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18 booksLivros que escrevi, traduzi, publiquei, ou dos quais de outro modo participei.
Este livro é uma etnografia do povo Guajá e, como tal, é certamente bastante densa e trabalhosa de ler. Dei cinco estrelas porque é foda julgar uma obra por uma coisa que ela não se propôs a ser, então ela certamente merece muitos elogios como etnografia. O autor transborda conhecimento, perspicácia, paixão, e mesmo nesse contexto acadêmico ainda consegue injetar algum humor aqui e ali, além de trazer algumas reflexões sobre pontos de maior alcance da própria obra.
Além disso, a resenha tem que se preocupar em julgar a obra e não seu vivo conteúdo, mas - não poderia deixar de dizer que a vida dos Guajá é interessantíssima, e muitos pontos de suas filosofias foram muito bacanas de descobrir. Em algumas partes, inclusive, me senti quase que numa história de detetive, pois é realmente um quebra-cabeça tentar decifrar como certas ambiguidades e sobreposições de significados podem coexistir nessa cosmologia. É muito, muito interessante, e apesar de ser um comentário sobre o objeto de investigação, não deixa de ser também um elogio ao trabalho bem feito do autor, pois isto só é possível de sentir devido ao seu bom labor como transmissor dessas impressões e dessas ideias.
Acho que todos os pedidos de desculpa contidos no livro - que são engraçados, diga-se - são um mecanismo de defesa do Douglas, porque não podem ser reais - o livro é bom de verdade!! Não tem por que se desculpar.
Obviamente que não ""bom"" pela ótica de Esnobes da Grande Literatura que exigem grandes dramas humanos em tramas hipercomplexas e rebuscadas pra considerar alguma obra boa. Mas eu adorei que o Douglas tenha ""cometido"" esse livro, é muito gostoso de ler. Eu fiquei ainda surpreendido que os poemas foram minha parte favorita; não costuma ser o caso. Tem sacadas muito boas, tramas curiosas (pra dizer o mínimo), um tom desengonçado que deixa a leitura leve, uma sensibilidade nonsense que eu, pelo menos, compartilho... Enfim, eu, particularmente, adorei.
Excelente coletânea, presença obrigatória na estante de toda/o cientista social.
Textos ótimos: Martineau, Addams, Varga, Maruyama, Srinivas, Mardin
Textos bons: Firmin, Ramabai, Du Bois, [Marianne] Weber, Komarovsky
Textos não tão bons: Gamio (péssimo, não deveria estar aqui, única coisa realmente chata da coletânea), Kuper, Takeuchi, Ahmad
O livro é muito bom, especialmente as partes finais, mas tem dois problemas que desapontam bastante.
O primeiro é um tratamento pouco complexo de uma certa duplicidade de tradições que ele classifica como anarquísticas no comunalismo africano. Às vezes os grupos que determinam punições para transgressores usam máscaras para mostrar que são imparciais, para se colocar como a voz da comunidade e não de indivíduos específicos - ok, mas se a classe judiciária usasse máscaras isso não mudaria nada, certo? Ok, mas esses indivíduos não são uma classe à parte - certo, mas também sabemos da via de mão dupla existente entre a concentração de poder político ou cultural e do poder econômico. Então isso é um problema estrutural pois abre um precedente _para que_ decisões parciais (mesmo que não haja um incentivo econômico estrutural para que o sejam) _se passem_ por imparciais, e com menos margem para questionamento a coisa vá permitindo uma concentração de poder. Fala-se também de punições para familiares e comunidades, não só para o indivíduo. Se estivermos falando de responsabilidade por compensação num esquema de justiça restaurativa, ok; mas dentro de um âmbito penal isso abre margens muito complicadas. Isso e outras coisinhas passam batido pela análise.
O segundo problema é uma adoção majoritariamente acrítica de um evolucionismo de ""formas econômicas"", e em certo momento até mesmo um determinismo tecnológico que, especialmente tendo acabado de ler o The Dawn of Everything (Graeber e Wengrow), parece-me extremamente ultrapassado e complicado.
São dois problemas de profundidade teórica que, no entanto, não diminuem a potência da análise de conjuntura sobre a África, nem a pertinência das colocações de caráter histórico e como o anarquismo se encaixa, no passado e no futuro, nessa dinâmica.