

Como avaliar A Arma Escarlate? O livro é tão escancaradamente uma fanfic que é preciso se perguntar se a fidelidade ao universo literário original importa como critério de julgamento. E devo confessar que não tenho hábito de ler fanfics. Não obstante, ao final do livro chego à conclusão de que a comparação com o universo original em si, ao servir como critério, só faz depreciar a consideração dessa obra: já pela metade dele as constantes referências a Harry Potter ficam extremamente chatas e irritantes. Força a barra demais - aliás, quando cita Gandalf (duas vezes) e Forks (ugh) aí mesmo que é impossível não rolar os olhos pra cima até quase enxergar o cérebro.
Tirando isso, o livro é uma mistura quase inenarrável de sensações. A história é boa, mas os personagens são muito mal construídos - acabaria levando tempo demais pra explicar o quanto é incoerente e péssimo o que eles são nesse livro (só os tais ""pixies"" levaria uns seis parágrafos). A caracterização da escola, com uma praia dentro do morro do Corcovado, é realmente maravilhosa - mas muitas coisas ali não funcionam como a autora imagina que deveriam funcionar. É feita uma tentativa de analogia com o mundo real, com o Brasil, que em alguns casos funciona e em outros cai de cara no chão. O fato de os feitiços serem em línguas nativas foi uma sacada muito boa - que ela quase estraga racionalizando demais, o tempo todo chamando atenção pra isso. Alguns termos se encaixam de forma genial - aparatar agora é girar (perfeito). Outros permanecem alheios, atravancados e bizarros até o fim, sem jamais convencer - de ""azêmolas"" a ""mequetrefes"", mas acima de tudo ""pixies"" (horrível, horrível).
Acho que a autora teve o revés de fazer uma fanfic completa de Harry Potter com a série toda em estágio avançado de proliferação cultural. Ela deve ter achado que seria enfadonho seguir o mesmo ritmo da série original, mas deveria tê-lo feito, porque aquele que temos aqui resulta em três coisas: em primeiro lugar, crianças e adolescentes extremamente competentes em magia desde o início, sendo desenvoltos demais em tudo, sendo o tempo todo aliás melhores que os professores, com a autora constantemente chamando atenção para isso (é verdade que HP também é um pouco culpado disso, mas não é no mesmo nível do que vemos aqui). Em segundo lugar, MUITA informação: um afã de apresentar absolutamente tudo sobre esse universo ficcional complementar ao de Harry Potter em menos de 500 páginas. E em terceiro lugar, MUITA exposição - a _forma_ como essa informação toda é apresentada é extremamente inorgânica, chata, artificial. Apesar disso, a autora desenvolve muito bem a analogia a que se propõe. Faz uma boa homenagem à cultura tanto indígena quanto africana de maneira maravilhosa, e adapta o folclore brasileiro de maneira magistral. Aliás, essa questão do ritmo malfeito fica clara quando o assunto é a varinha (a arma escarlate em questão) e o passado nobre de Hugo: coisas que são (à moda do resto do livro, infelizmente) explicadas, em alguns casos à exaustão, em alguns casos sem todos os detalhes, mas que não têm efeito nenhum na história em si (ela poderia ter ocorrido da mesma maneira sem esses dois elementos). Sinto que, se eles vão ser melhor aproveitados em continuações, eles poderiam ter sido explorados em continuações, e ter permanecido mistérios nesse (como o que a Rowling decidiu fazer com os horcruxes no segundo livro).
Isso tudo fica um pouco menos evidente quando a autora dá uma cartada que é realmente incrível, funciona bem e salva o livro, na minha humilde opinião, de uma nota pior que até então merecia: Hugo começa a traficar cocaína para os bruxos. Está aí uma coisa que você não verá jamais em qualquer coisa parecida com Harry Potter e que foi uma sacada de mestra. Isso leva, evidentemente, ao que todo leitor deveria estar esperando: um confronto entre fuzis de traficantes e varinhas de bruxos.
De qualquer forma, com um final satisfatório, intrigante, uma forma razoável de adaptar a dinâmica mágica de HP ao Brasil, um plot que satisfaz aos poucos e algumas dinâmicas que fazem lembrar o compasso moral aprumado do universo ficcional original, A Arma Escarlate compensa suas muitas falhas e imagino que deixe a maioria de seus leitores desejosos de seguir em frente na saga.
