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See allEsbarrei com ele algumas vezes ao longo dos anos, em diversos textos, mas só consegui ler agora. Por mais fundamental que seja na história da filosofia ocidental, é um livro que só vale a pena ler se você sabe onde quer chegar com ele. Mesmo assim, não recomendo que quem esteja estudando epistemologia procrastine muito a leitura.
A edição da Unesp é excelente.
Eu não sei se gostei de como foi escrito, de modo tão hermético, quadrado, direto. Talvez seja para que se preste atenção na narrativa; talvez seja para dar conta do pensamento do narrador, dizendo, em parte, o que ele mesmo representa através de sua linguagem. De todo modo, uma história pode ser interessante sem que a escrita seja. Há eu emoções que não precisam se esconder em estilo.
Acho que cai em vários clichês, alguns deles pelos próprios temas que aborda. Faz o que pode para ultrapassar eles, o que rende algumas das melhores partes, mas torci o nariz para muita coisa. O esforço de não reduzir um personagem negro a “o que há de negro dele”, mas incorporar ao drama, é a principal virtude do que há de melhor aqui. Dá universalidade. Quebra o arquétipo do sofredor-que-sofre-em-história-sofrida, que reduz o personagem ao seu sofrimento e, na minha opinião, desumaniza ele. Traz pro coração.
Uma amiga comentou, e dou razão a ela, que é um livro muito enviesado com a perspectiva masculina que idealiza o pai e coloca a mãe como louca na relação, um pouco demonizando. Eu acho que isso conversa com os muitos clichês e traços arquetípicos que acabam atravessando a narrativa.
Quando ele enriquece de detalhes as experiências, mesmo que imaginadas, tentando buscar a resposta ao seus pais como pessoas e pais, é que realmente vem à tona um desejo íntimo de compreensão e a obra é capaz de criar um drama sólido.
Lendo as reviews, realmente sinto que as pessoas perderam a capacidade de lidar com o contraditório. Acho que por isso esse livro é tão provocativo e polêmico e, ao mesmo tempo, tão relevante.
É tempo em que o desejo pelo puro, pelo casto, pelo intocado, é glorificado; e a humanidade, em tudo de ruim e melancólico que lhe corresponde, é jogada às traças. É preciso ser perfeito. E o sentir real, frequentemente contraditório, por não ser perfeito, sob esses moldes muito óbvios e reiterados de certo e errado, não merece comiseração.
Para certa gente, expor e se compadecer é endossar. Quando não há pureza, expia como se culpa fosse; ou justifica, se lhe convém. O resultado é que, quando não soam anacrônicos, soam moralistas; quando não soam moralistas, soam hipócritas. Em alguns casos, soam tudo isso ao mesmo tempo.
São quase tão católicos em sua culpa e julgamento quanto qualquer beata que passeia por aí.
Tudo é Rio, com sua capacidade de não ser o esperado, mexe com essa moralidade muito flácida de quem pensa que nunca errou ou pensa tanto de si e de sua visão de mundo que esquece do outro.
Mesmo o aspecto mais negativo, a tendência ao naturalismo, que flerta com certa visão arquetípica dos personagens, é consistentemente interrogado. O sentimento, que é o que move realmente a trama, desfaz ou pelo menos questiona esses arquétipos; e as incursões por traz da vida de cada um também rompem as aparências. Por isso, dificilmente poderia ser acusado de ser um livro simplista na forma de lidar com os personagens. É uma obra muito capaz de compreender cada um deles e transmitir as suas mudanças, por mais que essas mudanças não sejam o que a gente quer ou espera.
De fato, como o foco não está na sociedade e nas condições de vida (pra isso, vá ler Jorge Amado), mas sim nos sentimentos e nas formações psicológicas que lhes correspondem, uma abordagem dos personagens desse tipo é muito mais eficaz do que os rodeios de trama. Aliás, nessa interrogação do arquétipo ou o seu uso inteligente é que mora o charme de um García Lorca. É também fruto dessa tradição o plot twist melodramático e as incursões do narrador.
É livro pra reler, eventualmente. Por enquanto, é isso. Joguem pedras!
Decepcionante.
A deterioração da saúde mental da narradora-protagonista é a única coisa realmente interessante. É esse retrato honesto da piora da condição psicológica, da culpa, do ódio a si mesma e aos outros, que triunfa. Se você se interessa nesses elementos, nessa capacidade de identificação específica com o sentir da protagonista, você vence a narrativa.
Se você tenta ir além disso, surge um retrato de capacidade reflexiva limitada sobre a condição mental da narradora. O livro trata muito de seu sentir imediato e de lembranças fruto do instante, o que tem seus prós e contras, mas, pra mim, não trouxe nada de especial. Isso casa com o problema de que nada nesse livro justifica o quão insuportável é a narradora. Foi duríssimo passar por todo o incômodo das reclamações constantes, especialmente na primeira parte. O resultado é uma narrativa que parece resistir a si mesma e deixa o leitor sem vontade alguma de querer saber algo sobre a protagonista, tornando-o muito menos instigante e provocativo do que poderia ser. Quando o livro realmente melhora, na metade, e mergulha na depressão, eu já não tinha mais vontade de saber o que aconteceria.
O pecado original é que, sabendo se tratar de um livro que se mistura com a vida da autora, esse retrato psicológico ganha um ar autoindulgente. Começa a emergir à reflexão uma obra escrita no susto, no espírito do sentimento, faltando certa consciência que a engrandeceria, restando somente um retrato fidedigno do sentimento da depressão. Nisso reside a única importância dessa obra. O pior é que todos os elementos para começar a pensar com mais gosto e envolvimento estão lá, mas sem fazer questão de despertar interesse. A linguagem tem seus momentos, mas, no geral, não é inspirada o suficiente para intrigar.
Eu entendo quem gostou. Not my cup of tea.