, e não naturalizados - podem ser substituídos por “culturas de anarquia” (Kinna, 2019: 58). Múltiplos sentidos de dominação são apresentados, e o fato de que o termo é entendido de várias formas leva também a uma variedade de críticas. Kinna decide enfatizar a relação entre dominação e lei, dominação e hierarquia, e dominação e conquista.
A lei domina, entre outras razões, por “terceirizar” o julgamento individual e entrincheirar desigualdades; a não- dominação, nesse caso, envolve “um processo de interação humana dirigido por indivíduos que lutam para se governar de certas maneiras ao mesmo tempo em que permanecem firmes contra a tentação de governar através da imposição de leis” (Kinna, 2019: 68). No caso da hierarquia, Kinna analisa a relação entre verdade, hábito, privilégio e o direito de comandar. Apesar das divergências, por exemplo, entre Bakunin e Leo Tolstoy, Kinna (2019: 75) conclui que “a não-dominação flui a partir da desobediência e empodera indivíduos para que façam somente o que acreditam ser correto, e resistam o que entendam ser errado”. No caso da conquista, a autora analisa a violência colonizadora, que é “experimentada por diferentes pessoas em diferentes formas mas é integral tanto à territorialização dos Estados europeus quanto à apropriação subsequente de terras não- europeias” (Kinna, 2019: 77). A dominação que advém da colonização destrói culturas autônomas, “estendendo regimes de propriedade privada através da guerra”, tendo como efeito “desigualdades estruturais” que se projetaram em “racismo e supremacismo” (Kinna, 2019: 79). O resto do capítulo é dedicado a descrever reflexões anarquistas sobre educação, 2 Nº 6 | 2º Sem/2020 | ISSN 2676-0619 propaganda e compartilhamento de conhecimento.
O terceiro capítulo, “Práticas”, é dedicado à análise das formas como anarquistas “têm tentado disseminar culturas de não-dominação” (Kinna, 2019: 115). É aqui que a autora discute divisões internas. Em dois úteis gráficos (nas páginas 128 e 147) diferentes correntes anarquistas se contrastam quanto às suas posições acerca do debate entre “evolução” e “revolução”, bem como a disputa pela necessidade de organização formal - embora os agrupamentos sejam diferentes nos dois gráficos, pois no segundo, o debate é transposto para um linguajar contemporâneo (os debates entre “não- violência” e “diversidade tática”; entre “socialismo” e “individualismo”). O segundo gráfico também incorpora uma tipologia de correntes anarquistas contemporâneas. Kinna (2019: 134-149) identifica e descreve seis: anarquismo insurrecionário, anarquismo de luta de classes, anarquismo pós-esquerda, anarquismo social, pós-anarquismo e anarquismo com a minúsculo. O debate sobre classe e interseccionalidade descreve não só os grupos que se constituíram como alvos prioritários do ativismo anarquista desde os anos 60, mas como diferentes correntes têm articulado a relação entre as diversas opressões e dominações sociais.
O quarto capítulo, “Condições”, lida com os “testes mínimos” que muitas/os anarquistas estabeleceram para suas próprias interações (Kinna, 2019: 177). A autora lida primeiro com constituições: propostas de organização, mais ou menos teóricas ou postas em prática, que incorporam princípios anarquistas em seu funcionamento. Kinna estuda quatro tais propostas, duas consideradas individualistas, e duas, comunistas. Na primeira categoria estão “O Plano de Campanha Anarquista”, uma constituição econômica e política proposta pelo australiano David Andrade em 1888, e a “Constituição do Clube Anarquista de Boston”, colocada em prática a partir de 1887 pelo clube em questão, tendo sido publicada em um livro de Victor Yarros. Na segunda categoria estão a famosa Plataforma, do grupo de expatriados makhnovistas Dyelo Truda, e a Comuna de Teruel durante a Revolução Espanhola. Kinna (2019: 199-200) analisa adequadamente o que distancia ambas as categorias, mas ressalta que ambas são suficientemente anarquistas em contraste com alternativas; enquanto liberais, por exemplo, pressupõem “um corpo que toma decisões finais [...] e possui meios[...] para garantir seu cumprimento”, bem como “o poder de punição de um juiz”, tanto individualistas quanto comunistas rechaçavam tal “ponto final de autoridade” (Kinna, 2019: 203). O resto do capítulo é dedicado à análise do papel das utopias e à relação entre as ideias de democracia e anarquismo, com especial ênfase à teoria de Murray Bookchin e a emergência de processos decisórios com base em consenso. Ele é encerrado com a tensão entre a imaginação de um futuro ácrata e o quanto isso em si implica um planejamento social em nome de terceiros (algo a ser evitado em nome da autonomia). Como colocado no segundo capítulo, “enquanto culturas estatistas davam a intelectuais a tarefa de decidir o que era melhor para o avanço social, uma cultura anarquista daria às pessoas locais o poder de determinar como gostariam de viver” (Kinna, 2019: 108).
O quinto capítulo se chama “Prospectos”. Kinna considera que avaliar corretamente o passado anarquista - cujo sucesso é fraseado principalmente em termos de resiliência - leva a uma melhor apreciação do que se pode esperar de seu futuro. A autora assim afirma que a perspectiva estatista (como o anarquismo substituiria o papel que o Estado exerce hoje?) deve ser ultrapassada por uma de “anarquização”: “o desafio prático é como encorajar grupos e indivíduos a alterar arranjos que eles possam até considerar benéficos, embora reconheçam que operem de formas imperfeitas e com frequência alienantes”, de modo a superar sistemas de dominação (Kinna, 2019: 254). Dois métodos são apontados: o “convergente” e o “disjuntivo”. Através do primeiro, anarquistas constroem coalizões em prol de certos objetivos apelando para comunalidades entre as pessoas - como um certo senso moral. O segundo, crítico da maneira como o primeiro pode levar à complacência ou à diluição de propostas especificamente anarquistas em um meio essencialmente estruturado pelo conservadorismo, deseja produzir formas alternativas (e especificamente contestatórias, divergentes) de sociabilidade, que possam confrontar o status quo (embora este, apontariam críticas/os que tendem ao primeiro método, pode criar subculturas que limitam a anarquização para além das/os iniciadas/os). Após uma reflexão sobre o esforço prático necessário em direção a um objetivo palpável e pragmático - anarquizar as relações sociais tanto quanto possível - o livro é concluído com uma lista de pequenas biografias das pessoas citadas, notas, indicações de leitura, índice, e dez misteriosas páginas em branco.
Há algumas razões pelas quais a abordagem de Kinna neste livro é tão pouco convencional quanto sua capa. Em relação ao dilema atual das caracterizações do anarquismo, ela rejeita narrativas de descontinuidade - embora aqui não haja surpresa, já que ela já havia feito isso antes (Evren e Kinna, 2015; Kinna, 2017) - mas a continuidade endossada é mais abrangente que a do anarquismo de luta de classes (sem que isso implique abraçar contradições do século XX, como “anarquismos” que não sejam anticapitalistas). A dicotomia não é abordada diretamente, mas reaparece em outras fraturas - por exemplo, nas diferenças entre constituições individualistas e comunistas - e no entanto um quadro suficientemente coeso emerge das divergências (que, aliás, toda tradição política possui): um quadro de temas e motivações comuns em meio à diversidade.
Não só a transnacionalidade da atuação anarquista é enfatizada, como o livro também entremeia “grandes autores/as” a figuras (e coletividades) menos conhecidas, com certa abrangência geográfica - não há como elogiar este aspecto do livro o bastante! Evitar as mesmas citações e a preponderância dos mesmos rostos de sempre produz uma leitura simultaneamente mais informativa e mais divertida. A vivacidade da tradição é reconhecida não só na forma como seu passado é retratado, mas, por exemplo, na perspectiva de que ainda há avanços a serem alcançados quanto à situação das mulheres no movimento, ou ao seu eurocentrismo.