Como avaliar A Arma Escarlate? O livro é tão escancaradamente uma fanfic que é preciso se perguntar se a fidelidade ao universo literário original importa como critério de julgamento. E devo confessar que não tenho hábito de ler fanfics. Não obstante, ao final do livro chego à conclusão de que a comparação com o universo original em si, ao servir como critério, só faz depreciar a consideração dessa obra: já pela metade dele as constantes referências a Harry Potter ficam extremamente chatas e irritantes. Força a barra demais - aliás, quando cita Gandalf (duas vezes) e Forks (ugh) aí mesmo que é impossível não rolar os olhos pra cima até quase enxergar o cérebro.
Tirando isso, o livro é uma mistura quase inenarrável de sensações. A história é boa, mas os personagens são muito mal construídos - acabaria levando tempo demais pra explicar o quanto é incoerente e péssimo o que eles são nesse livro (só os tais ""pixies"" levaria uns seis parágrafos). A caracterização da escola, com uma praia dentro do morro do Corcovado, é realmente maravilhosa - mas muitas coisas ali não funcionam como a autora imagina que deveriam funcionar. É feita uma tentativa de analogia com o mundo real, com o Brasil, que em alguns casos funciona e em outros cai de cara no chão. O fato de os feitiços serem em línguas nativas foi uma sacada muito boa - que ela quase estraga racionalizando demais, o tempo todo chamando atenção pra isso. Alguns termos se encaixam de forma genial - aparatar agora é girar (perfeito). Outros permanecem alheios, atravancados e bizarros até o fim, sem jamais convencer - de ""azêmolas"" a ""mequetrefes"", mas acima de tudo ""pixies"" (horrível, horrível).
Acho que a autora teve o revés de fazer uma fanfic completa de Harry Potter com a série toda em estágio avançado de proliferação cultural. Ela deve ter achado que seria enfadonho seguir o mesmo ritmo da série original, mas deveria tê-lo feito, porque aquele que temos aqui resulta em três coisas: em primeiro lugar, crianças e adolescentes extremamente competentes em magia desde o início, sendo desenvoltos demais em tudo, sendo o tempo todo aliás melhores que os professores, com a autora constantemente chamando atenção para isso (é verdade que HP também é um pouco culpado disso, mas não é no mesmo nível do que vemos aqui). Em segundo lugar, MUITA informação: um afã de apresentar absolutamente tudo sobre esse universo ficcional complementar ao de Harry Potter em menos de 500 páginas. E em terceiro lugar, MUITA exposição - a _forma_ como essa informação toda é apresentada é extremamente inorgânica, chata, artificial. Apesar disso, a autora desenvolve muito bem a analogia a que se propõe. Faz uma boa homenagem à cultura tanto indígena quanto africana de maneira maravilhosa, e adapta o folclore brasileiro de maneira magistral. Aliás, essa questão do ritmo malfeito fica clara quando o assunto é a varinha (a arma escarlate em questão) e o passado nobre de Hugo: coisas que são (à moda do resto do livro, infelizmente) explicadas, em alguns casos à exaustão, em alguns casos sem todos os detalhes, mas que não têm efeito nenhum na história em si (ela poderia ter ocorrido da mesma maneira sem esses dois elementos). Sinto que, se eles vão ser melhor aproveitados em continuações, eles poderiam ter sido explorados em continuações, e ter permanecido mistérios nesse (como o que a Rowling decidiu fazer com os horcruxes no segundo livro).
Isso tudo fica um pouco menos evidente quando a autora dá uma cartada que é realmente incrível, funciona bem e salva o livro, na minha humilde opinião, de uma nota pior que até então merecia: Hugo começa a traficar cocaína para os bruxos. Está aí uma coisa que você não verá jamais em qualquer coisa parecida com Harry Potter e que foi uma sacada de mestra. Isso leva, evidentemente, ao que todo leitor deveria estar esperando: um confronto entre fuzis de traficantes e varinhas de bruxos.
De qualquer forma, com um final satisfatório, intrigante, uma forma razoável de adaptar a dinâmica mágica de HP ao Brasil, um plot que satisfaz aos poucos e algumas dinâmicas que fazem lembrar o compasso moral aprumado do universo ficcional original, A Arma Escarlate compensa suas muitas falhas e imagino que deixe a maioria de seus leitores desejosos de seguir em frente na saga.