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18 booksLivros que escrevi, traduzi, publiquei, ou dos quais de outro modo participei.
Acho que todos os pedidos de desculpa contidos no livro - que são engraçados, diga-se - são um mecanismo de defesa do Douglas, porque não podem ser reais - o livro é bom de verdade!! Não tem por que se desculpar.
Obviamente que não ""bom"" pela ótica de Esnobes da Grande Literatura que exigem grandes dramas humanos em tramas hipercomplexas e rebuscadas pra considerar alguma obra boa. Mas eu adorei que o Douglas tenha ""cometido"" esse livro, é muito gostoso de ler. Eu fiquei ainda surpreendido que os poemas foram minha parte favorita; não costuma ser o caso. Tem sacadas muito boas, tramas curiosas (pra dizer o mínimo), um tom desengonçado que deixa a leitura leve, uma sensibilidade nonsense que eu, pelo menos, compartilho... Enfim, eu, particularmente, adorei.
Este livro é muito bom. Um resumo muito legal de muitos recursos e experiências, em linguagem acessível mas que mesmo assim pode ser útil a quem já conhece algumas coisas daqui. Não ficou claro se é uma tradução de algo estrangeiro misturado a conhecimentos e textos locais - é o que parece; seria legal apontar as fontes se for o caso, e embora a tradução tenha ficado atravancada em um ponto ou outro, não compromete a leitura e a qualidade do trabalho.
O que baixa a nota para mim é o endosso à homeopatia, que é patentemente absurda pra qualquer pessoa que busque saber o mínimo sobre ela - é realmente mortificante ver um trabalho tão lindo dar legitimidade a uma parada tão tosca. Nem dá pra se apoiar na ideia de medicina decolonial porque essa besteira foi importada da Europa. Enfim. Ignorando as menções a isso o livro é fantástico.
Como é interessante a repulsa que às vezes podemos sentir por uma posição parecida com a nossa mas diferente o suficiente para causar atrito... Minhas percepções *durante* a leitura foram mais duras do que seria justo; tendo terminado o livro, acho que é um argumento OK mas que peca em alguns pontos.
No que tange às diferenças, acho que o autor confunde algumas coisas, tira conclusões estranhas dos dados que apresenta, deixa no ar alguns não-ditos que prejudicam a apreciação de uma versão mais interessante do argumento... Em especial porque me parece que parte de uma posição bastante sectária de luta social em que não reconhece avanços parciais, muito rapidamente julga-os como recuperados pelo sistema e inúteis a um avanço maior (comenta sobre 2013 da perspectiva do ""grau de insuportabilidade"", mas não parece saber que na verdade essas revoltas ocorrem justamente após um período de ascensão social), e tem uma obsessão com a necessidade de ""unidade"" dentro da classe trabalhadora (e inclusive uma visão bem tosca - o futuro é colorblind, mano - de igualdade) que trai uma certa alergia ao reconhecimento de lutas transversais que possam provocar conflitos produtivos. Enfim, certas diferenças, mesmo entre posições parecidas, causam um ranço porque é justamente porque são com pessoas que pensam parecido que a gente acaba convivendo mais, e portanto com as quais acabamos nos estranhando mais... O ranço é grande porque eu imagino o tipo de consequência política que essa postura do livro traz pra militância, e sinceramente, acho essa postura tão improdutiva quanto os excessos identitários que o livro critica.
O livro é muito bom, especialmente as partes finais, mas tem dois problemas que desapontam bastante.
O primeiro é um tratamento pouco complexo de uma certa duplicidade de tradições que ele classifica como anarquísticas no comunalismo africano. Às vezes os grupos que determinam punições para transgressores usam máscaras para mostrar que são imparciais, para se colocar como a voz da comunidade e não de indivíduos específicos - ok, mas se a classe judiciária usasse máscaras isso não mudaria nada, certo? Ok, mas esses indivíduos não são uma classe à parte - certo, mas também sabemos da via de mão dupla existente entre a concentração de poder político ou cultural e do poder econômico. Então isso é um problema estrutural pois abre um precedente _para que_ decisões parciais (mesmo que não haja um incentivo econômico estrutural para que o sejam) _se passem_ por imparciais, e com menos margem para questionamento a coisa vá permitindo uma concentração de poder. Fala-se também de punições para familiares e comunidades, não só para o indivíduo. Se estivermos falando de responsabilidade por compensação num esquema de justiça restaurativa, ok; mas dentro de um âmbito penal isso abre margens muito complicadas. Isso e outras coisinhas passam batido pela análise.
O segundo problema é uma adoção majoritariamente acrítica de um evolucionismo de ""formas econômicas"", e em certo momento até mesmo um determinismo tecnológico que, especialmente tendo acabado de ler o The Dawn of Everything (Graeber e Wengrow), parece-me extremamente ultrapassado e complicado.
São dois problemas de profundidade teórica que, no entanto, não diminuem a potência da análise de conjuntura sobre a África, nem a pertinência das colocações de caráter histórico e como o anarquismo se encaixa, no passado e no futuro, nessa dinâmica.