Kinna consegue explorar o que dá impulso à tradição - os objetos de sua crítica, seus métodos, suas perspectivas. Aborda e defende suas perspectivas analíticas, mas frequentemente no contexto daquilo que se desejava alcançar; ancora-as em experiências práticas. Expõe sua diversidade interna de forma balanceada e reforma os critérios pelos quais o movimento pode se compreender: quase todos os temas clássicos e contemporâneos estão presentes, embora às vezes é difícil vê- los com clareza, pois são realinhados com outros enfoques – a partir de pontos de vista transversais, de onde se pode descobrir novas formas de conceber e descrever a tradição.
Há algumas pequenas negligências, talvez por motivo de concisão, causando graus variados de decepção (a ruptura de Bookchin com o anarquismo; as considerações de Peter Gelderloos sobre a não-violência; um distanciamento maior em relação a Murray Rothbard que estivesse no texto principal, não na lista de biografias; o anarquismo sem adjetivos – que, novamente, só aparece na lista de biografias). Além disso, embora o último capítulo seja o menor e termine bem, quase ficamos com a impressão de que havia uma “conclusão” propriamente dita, que foi suprimida. Uma recuperação sintética dos argumentos dos outros capítulos, introduzindo os últimos parágrafos como estão, não faria mal.
Em termos de conteúdo, no entanto, as ausências mais conspícuas são uma reflexão sobre o sindicalismo contemporâneo (por exemplo, em relação à peculiar situação da própria ideia de trabalho na última década) e, acima de tudo, uma análise da ideia de revolução (esta ausente até mesmo do índice): não está evidente, a partir da leitura, se devemos entendê-la como coincidência entre as táticas convergentes e disjuntivas, ou se deveríamos abandonar o conceito em nome da “anarquização”. De todo modo, é uma perda para nós que isto não tenha recebido atenção, pois considerando a maestria da autora, ganharíamos muito se ela também fosse aplicada a estes dois elementos, no contexto dessa abordagem.
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A metáfora é dissecada e utilizada de forma incoerente e confusa, numa mistureba irresponsável de conceitos e paradigmas, enchendo linguiça até não poder mais. O propósito prático do autor pode ser em alguns momentos positivos, mas a forma é extremamente enfadonha, repetitiva e aparvalhada.
A história original é bem simples: quando nos acostumamos a uma situação de inferioridade, podemos demorar até reconhecer que podemos atualizar potências inerentes e sermos mais do que somos no momento. Isso tem uma dimensão individual (embora nesse caso tenha conotações meio arrogantes) mas principalmente social, que é o contexto original da história (Gana colonial), que trata da coragem para fazer lutas sociais contra desigualdes e injustiças. É isso. O resto é uma hipermetaforização absurda.
Como avaliar A Arma Escarlate? O livro é tão escancaradamente uma fanfic que é preciso se perguntar se a fidelidade ao universo literário original importa como critério de julgamento. E devo confessar que não tenho hábito de ler fanfics. Não obstante, ao final do livro chego à conclusão de que a comparação com o universo original em si, ao servir como critério, só faz depreciar a consideração dessa obra: já pela metade dele as constantes referências a Harry Potter ficam extremamente chatas e irritantes. Força a barra demais - aliás, quando cita Gandalf (duas vezes) e Forks (ugh) aí mesmo que é impossível não rolar os olhos pra cima até quase enxergar o cérebro.
Tirando isso, o livro é uma mistura quase inenarrável de sensações. A história é boa, mas os personagens são muito mal construídos - acabaria levando tempo demais pra explicar o quanto é incoerente e péssimo o que eles são nesse livro (só os tais ""pixies"" levaria uns seis parágrafos). A caracterização da escola, com uma praia dentro do morro do Corcovado, é realmente maravilhosa - mas muitas coisas ali não funcionam como a autora imagina que deveriam funcionar. É feita uma tentativa de analogia com o mundo real, com o Brasil, que em alguns casos funciona e em outros cai de cara no chão. O fato de os feitiços serem em línguas nativas foi uma sacada muito boa - que ela quase estraga racionalizando demais, o tempo todo chamando atenção pra isso. Alguns termos se encaixam de forma genial - aparatar agora é girar (perfeito). Outros permanecem alheios, atravancados e bizarros até o fim, sem jamais convencer - de ""azêmolas"" a ""mequetrefes"", mas acima de tudo ""pixies"" (horrível, horrível).
Acho que a autora teve o revés de fazer uma fanfic completa de Harry Potter com a série toda em estágio avançado de proliferação cultural. Ela deve ter achado que seria enfadonho seguir o mesmo ritmo da série original, mas deveria tê-lo feito, porque aquele que temos aqui resulta em três coisas: em primeiro lugar, crianças e adolescentes extremamente competentes em magia desde o início, sendo desenvoltos demais em tudo, sendo o tempo todo aliás melhores que os professores, com a autora constantemente chamando atenção para isso (é verdade que HP também é um pouco culpado disso, mas não é no mesmo nível do que vemos aqui). Em segundo lugar, MUITA informação: um afã de apresentar absolutamente tudo sobre esse universo ficcional complementar ao de Harry Potter em menos de 500 páginas. E em terceiro lugar, MUITA exposição - a _forma_ como essa informação toda é apresentada é extremamente inorgânica, chata, artificial. Apesar disso, a autora desenvolve muito bem a analogia a que se propõe. Faz uma boa homenagem à cultura tanto indígena quanto africana de maneira maravilhosa, e adapta o folclore brasileiro de maneira magistral. Aliás, essa questão do ritmo malfeito fica clara quando o assunto é a varinha (a arma escarlate em questão) e o passado nobre de Hugo: coisas que são (à moda do resto do livro, infelizmente) explicadas, em alguns casos à exaustão, em alguns casos sem todos os detalhes, mas que não têm efeito nenhum na história em si (ela poderia ter ocorrido da mesma maneira sem esses dois elementos). Sinto que, se eles vão ser melhor aproveitados em continuações, eles poderiam ter sido explorados em continuações, e ter permanecido mistérios nesse (como o que a Rowling decidiu fazer com os horcruxes no segundo livro).
Isso tudo fica um pouco menos evidente quando a autora dá uma cartada que é realmente incrível, funciona bem e salva o livro, na minha humilde opinião, de uma nota pior que até então merecia: Hugo começa a traficar cocaína para os bruxos. Está aí uma coisa que você não verá jamais em qualquer coisa parecida com Harry Potter e que foi uma sacada de mestra. Isso leva, evidentemente, ao que todo leitor deveria estar esperando: um confronto entre fuzis de traficantes e varinhas de bruxos.
De qualquer forma, com um final satisfatório, intrigante, uma forma razoável de adaptar a dinâmica mágica de HP ao Brasil, um plot que satisfaz aos poucos e algumas dinâmicas que fazem lembrar o compasso moral aprumado do universo ficcional original, A Arma Escarlate compensa suas muitas falhas e imagino que deixe a maioria de seus leitores desejosos de seguir em frente na saga.
Tenho que confessar que não consegui me relacionar com boa parte deste livro em razão das referências que perdi: ele fala de muitas coisas que, infelizmente, não conheço. Mas é mérito do próprio livro que, por exemplo, eu tenha tido vontade de explorar esses universos: dos filmes europeus ao jazz.
