

Literariamente falando, o livro é um pé no saco. Ou seja, em termos de entretenimento ele é bastante chato de ler, atravancado. Toda a trama é apenas uma conversa, que mais que rapidamente transforma-se em monólogon enfadonho.
O que se pode depreender é que a proposta foi criar uma ficção (que revelou-se vulgar no sentido Nietzscheano) para um folheto político. O programa político de Utopia vê-se como uma crítica às práticas da época --- e o contra-ataque simbólico foi ter transformado Utopia não apenas em terra que não existe, mas que nunca existirá. Uma das críticas transversais do ""folheto"" (ou seja, que não são pontuais, mas que atravessam como tema todo o livro) é a preeminência do público sobre o individual, sendo que a população ou sua instituição prática racionalizada, um parlamento democrático (ainda que a figura do príncipe subsista) regulariam quase todo aspecto da vida individual. Uma forma de disciplina e sanitização foucaultiana deixa-se ver nas aspirações de que, em seus momentos de lazer, os indivíduos façam apenas aquilo que lhes seja proveitoso, saudável e que faça bem para a mente e o corpo como um todo.
Outras coisas pulam aos olhos: apesar da crítica, a perspectiva ainda está bastante circunscrita aos preceitos da época. Portanto, a religião ""ideal"" de Utopia é um cristianismo tolerante e curioso, com um sacerdócio mais aberto, artístico e responsável --- podemos dizer que o catolicismo, até certo ponto, incorporou essa visão ""utópica"" de religião nele, ainda que não completamente. Antes do casamento, os noivos devem se ver pelados perante todo o público, para que se descubram como são antes do casamento --- só que, ainda assim, a proposta não é que façam sexo (isso seria demais escandaloso, não?), apenas que se vejam nus. Os homens têm mais importância e agência que as mulheres, embora algumas novidades sejam introduzidas. Em Utopia, todos os homens são iguais e dignos de liberdade e participação pública --- exceto escravos, que ainda são vistos como pessoas indignas. O interessante é que uma das formas de se tornar escravo é cometendo alguns crimes ""pesados"", de modo que se vê não apenas o modo inflexível como se observa a natureza do homem como também o quão ameaçadoras e terríveis são as punições, tidas como o maior e mais efetivo instrumento de controle social --- que, espera fazer ver o autor, são ótimas quando empregadas para uma constituição perfeita e boníssima.
Além disso, é notável que (como se pode supor através da presença das punições e das ameaças) Utopia não é um país perfeito na acepção situacionista do termo, ou seja, não é que seja uma situação perfeita e imaculada. Na verdade, de perfeição é dotado o mecanismo esculpido para lidar com as partes negativas da experiência humana, de forma tal que não é que em Utopia não haja criminosos, mas se faz de tudo para que as pessoas não precisem cometer crimes e, através das punições, não sejam estimuladas a fazê-lo --- dessa forma, minimizando o crime ao máximo. Isso nos faz ter cuidado ao usar a alcunha de utópico, e o sentido em que a ""perfeição"" é empregada nessa obra.
A pergunta quanto a se o autor gostaria de vê-la transformada em realidade ou não permanece, e mesmo que possa desvanecer com uma pesquisa por ele na Wikipédia, eu prefiro não descobrir para que a obra flutue independente no mar da percepção.
Literariamente falando, o livro é um pé no saco. Ou seja, em termos de entretenimento ele é bastante chato de ler, atravancado. Toda a trama é apenas uma conversa, que mais que rapidamente transforma-se em monólogon enfadonho.
O que se pode depreender é que a proposta foi criar uma ficção (que revelou-se vulgar no sentido Nietzscheano) para um folheto político. O programa político de Utopia vê-se como uma crítica às práticas da época --- e o contra-ataque simbólico foi ter transformado Utopia não apenas em terra que não existe, mas que nunca existirá. Uma das críticas transversais do ""folheto"" (ou seja, que não são pontuais, mas que atravessam como tema todo o livro) é a preeminência do público sobre o individual, sendo que a população ou sua instituição prática racionalizada, um parlamento democrático (ainda que a figura do príncipe subsista) regulariam quase todo aspecto da vida individual. Uma forma de disciplina e sanitização foucaultiana deixa-se ver nas aspirações de que, em seus momentos de lazer, os indivíduos façam apenas aquilo que lhes seja proveitoso, saudável e que faça bem para a mente e o corpo como um todo.
Outras coisas pulam aos olhos: apesar da crítica, a perspectiva ainda está bastante circunscrita aos preceitos da época. Portanto, a religião ""ideal"" de Utopia é um cristianismo tolerante e curioso, com um sacerdócio mais aberto, artístico e responsável --- podemos dizer que o catolicismo, até certo ponto, incorporou essa visão ""utópica"" de religião nele, ainda que não completamente. Antes do casamento, os noivos devem se ver pelados perante todo o público, para que se descubram como são antes do casamento --- só que, ainda assim, a proposta não é que façam sexo (isso seria demais escandaloso, não?), apenas que se vejam nus. Os homens têm mais importância e agência que as mulheres, embora algumas novidades sejam introduzidas. Em Utopia, todos os homens são iguais e dignos de liberdade e participação pública --- exceto escravos, que ainda são vistos como pessoas indignas. O interessante é que uma das formas de se tornar escravo é cometendo alguns crimes ""pesados"", de modo que se vê não apenas o modo inflexível como se observa a natureza do homem como também o quão ameaçadoras e terríveis são as punições, tidas como o maior e mais efetivo instrumento de controle social --- que, espera fazer ver o autor, são ótimas quando empregadas para uma constituição perfeita e boníssima.
Além disso, é notável que (como se pode supor através da presença das punições e das ameaças) Utopia não é um país perfeito na acepção situacionista do termo, ou seja, não é que seja uma situação perfeita e imaculada. Na verdade, de perfeição é dotado o mecanismo esculpido para lidar com as partes negativas da experiência humana, de forma tal que não é que em Utopia não haja criminosos, mas se faz de tudo para que as pessoas não precisem cometer crimes e, através das punições, não sejam estimuladas a fazê-lo --- dessa forma, minimizando o crime ao máximo. Isso nos faz ter cuidado ao usar a alcunha de utópico, e o sentido em que a ""perfeição"" é empregada nessa obra.
A pergunta quanto a se o autor gostaria de vê-la transformada em realidade ou não permanece, e mesmo que possa desvanecer com uma pesquisa por ele na Wikipédia, eu prefiro não descobrir para que a obra flutue independente no mar da percepção.