Mas das coisas que eu conheço, entendo o que ele fala e gosto muito: ganhei uma percepção mais nuançada de Pulp Fiction e Tarantino, um entendimento interessante de Hemingway, e por aí vai. Veríssimo escreve muito, muito bem: passa manteiga nas letras. Fica tudo muito gostoso, e quando vem _aquele_ insight, ou aquele texto bem construído, é maravilhoso.
Destaque para a introdução, ""Federico..."", ""O Chaplin das crianças"", ""Começos"", ""Um grande amor"", ""That's it"", ""O tempero da vida"", A introdução de ""Afiando o cálamo"", ""Fobias"", ""Wilde"", ""A compensação"", ""Fazer dançar os ursos"", ""Sinais mortíferos"", ""Professor Pelé"", ""A Gula"", ""Os anônimos"", ""Borgianas"", ""Bretton Woodstock"", ""Lições erradas"" e ""A travessia"".
O livro é muito bom e o estilo poético e bonito; contudo, há algumas coisas que me estressaram. Primeiro, é "bom" _demais_ às vezes, no sentido de que toda a derramação de tina se transfigura rapidamente num blá blá blá chato - o excesso de adjetivos cansa; as divagações, irritam - e portanto não dá pra não notar o exagero e o quanto ele atravanca a leitura. Segundo, o ritmo é desigual demais; às vezes um conto de 20 páginas passa as primeiras 18 se arrastando a passo de tartaruga e, do nada, em 2 páginas, chega uma resolução a galope. Não achei o efeito disso particularmente bom. E, em terceiro, o próprio conto (não necessariamente por causa do problema 1 ou do 2) parece não fazer muito sentido. O final de Wolf-alice foi extremamente confuso; achei aquele da vampira bem esquisito também, no sentido de compreender o que estava acontecendo; acho que tem a ver com um peso demasiado dado a algumas palavras e parágrafos, enquanto menos importância foi dada a um certo "tecido conectivo" entre expressões e cenas que ajudariam a explicar melhor o que houve. Claro, claro, deixar que o leitor descubra as coisas sozinho é importante. Mas acho que a falta de clareza aqui foi menos literária e mais aporrinhadora mesmo. Enfim: O conto do gato de botas, o primeiro (The bloody chamber) e o courtship of Mr. Lyon foram os meus preferidos. Muito, muito bons.
O livro é muito bom. A história prende, apesar da segurança em que o protagonista é colocado por causa dos flashforwards (ou, no caso, a história é que é contada em flashbacks, com ele vivo). Os personagens, aliás, são excelentes, todos - em nenhum momento me passou pela cabeça dispensá-los como superficiais, pouco críveis ou bidimensionais. Questões sociopolíticas e históricas de fundo são tratadas de forma inteligente, assim como a questão dos animais e da velhice de maneira bastante emocional e efetiva. A única coisa que achei ruim foi a forma como o prefácio nos engana quanto a quem mata o August usando um truque linguístico em vez de um mistério de verdade - em vez de se referir a um único "ela" como a assassina (e ambiguidade para realmente acharmos, ao longo do livro, que ele está falando de Marlena), ele se refere a duas "elas" sem realmente chamar a atenção para o fato de que são dois "elas" distintos, e aí acaba que no fim é a elefanta - sim, o que é fantástico, mas eu gostaria que isso tivesse sido a resolução de um mistério real, não um malabarismo bobinho com pronomes. De qualquer modo, se eu pretendia dar 4 estrelas por causa disso, o final foi tão maravilhoso e engenhoso que o livro me conquistou de volta.
I’m split regarding “Nature, Essence and Anarchy” (Winter Oak), recent work by anarchist comrade Paul Cudenec, available at Amazon. I wanted to read it to get to know better the arguments of a contemporary anarchist who defends the idea of “essence” – a rarity these days. And if on the one hand I don’t feel exactly comfortable talking negatively of this book solely because I do not agree with some of its ideas – and Cudenec’s writing style is as pleasant as usual – there are some things that have bothered me more deeply here. I’d like to discuss them.
The goal of the book is to present a (not only political, but holistic) philosophy to counter capitalism; one that serves, intellectually, the task of combatting it. The author posits that this philosophy must attack postmodernism, which the author deems as having a sickly effect over our intellectual system, creating a large scale “paralysis”; there is a complete conjunction between postmodern thought and capitalism. For Cudenec, the notion of a “constructed” world basically comes from capitalism: “for the constructed capitalist world, everything else has also been constructed” (p. 2):
Aware on some level of its own fundamental falsity, it defends itself by projecting that falsity on to everything else that exists, in order to level the playing field and create a theoretical realm in which its own artifice no longer stands out as aberrant, alien, toxic. It becomes impossible to accuse capitalism, in particular, of being fake if you accept its big lie that everything, in general, is fake, and that there is no such thing as truth, meaning, origin, essence and nature. (p. 2)
Hence, escaping capitalism entails rejecting the idea that reality is simply socially constructed – accepting that we are a part of nature (and that there is a real and independent nature for us to attach to) and, secondly, that we should organize ourselves, if we understand our place in nature correctly, as anarchists.
Postmodernism, however, began precisely in part because not understanding reality as socially constructed has caused many problems. As Graeber reminds us, “Stalinists and their ilk did not kill because they dreamed great dreams … but because they mistook their dreams for scientific certainties.” But it is possible to say that even though positivists and the like affirmed an understanding of reality as an objective truth, they did it by separating humanity from nature, and this Cudenec (rightly) criticizes. In this sense, Cudenec advocates not only for the consideration of an “objective reality”, but also a “real” that is beyond a certain instrumentalist humanism that has been exacerbated in recent times.
Is it so weird to admit that we are “part of nature” and that “nature is real, and not everything is socially constructed?” Of course not. But this is a truism, and the devil is in the details – with which Cudenec unfortunately does not deal. If postmodern theorists only said “there is no nature, only subjectivity,” that would also be a weak assertion. It is necessary to demonstrate, to argue – as does Derrida, for instance, in the long and tasty beating it gives Lévi-Strauss, and his whole theory around the prohibition of incest, in “Of Grammatology”. Nature is real, fine, but what is nature? Cudenec does not give us a definition. At least not one we can work with without falling into a circular logic in which it is impossible to ever be wrong. There, nature is the environment; here, is the human essence; later, it’s something else – the definition he quotes from Paracelsus is the perfect cop-out: nature would be “indeed everything that we see before our eyes: trees, minerals, animals, diseases, birth, death… But what it gives us is always something else as well: the manifestation of a ‘deeper’ reality – although for the time being we cannot define this depth more clearly.” It is ironic to paraphrase the criticism written by Sahlins to none other than Foucault, but it fits like a glove: when everything is nature, nothing is nature.
There is no nuance in this vision of postmodernism: I think it quite reasonable to say of this myriad of theoretical perspectives that it ends up collaborating with various institutions that anarchists fight; but treating it not only as an epiphenomenon of capitalism, but as a deliberate development from it, goes beyond. Postmodern theory is so aggressively equated with the state of things we live in that we can easily imagine the more well-known authors of this tradition (ha!) as being not Derrida, Deleuze or Spivak, but Bill Gates, George Soros or Rex Tillerson.
The way I value postmodernism is as a tool to review our cognitive system, to be en garde against conceptual mistakes of a deeper kind. Is it possible that many postmodern thinkers have gone too far in this revisionism? Yes, of course. They act like someone who, knowing that it is useful to check the vehicle before a big road trip, never gets to actually travel, for as soon as the mechanic is done he starts the process of checking again. As I heard my professor Ricardo Silva say once, the impossibility of absolute asepsis does not justify a surgeon operating in the sewer. There is a practical impossibility of actually considering there is not a “reality” out there with which to interact, because we calculate things pragmatically every second of our lives. Despite that, our “necessary subjectivity” forces us to admit that, deep, deep down, we could really be dreaming or living in a simulated reality: a non-falsifiable fact just puts it beyond the grasp of science, it doesn’t make it impossible. And yes, I understand this is a perfectly criticizable agnosticism as well – but even ignoring these extreme scenarios, cognitive “errors” of all kinds, practical and consequential ones, are very frequent. Personally, I consider a staunch postmodern a hundred times less worrisome than a positivist / rationalist / ‘dialectics is life’ individual who is convinced (s)he knows the truth and exactly how to get to it (it is so curious how hardcore marxists think that the fact that religious fundamentalists and Trump supporters are wrong separates them, since it is rather a common feature). If it seems obvious that neither one nor the other is desirable, the same goes for a reasonable approach to human cognition. The best thing I have ever read on the subject is Robert Anton Wilson’s Quantum Psychology.
But my defense of postmodernism does not amount to this hacky attempt at holding on to the best it has to offer while ignoring its bad aspects; I also like to point out how weak the attempts at criticizing it are. Most of the times the argument is a pragmatic one – which is absolutely illegitimate from a scientific standpoint. “If everyone believes in postmodernism, then bad things are going to happen” – even if this were true (debatable), it doesn’t mean postmodernism is wrong, unfortunately. “Even Bruno Latour regrets ‘arming’ anti-scientific propagandists” – so he would rather not have contributed, then, with social sciences? Hmm. Maybe it would have been better if Darwin had not published his theory on the transformation of species, since then he wouldn’t hand out ammunition to eugenists. “The vision that there is nothing after death is too scary, therefore it must not be right” – almost literally what Cudenec states towards the end of the book.
A prolific critical viewpoint engendered by postmodern ideas is that which sees the connection between the definition of “natures” and “essences” (it doesn’t matter how benevolent and non-“naturephobic”) and the judgment of those who are “against nature”. The author mobilizes, for instance, a positive conception of liberty (I’m following Berlin’s scheme here), and there are many interesting things he says while doing it; when he advocates, for instance, that the “negativity” of an anarchist – that which is often considered bad for being associated to, say, aggressive and destructive reactions to domination and authority – is a positivity since it is related to the affirmation of some ideas and values. Or when it serves as criticism of the liberal self of a Rawls. But ultimately the problem remains: the same structure of thought, the same arguments, the same vocabulary appealing to essence has already been successfully used by groups with goals very diverse from ours – such as fascists.
The author discusses Kropotkin, who appears in the first essay politically condemning Darwin’s theory of evolution; later on, it is shown how Kropotkin’s theory of evolution based on mutual aid leads to the conclusion that “anarchism is natural – that, left to their own devices, people and other animals tend to co-operate with others for their collective benefit.” (p. 9) Today – except maybe in popular culture, which is a big issue in itself – biology takes cooperation into consideration as a very important factor of the evolutionary process. But competition, particularly that which is not necessarily a conscious phenomenon (that is, not lions violently hunting game, but not enough grass for a given population of grass-eating animals) can not be discarded. After all, what would that amount to? Would it mean that cooperation is natural, and competition is antinatural? If nature, or reality, or The Universe (with capital letters, as in the last essay), is “everything that exists”, then how is it that that which is could be in a way that it should not be? How should we categorize and understand competition? People and animals tend to cooperate – what people? What animals? In every and any situation? It is true that a lot of cases of violence among human beings are used as propaganda to advance the idea that we are “naturally bad” (and this is stupid), but the contrary is equally absurd. And dangerous, as well.
What could guarantee that we, anarchists, are right about a certain rationality regarding human nature? Introspection, Cudenec writes (in somewhat mystical terms) in “Essence and empowerment”, one of the essays. We have to look deep down into ourselves in order to find our essence. The problem, of course, is that this “look” doesn’t exist outside of a given context. Cudenec accuses postmodernism of being a silence-producing machine (since there is no essence, we can’t talk about it), but this is weird; of course we can. Postmodernism isn’t a machine that makes silence – a “sensorial deprivation” one – but rather one that produces too much noise; a “sensory overload” one. Its problem is that there is a certain stimulus to talk too much, without a focus. Exactly for investigating factors which influence the looking one might do in search of an essence, and how the results of such quest will be contingent and contextual and depending on these factors, postmodernism might make it seem like the search is useless – but it isn’t; one must only get used to the way certain non-rational criteria (such as our values) shape it. In other words, postmodernism does not impede introspection; it just warns it will never be pure.
The author seems to incorporate an intuition regarding the insufficiency of “reason and introspection” as a path to finding the human essence in the structure of the text itself, specifically in the way he cites other authors. In the first essay, for example, Cudenec is basically saying: “there is an objective reality, it is (or is part of?) nature (which is the objective reality, or is part of it – I don’t know!), and here is Paracelsus, a thinker whose ideas we should get back to, because… Well, because he agrees with me!” Cudenec does not actually argue in favor of the existence of such “objective reality” (except from the pragmatic perspective I’ve criticized above), and does not bring up Paracelsus to do that either! In fact, there is no arguing here, from any of the authors: separated by centuries, they claim many things, but not necessarily with any more propriety than their adversaries.
Yes, I’m perfectly in peace with the idea that there is a reality we respond to – but we have to be demanding when analyzing ideas, and postmodern authors are much more effective at making their case, even when they argue the absurd that is the denial of objective reality, because they deal in depth with the immense difficulties we encounter everytime we try to say a single thing about what this reality is. If extraordinary claims require extraordinary proof, it isn’t very impressive when someone says they’re capable of producing useful and objective knowledge on reality if they don’t back it up with tightly arranged evidence. This is something that Graeber, for instance, by using as source decades of anthropological research, does way more convincingly (even though he recognizes, in the beginning of “Fragments of an anarchist anthropology”, the dangers of an intellectual disposition of too much certainty about things).
But the fundamental issue with Cudenec’s premise is its critical framing. He wonders: how can we call capitalism fake if everything is fake and there is no more meaning, truth, nature, essence, etc? The answer is simple: we don’t have to call it fake. We can call it bad. Counterproductive. And anti-ethical. Jesse Cohn has demonstrated, in the book I mentioned above, how postmodernism is incapable of producing an ethical criticism of actuality, once it abandons this kind of parameter when it makes everything relative (and in this Cudenec is absolutely right). However, this does not strip of its merits the criticism, made by postmodern authors, of the acute risks with representation – a necessary operation in a thought concerned with the “essences” and “natures” of beings. For instance, in a very good excerpt of the book on page 14:
in a world that sees only atomised individuals creating their own subjective realities, what place is there for this collective level of human life […]? In our capitalist world of separation, any authentic communal belonging has to be destroyed so that each isolated individual has to turn to the system for their sense of identity, which is sold back to them in fake form as part of a lifelong process of exploitation based on dispossession.
This is very well said, but the general form of the argument throughout the essay doesn’t hold up. The construction of the human being as separated from and superior over the rest of nature comes at least from Descartes, and it’s precisely the kind of thing postmodernism condemns. However, in a very badly explained mixture, this separation between humanity and nature is equated to the postmodern ultra-subjectivity, as if the idea of a human being independent from and above nature was created by Lyotard in 1979. The idea of an “instrumentalist humanism” itself as recent is weird, considering that the Christian notion of the world is one in which everything was created by God to satisfy our needs. This certainly isn’t a “lapse”, something the author forgot to think about; it is a logic consequence of outright equating postmodern philosophy and contemporary capitalism.
On page 16, at the end of the essay, another good part:
If our everyday experience is of traffic jams, shopping malls and office blocks, if our minds are constantly filled with images of consumerism, domination and war, how are we to see the world as “a vast organism in which natural things harmonise and sympathise between themselves”? The answer is in our imagination. As anarchists have long understood, another world is always possible and will flourish in our collective mind long before it becomes a physical reality. We need to imagine ourselves out of the suffocating confines of industrial capitalism, leaping over all the barriers of lies that it has erected around us.
This is excellent; not only rhetorically, but also logically. Yes, our imagination is under assault – not only in the same way every imagination is always constrained by the experiences and social structures it relates to, but also as in the analysis by Graeber related to the “attack on imagination”, which is what neoliberalism basically is. And considering the world of the possible is essential: it is a realization concerning hermeneutics and anarchist aesthetics that Cohn reaches, although, curiously, it has a lot in common with the conceptual triad of “real”, “actual” and “virtual” found in Deleuze and Guattari. However, this beautiful paragraph falls into a new trap as soon as the construction of this imagination is said to happen by means of a “dream” with “authenticity”:
We need […] to allow nature to dream itself into the core of our inner being. “Freedom for Paracelsus is anything but the arbitrary will of the subject,” says Braun. “It is not defined on the basis of the subject, of the will of the subject. Instead, it’s an act of letting-be, letting nature illuminate itself in us”.
Which would be great, if only the idea of nature weren’t itself always contingent and socially constructed! It is great that Cudenec thinks of human nature this way – but this is political philosophy; and as an idea on the attitudes of human beings, it has no strength unless it is actually operating in their heads. “Nature” won’t illuminate anyone spontaneously in the direction of anarchism unless anarchists are able to successfully convince people that nature works this way – because until they do, nature will tell them (and is telling them) different things – to different people, by the way.
But we can also consider, for a moment, the pragmatic argument; even if capitalism and postmodernism can be analyzed on their own terms, as distinct, non-automatically identical phenomena, there still remains the possibility (a quite reasonable one) that it helps less than it harms. It is in this sense that Cudenec cites Orwell’s famous work 1984: since “postmodernism” (or an anticipated version of its most stereotyped version) contributes to the authoritarian government described in the dystopic fiction, in our own current dystopia it would also be harmful.
However, I believe there is a misunderstanding regarding the message of the book; maybe even an inversion of cause and consequence that prevents us from seeing postmodernism as having redeeming qualities. It is not that “postmodernism” crushes the possibility of revolt and transformation in the book: what does that, in 1984, is violence, force; power concentrated in an authority and organized in an intensely repressive hierarchical system. Cudenec treats as cause (the main character, by the end of the book, believes there is no objective reality), or even minimal condition, what should be seen as an incidental consequence (it is not by chance that this is the last part of the book).
It is not that the government wants people to stop looking at reality and start thinking about everything as relative; no. It is that it has the power to hurt them, to control the flow of information (effectively destroying them, which is part of Winston’s job) and to control resources, which helps keep and perpetuate this control. If it weren’t for all this domination, postmodern thought would have been absolutely inconvenient, since the actuality and the intentions of what the government said would be questioned.
The problem here is not postmodernism, but the deeper logic of domination – which would even use for the same goal words and concepts Cudenec adores: human nature is this or that, according to what was needed. And it doesn’t strike me as historical to say that if a certain conception of human nature is wrong it will simply not stand: having defined reality in a certain way, and finding support on some tools of control over ideas, resources and violence, a great deal of what shows up later, even the scientific kind of evidence, will be seen through a biased perspective, reinforcing that which is already believed in. That is why I add that the “postmodernism” in 1984 is incidental: O’Brien read Winston’s diary. The torture to which the main character is subjected may have been “customized” for him: when the idea of an objective reality is what anchors Winston to a shred of hope and rebellion, this is what must be destroyed. But for another detainee – one whose rebellion comes from a deep and conceptual questioning of the world that has been built around him or her – the best tactic might be to reinforce precisely the idea that there are certain fixed and immutable things, and that the government is simply promoting them, keeping its citizens safe (even if by means of “bitter medicine”) from bigger worries, the “antinatural” stuff.
In common in both cases, the State and the totalitarian control it works. But despite this reading of 1984, which I consider a tad limited, the relationship between postmodern thought and this control in at least one possible Orwellian narrative is clear, and forces us to wonder: is the biggest enemy to anarchy still a group of fixed notions about what the world is, what people are, and how everything works? Or is the certainty-dissolving postmodern trend even worse? Cudenec is sad because he believes postmodernism destroyed the certainties he likes; but the power of relativization and deconstruction serves to dissolve any other idea, including some modern ones he condemns (such as organized religions – or the State!). I still believe the power of this dissolution can be mobilized in a productive way. But the bigger strategic question Cudenec puts out through this frontal attack to some non-productive forms of this dissolution is fascinating.
There is, thus, two axis of discussion the book brings about, which are great merits of the work: not only the question as to what the biggest threat to the construction of popular autonomy is, but also to what extent our relationship with the idea of construction informs our strategy in a singular manner. The author takes issue, it seems, with “constructed” things in opposition to “natural” ones. But, if “human essence” is in fact so anarchic, why, after thousands of years on planet Earth, we find ourselves, as a species, in the situation we do? The author locks himself into a certain paradox of Godwin – if power corrupts truth, how can truth topple power? If we are to believe Cudenec, an intellectual construction corrupts human essence, but human essence can still be used to defeat this construction (… but how, if it has been corrupted? Has it been corrupted or has it not, after all?) Of course Cudenec is more “dialectic” (what is lacking in Godwin, according to German critic Bode), but in order to get out of the paradox, he would need to admit it takes more than the existence of an objective human nature, since for it to have effects on reality it needs to be effectively constructed as such, which de-legitimizes any stronger assertion on what it is independently of what we make it to be. Worse than that, by the way, is not only his proximity to the philosophical problem in Godwin, but to the pragmatic one in Marx. The more you paint human nature as gifted with an extraordinary power of permanence and identity, the less it is needed, I suppose, that we actually do anything for it to overcome the restrictions artificially imposed over it by the capital and the State.
Having said that, I wonder if I can really criticize Paul Cudenec so abrasively. After all, what is it I’m reviewing? A work of philosophy? Of political theory? Or a pamphlet? As Cohn has noted, objecting to Fish and Rorty’s ideas on textuality: how to convince anyone of anything through the recognition that it is not an absolute truth? This also reminds me, on the other hand, of what Graeber says of the value of experience and how it is much harder to theoretically convince people something is possible – it is generally more efficient to do something, showing in practice that it is possible. And showing a possibility is real does not mean a monopoly over the understanding of human nature (if Occupy Wall Street was possible, then we’re all anarchists); it proves only that a possibility regarding human nature was made real through our conscious efforts, which have been made based on ethical grounds related to our values, which in turn have been cultivated from experiences (though it is possible to go through an experience and not come out at the other end with the same set of values learned from it… Which would end up reaffirming another value, I suppose?).
It is not that reality doesn’t exist and there is not a bigger trend related to it and “human nature”, such that certain possibilities enter into effect more often. But, at least from the perspective of an academic, I want to be very careful about these assertions, and postmodern skepticism can help a little in the sense that when we do use our rationality to define and understand this nature, it is not uncommon for us to commit costly mistakes. Now I’m not saying Cudenec is making a mistake, let alone a costly one – but maybe his disinhibition, his lack of care for postmodernism, is precisely what allows him to build a powerful pamphlet, an inspiring discourse that can turn anarchist human possibilities into reality. Not the kind of thing political scientists say, but the kind of thing they study; the deeds and words of those who were bold enough to bravely defend big ideas. How am I to speak ill of such a thing?
Originally posted at petercast.net.
Interessante. Não conhecia o tal Joyeux e gostei muito do livro por achar que consegue um equilíbrio bom entre expor ideias para não-iniciados em anarquismo (embora não seja exatamente um panfleto para a população em geral) e ainda conseguir introjetar ideias, conceitos e perspectivas novas em quem já o conhece.
Minhas anotações, que percorrem um ""roteiro"" e incluem algumas citações que achei interessantes:
* Na primeira parte ele faz eco a Bookchin no ataque aos anarco-sindicalistas. * Na segunda, avança contra a dialética: ela é reformista e reacionária. “Onde se situa a síntese [...] entre o policial que golpeia a cabeça do manifestante e aquele que recebe os golpes?” * “Em sua fase de prosperidade, as sociedades industriais não suscitam revolução, ainda que em seu seio se desenvolvam grupos revolucionários. [...] Sua ação foi indispensável, pois é através dela que se constituirá a memória do povo quando a situação econômica e social tiver mudado e a hora das escolhas decisivas tiver chegado. [...] Eis o tesouro que devemos cultivar. Esse recurso ao espírito libertário produndamente enterrado na memória que é o fruto de uma propaganda obstinada, constante, mas sem grande resultado aparente [...] deve incitar-nos a refletir longa e seriamente antes de determinar os meios e os objetivos de tal ou qual ação revolucionária.” (p. 40) * “Assim como os partidos marxistas e alguns outros, os grupos terroristas acreditaram representar o agente da ruptura. Não compreendera que a ruptura nada mais é senão o resultado lógico da sociedade estabelecida e que o socialismo que não tende a provocá-la só pode santificá-la” (p. 42) * Para ele, o ideal é o seguinte: fazer parte de uma organização anarquista permanente que não só faça propaganda como esteja presente nas lutas. Isso vai inspirar outros no sentido de cultivar a imagem de futuro como uma proposição possível, factível. Aí, quando chegar a hora da “escolha de sociedade” (ruptura), é possível então aproveitar esse momento. * (Observação minha) Ele não acredita em “movimento de massas” anarquista. É um pouco estranho, porque é como se ele quisesse um movimento minoritário que “se aproveita” da ruptura. Mas se aproveita como? Ah, não, somente “servindo como exemplo” para que as massas adotem seu modelo organizacional, etc. Mas… isso não seria um movimento “de massa” - talvez ele queira dizer que não seja um movimento de massa permanente. Mas… Ainda assim é ontologicamente estranho, porque essa “adoção” da ideologia anarquista só pode acontecer em um momento, no momento de ruptura, e aí espera-se que a partir dali as pessoas simplesmente façam as coisas como anarquistas. Bizarro… A alternativa a isso, a esse movimento de massa ou sua existência no momento de ruptura, é aceitar os anarquistas como vanguarda. * Ele ataca a “previsão histórica” e a preconização de modelos: anarquistas defendem princípios e defendem que as pessoas, tendo adotado-as, são responsáveis por colocá-los em prática em liberdade (... um dos princípios) e de forma contextual. * Em outro texto, ele diz que o sonho dos revolucionários marxistas e afins (reformistas) ainda é 1789: uma mudança de classe privilegiada. Mas isso é só remendo. * “A igualdade, a verdadeira, não é formal, assim como bem o viu Proudhon. Ela não depende da seleção ao serviço das engrenagens de uma sociedade programada. A igualdade “natural” é o reconhecimento das diferenças, o respeito de todas as faculdades que a natureza distribui ao acaso e às quais os homens são obrigados, de boa ou má vontade, a se acomodar. É essa igualdade que formará a base da civilização libertária. A igualdade real impede que recaia sobre os homens o peso de um acaso biológico. Impede que eles sejam penalizados quando se revela impossível integrá-los.” (p. 62-63) * P. 71 (e ao redor): ataques à ideia de “ilhas” de autogestão em meio a um ambiente capitalista-hierárquico. * “A autogestão não é uma estrutura no seio da qual se elabora uma experiência socialista. A autogestão é o fruto de uma experiência socialista que resulta da ruptura revolucionária. É quando se produz essa ruptura que intervém a autogestão, simultaneamente como autogestão das lutas e como autogestão da economia (ou o que resta dela)” (p. 72) * No penúltimo texto, ele comenta que a revolução não será uma “festa para adolescentes” - que será preciso lutar e atacar a classe que não vai se desfazer de seus privilégios facilmente.
Contains spoilers
Como esse livro pode ter conseguido tantos prêmios literários?
Bem, talvez porque a mensagem que o livro passa é boa. As mensagens, porque há várias contidas nisto que é essencialmente uma fábula. Aceite os desafios da vida, seja feliz com as pequenas coisas, faça o bem sem ver a quem – mas, principalmente, “se você é um merda, pode superar essa condição e se tornar alguém”. Essa é uma parte bacana do livro, mas é uma parte. A mensagem não é responsável pelo valor literário de uma obra; como amante da literatura, julgo um livro pela forma como as letras são usadas para passar a mensagem! Ela, a vibe positiva, não pode ser usada como desculpa para o final horroroso que esse livro tem, além da série de problemas narrativos e estilísticos que fazem dessa história uma gigantesca decepção.
Não é nada contra Zusak (afinal, A Menina que Roubava Livros é incrível). É que a mensagem aqui carrega tanto peso, canibaliza tanto a história, que esse livro seria melhor avaliado como auto-ajuda. Mas não é; é ficção, e para uma ficção só a droga da mensagem não basta!
Descompasso
Em se tratando de construir um personagem, ou você tem um proletário desiludido ou tem um poeta desiludido.
Ed Kennedy é uma pessoa simples e sem ambições. Não se importa nem com o próprio trabalho, nem com valores burgueses como ter uma casa limpa ou impressionar os vizinhos – é basicamente um cara do povo, só que meio deprê e sem esperança.
Mas isso não casa com a voz interior dele, que é o narrador do livro. Há um descompasso gritante entre quem ele é e o jeito como ele pensa. Um “tipo proletário” pode ser poeta por dentro, mas a poesia dele não vai ser a de Camões, e sim algo como Racionais MCs ou Emicida – a depender de vários fatores (eu estou discutindo estereótipos aqui, afinal) vai ser provavelmente mais rasgada, cínica, irônica, seca. Por exemplo:
Pego a faca do chão e a seguro firme.
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela. Se desse, eu cortaria o mundo em duas fatias e subiria em uma delas. (p. 263)
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela? Quem PENSA assim? Quem tem ESSE fluxo de ideias?
E tudo bem ser bobo se você é um poeta desiludido, mas esse simplesmente não é o personagem que nos foi apresentado!
O cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim, mas eu não deixo, e vou andando. Toda vez que me dá um arrepio nos braços e nas pernas, eu aperto o passo, sem saber se Audrey está precisando de mim, ou talvez Ritchie ou Marv… Cara, tenho que correr.
O medo é a rua.
O medo é cada passo. (p. 258)
O medo é a rua… Pelo amor. Esse é o problema quando você quer escrever em primeira pessoa mas não está disposto a realmente entrar na cabeça do personagem (Liberdade é um bom exemplo de como fazer isso bem, mesmo que o estilo não mude tão radicalmente de um ator para outro). Você, como escritor, quer fazer suas metáforas, comparações, jogos linguísticos bonitos e imagéticos. E nós, seres humanos, fazemos isso de vez em quando. Mas não todos do mesmo jeito! Isso aí não é o Kennedy pensando, é o Zusak usando a boca do Ed Kennedy. O real Kennedy, como muitos de nós ficaríamos se estivéssemos correndo, na rua, à noite, com medo de não chegar a tempo para alguma coisa, não ficaria pensando “ah, o medo é a rua. Oh, cada passo que eu dou é medo, oh, oh”. Não, metade do tempo seria gasto inutilmente com “putaqueopariuputaqueopariuputaqueopariu” e na outra metade nosso cérebro, muito à revelia do que um eu racional quereria, ficaria imaginando em loop os piores cenários possíveis.
Uma prova de que se trata do escritor simplesmente dando um jeito de escrever algo que ele achou fofo só porque ele quer, e não porque faz sentido e casa com o personagem, é que não é só o Kennedy quem faz isso. Marv, um trabalhador de construção civil casca grossa e orgulhoso, quando tem uma confissão emocional a fazer, diz:
É este o meu estado às três da manhã, Ed. Todo dia. Vejo aquela garota – aquela garota pobrezinha e espetacular. Às vezes eu vou ao milharal e caio de joelhos. Ouço meu coração batendo, mas eu não quero. Odeio as batidas do meu coração. São muita altas naquele campo. Elas caem. Direto de mim. Mas então voltam, igualzinho como eram. (p. 281)
Repare que até a parte destacada a frase vai bem. Depois é que Zusak não se aguenta e tem que colocar a parte bonitinha que Marv jamais diria. Isso não é só ruim pela sensação esquisita que dá; trata-se de uma oportunidade roubada do personagem dizer a mesma coisa, mas à sua própria maneira – o que nos permitiria ficar mais à vontade com ele; faria com que ele se tornasse mais tridimensional para nós.
É verdade que o livro todo não é assim. Não é como se eu pudesse simplesmente abrir uma página aleatória e encontrar uma parte vergonhosa dessas, e há frases boas, em que o jeito de cada personagem marca bem a interação entre eles. Muito do embaraço pode se dever à tradução (“poor spectacular girl”, eu presumo, é bem melhor que “aquela garota pobrezinha e espetacular”, combinação de palavras que 99,99% dos falantes da língua portuguesa vão passar a vida sem jamais pronunciar ou escrever), mas não descontaria muita culpa por causa disso… A verdade é que se isso vai ficando mais irritante à medida que você conhece Ed (porque o descompasso fica mais evidente), a narrativa tem uma série de outros problemas maiores.
Um desperdício de suspense, uma abundância de narração
Esse livro é uma comédia ou um suspense? É acima de tudo auto-ajuda, é claro, mas você pode fazer uma “suspédia” ou um “comense” sem problemas; o duro é quando a comédia envenena o suspense.
A premissa do livro é interessante e desafia o leitor: quem está mandando essas cartas misteriosas? Isso é fantástico. Zusak quer o suspense, quer o drama. Ele quer que o leitor se sinta com medo por causa de Ed; quer que sintamos que alguma coisa está em jogo se ele não conseguir o que quer.
Só que aí, quando nosso herói está sendo brutalmente atacado por dois mascarados…
– Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
– E?
– A gente deu uma tortinha pra ele.
– Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
– Assada, Ed! – ele se ofendeu. – Não somos selvagens, tá sabendo? Até que somos bem civilizados. (p. 98)
Oh… OK. Esses são as caras, perceba, que dão uma surra nele como “corretivo” ou coisa parecida.
A próxima vez que eles aparecem proeminentemente é assim:
– Exatamente, Keith, é simplesmente perigoso demais pro Ed chegar a pensar em comer essa torta com molho (…) Vai cair nesta linda camisa branca, e o infeliz ainda vai ter que lavar a desgraçada. E esta é a última coisa de que precisamos agora, concorda? (p. 261; os “bandidos” discutem por que não trouxeram ketchup junto com as tortas que ofereceram a Ed).
Tudo bem você ter comédia no livro. Há várias partes boas nesse sentido. Mas você não precisa pegar todo o seu potencial de suspense, de mistério, de que algo sério está acontecendo, e então transformar numa piada. Tirando dois momentos (de violência, aliás), quase não há a sensação de que alguma coisa importa aqui. A narrativa fica muito mais domesticada.
Todo o resto da narração se arrasta por explicações desnecessárias e comentários expositivos. É o velho “show, don’t tell” levando múltiplos tapas na cara de novo; não são só coisas que simplesmente subtraem do impacto do que está acontecendo – pare de ficar explicando que a sua vida mudou, Ed, que você mudou, e me deixe PERCEBER isso, diabo – mas também que compõem um excesso de “gordura” literária fenomenal.
Leia de novo aquele trecho da página 258 ali em cima – vai lá, eu espero – e me diga: o cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim… Mas eu não deixo. O que demônios quer dizer “eu não deixo”? O que o personagem fez, exatamente? Nada. O personagem não fez nada, essa é uma frase absolutamente vazia e, como tal, tem um efeito absolutamente nulo no leitor – ou quase, porque pode causar chateação pelo fato de ser inútil (como acontece com cada vez que ele sonha e avisa que vai descrever um sonho. Eu pulei todos os trechos de sonhos. Sério, ninguém se importa com o sonho de ninguém na vida real e não é em livros não-sobrenaturais que vão se importar). É poética a frase, é bonita, deveria soar como se o cara fosse corajoso ou algo assim e eu a levaria em consideração para uma narração em terceira pessoa, mas… Não está fazendo nada de bom aqui.
Quando o monstrinho acorda…
Sim, Ed menciona três ou quatro vezes que a vida dele mudou, que ele está diferente, etc. De vez em quando isso é mostrado através dos acontecimentos que compõem a narrativa – e deveria ter parado por aí; já estava ótimo (só que, claro, não parou). Mas, vamos analisar melhor o que aconteceu de verdade nessa narrativa, especialmente com as cartas.
Primeira carta: ele foi fazer companhia a uma velhinha, fez uma adolescente acreditar um pouco mais em si mesma (meh), fez um estuprador sair de cena. Segunda: encheu a igreja de um padre com cerveja de graça, bate num garoto pro irmão mais velho defender o mais novo, compra um sorvete para uma mãe solteira. Terceira: compra luzes de natal novas para uma família mais ou menos pobre, lava roupa suja com a mãe (metaforicamente) e… Vai no cinema costumeiramente vazio de um… Cara qualquer? Quarta: Ajuda o Ritchie a começar a procurar emprego, ajuda o Marv com a filha perdida dele e dança um pouquinho com a Audrey.
Metade dessas coisas não é lá muito transformadora, pra dizer o mínimo. De novo, a mensagem é boa, mas lá pela terceira carta, quando ele fica dizendo “Ai meu Deus, lá vem a quarta carta, o que vai ser de mim, Copas lembra corações e as pessoas sofrem ataques de coração e etc”, você se pega pensando “oh, tadinho, toma cuidado que é capaz de você comprar mais um sorvetinho pra alguém”.
Os riscos a que ele está submetido são extremamente exagerados, especialmente porque o autor desfaz o mistério de algumas das partes de onde ele poderia vir (como quando o cara entra no taxi dele e manda ele seguir em frente, e tal – parece um assalto, mas o autor é incapaz de não transformar mais uma ameaça em caricatura e você já relaxa em dois parágrafos). De vez em quando o Ed leva umas pauladas e a primeira é tão absurda e desnecessária que só agora você pode entender que aquilo era uma exigência da história – para que você pudesse sentir um pouco de pena do Ed, já que é algo que não vem naturalmente.
“Mas e o estuprador?”, você pergunta. É o seguinte: aquela coisinha chamada “suspensão de descrença” é um monstrinho traiçoeiro. Se o livro fosse bem narrado e construído, tudo seria aceito numa boa. Mas quanto mais ele te irrita, mais você começa a pensar: o cara presenciou um estupro, descobriu que ele é regular, e ao invés de ir à polícia, a solução lógica é matar o cara. Sim, a polícia não é gentil com vítimas de estupro, mas ele é uma testemunha ocular que pode ajudar a fazer uma prisão em flagrante. Uma operação dessas é extremamente fácil de conduzir, principalmente naquelas condições.
E a coisa só piora. Você recebe uma carta de baralho com três endereços e… Leva a sério? Imediatamente entende que é uma “missão”, e seus amigos são compreensivos em relação a isso? Você tem a casa invadida, leva uma surra e, pela terceira vez, não vai à polícia denunciar a clara intimidação que está sofrendo? Você vê uma família desestruturada e acha que o problema é só uma briguinha de irmãos – e resolve solucionar o caso sentando o cacete no irmão mais jovem? Que porra é essa, Ed? Se o garoto é um bully proto-fascista revoltado, o irmão maior dele é o menor dos problemas. Você não resolveu caralho nenhum dando bola pra birra de uma criança que fica “ai, vou matar meu irmão, buh buh”.
Isso não faz sentido e, de novo, se o suspense fosse real e a narração menos preguiçosa e desleixada, ninguém nem pensaria nisso. Mas depois de um tempo, você começa a se perguntar que mundo é esse em que Ed vive em que as únicas instituições são uma empresa de rádio-taxi e uma igreja progressista. Por outro lado, o livro teria que ser muito bem escrito para apagar a decepção que foi esse final.
De How I Met Your Mother a Lost
Ok, vamos falar sobre uma coisa: Audrey é a única protagonista feminina. O arco narrativo dela é mais insignificante que o da mulher que ganha o sorvete e menos desenvolvido que o do irmão do padre. Pra você ter noção, caso tenha esquecido, Ed precisa ajudar Ritchie a vencer na vida pela primeira vez. Precisa ajudar Marv a reencontrar uma filha que foi tomada dele por uma família conservadora (de novo: Tribunais. Não. Existem nesse mundo.). Mas a Audrey, ah, o amor da vida dele, essa ele tem que ajudar demais… Fazendo ela aprender a encontrar o amor… Ok, ok, vamos ser justos, mesmo que isso seja um clichê de papeis de gênero ela é uma pessoa fechada e emocionalmente machucada, então… Ainda está valendo – como ele vai fazer ela se abrir para o amor?
Dançando uma música de três minutos com ela no quintal na frente da casa dela logo depois de ela ter transado com o namorado dela (que não é o Ed) e indo embora sem dizer nada e sem que nada mude.
Ele veio do nada, dançou um pouco e ao ir embora imediatamente depois deixou ela se perguntando se ele está precisando de ajuda psiquiátrica. De novo – poético, mas não faz o menor sentido.
Então por que o final é tão decepcionante? Primeiro porque pega essa personagem que, coitada, já é tão mal feita, e a piora. Em uma página, literalmente no epílogo, ela faz algo que não condiz com absolutamente nada que já tenha feito no livro inteiro – apenas para que possa servir de prêmio para o Ed, já que seria inconcebível que um merda que queira provar que é possível se dar bem na vida não tenha uma bela mulher ao seu lado. Não que ele não “mereça” o amor dela ou que ela não possa finalmente admitir o que sente por ele. Mas é súbito. É brusco. O diálogo deles, especialmente o que ela diz, é forçado e não tem nada a ver com a personagem (novidade!). É como Ron terminar Harry Potter com a Romilda, a Hermione com Krum, nenhum livro ter dado indicação de que eles estavam se aproximando e de repente, 17 ou sei lá quantos anos mais tarde… Eles aparecem casados um com o outro. Com filhos. Ou, embora tenha a ver com os personagens porém é brusco, quebra a narrativa e decepciona, o que aconteceu com o final de How I Met Your Mother.
Sinceramente? Eu seria capaz de apostar que a editora simplesmente não gostou que Ed e ela não ficaram juntos. Zusak, sem saco pra reescrever os últimos capítulos, jogou aquelas duas páginas de bosta ali para prometer um ao outro em matrimônio implícito.
E mais ou menos isso, eu ouso suspeitar, é exatamente o que aconteceu com o final inteiro. Zusak, em 2002, basicamente previu o destino da série Lost: uma premissa convoluta que no final não seria satisfeita por nenhuma solução – e a saída é qual? O deus ex machina de que tudo aquilo é uma ficção, Ed é um personagem de um livro (ha!) e quem estava mandando as cartas para ele era o escritor. Nossa, que inteligente.
Sabe o que é inteligente? Foreshadowing. Motivos para você ao menos suspeitar do final do livro. Coisas sutis que façam você reler a obra (ou simplesmente relembrá-la) e pensar “Uau, eu não tinha percebido esse detalhe! Caramba, que genial!”. E isso é extremamente frustrante porque a premissa do livro, como dito acima, é um mistério bom. O mistério invariavelmente convida a conjecturas; você quer ler até o final basicamente para descobrir quem é o puto que está mexendo com a vida dele dessa forma. Minha teoria é a de que era a Audrey – o que seria genial, porque explicaria a razão para ela se manter distante e namorando outro cara (ela estaria fingindo que não sentia nada por ele para que esse fosse o “gran finale”), ela teria um motivo pra fazer isso (como dito no próprio livro… Ela poderia amá-lo e querer que ele fosse uma pessoa melhor) e ainda seria muito bacana porque ela teria planejado até mesmo a parte do cinema (reler esse livro seria fantástico sabendo que ela sabia de tudo).
Mas não.
Esse recurso não é nada original. Uma das mais famosas aplicações recentes dele foi em O Mundo de Sofia, fenômeno mundial lançado em 1991. A diferença é que nele essa premissa é central, e explorada em profundidade; é marcante, é sensível, é coerente com a trama toda. Aqui, nada disso. Aqui é absolutamente broxante.
Esse livro tem partes boas; tem coisas legais, elementos que funcionam. Tudo que se relaciona ao sexo é bem construído, até mesmo a arriscada conexão entre Ed e Sophie. A mensagem é positiva e você fica investido no que vai acontecer, é verdade. Mas não dá pra aceitar algo como “ah, então tanto faz; você ficou doido pra saber o que acontece e isso significa que o livro é bom”. Não, não significa, porque eu também estou doido pra saber como as eleições dos EUA vão terminar, mas se o Trump vencê-las elas ainda serão um desastre.
Se eu tivesse gostado do livro essa postagem seria outra. Minha maior reclamação seria, talvez, uma ponta solta ou um tema pouco explorado (o que é que no passado machucou tanto a Audrey? Não seria bom ver o Ed ganhar confiança também em sua performance sexual?). Faria uma análise sociológica sobre a mensagem do livro – o culto ao sucesso individual e o foco no “indivíduo” como o alvo de toda ação que visa melhorar o mundo – ou quem sabe até sobre a metafísica do sacrifício que se liga, inclusive, à ideia de liberdade de expressão como valor absoluto. Mas fiquei tão pra baixo que já não estou mais nem aí pra “mensagem”.
Esse livro tem uma premissa fantástica e consegue envolver o leitor, mas envolve que nem uma cobra; falha miseravelmente com um estilo inapropriado (que subdesenvolve personagens), uma trama que não se leva a sério, e um final indigno que transforma um suspense fraco numa auto-ajuda barata.
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