

O livro é bom. A narrativa é boa, fluida, gostosa, o estilo é bacana, o diálogo é bom, as piadas funcionam, e a história é tanto instigante quanto recheada de referências literárias que a tornam sublime para algo que deveria ser só mais um conto pop. Tudo se encaixa - até mesmo seu defeito, porque o desfecho dificilmente poderia ter sido outro, tudo se encaixou bem, e um pouco da decepção que sentimos é também a decepção da primeira pessoa, o que é, portanto, aceitável e interessante.
O problema, é claro, é que apenas ao chegar no final é que percebemos que a _premissa_ é esquisita. Margo faz o que faz porque Orlando é uma ""cidade de papel"" e ela é uma ""pessoa de papel"" querendo se tornar uma ""pessoa de verdade"". É inevitável não se perguntar no fim das contas o que é que Orlando tinha de TÃO RUIM, afinal. Oh, meldels, que vida horrível que ela tinha.
E isso _é_ uma deficiência do autor, na minha opinião, e não incidentalmente de quem interpreta a história: não estou argumentando que pessoas realmente miseráveis e desafortunadas se sentiriam ofendidos com essa história, mas que _nós mesmos_ não conseguimos engolir os conceitos que _o autor_ nos empurra. E sabemos que ele faz isso porque não os questiona - evidência 1: ele nos apresenta os pais de Margo e, através dos comentários dos outros personagens, nos quer fazer crer que eles são horríveis - mas você se pega negando o que eles dizem, comentado para si mesmo ""na verdade... Não, não é bem assim"". 2: Quentin, que deveria ser em parte nós mesmos, já que compartilhamos a jornada da dúvida e da busca, não questiona a motivação dela. Quando ela fala que ""tinha que fugir daquilo tudo, daquela vida"", blablabla Quentin nunca levanta a sobrancelha e diz ""do que vc tá falando, guria? Que vida? Vc se prostituía, por acaso? Não bastava começar a andar com os nerds ao invés de tentar buscar profundidade e amizade entre ricaços preocupados com a fama e o poder?""; não, ele simplesmente balança a cabeça, o que equivale a dizer ""é, te entendo, é claro que você tem razão"".
Talvez o que Green queira é que vejamos Margo como uma menina profunda, marcada pelo desajuste, por uma vontade de uma vida maior que ela, e que, ao ser sugada por um ciclo de futilidade, tem que fugir para se libertar dele. Um espírito livre ao mesmo tempo danificado e sábio. Mas o que sobra é uma menina que não tinha coragem para sair da patota que lhe dava status (como alguém consciente do e contrário ao racismo subjacente ao grupo dominante do qual é líder, mas que se recusa a combatê-lo em nome de sua posição), dando origem a mais uma história americana sobre a beleza da individualidade indômita que não tem mais nada na cabeça a não ser condenar o futuro por lhe apertar um pouco - os outros que se fodam. É quase uma Ayn Rand. Green talvez imagine uma líder punk infiltrada, qual espiã, entre as lideranças do status quo, mas com um segredo sombrio sobre como se sente por dentro. O que vemos é... Sei lá, uma mimada egocêntrica? Alguém que, de tanto tempo infiltrada, se tornou indistinguível das lideranças do status quo e nem sabe mais tocar guitarra bem o bastante pra uma música punk (o que quer dizer que não sabe tocar nada)? O mais importante é que _não_ vemos o que Green vê. Se pudéssemos fazê-lo, a história ficaria de pé. Desmantelada a figura que justificaria tudo, sobra só formato (mesmo que um bom formato) de conteúdo esquisito.
Mas, enfim, pela fragilidade da premissa na minha opinião - uma premissa de papel - dei uma estrela a menos. As outras quatro são porque o resto do livro é bom - em especial se você esquecer da Margo e ler tudo isso como um processo importante pro Quentin. A jornada é legal de ser viajada nesse livro, não importa o destino final ou como ele realinha a jornada. Certas características não se perdem, e as lembranças que vão ficar da leitura certamente são boas.
O livro é bom. A narrativa é boa, fluida, gostosa, o estilo é bacana, o diálogo é bom, as piadas funcionam, e a história é tanto instigante quanto recheada de referências literárias que a tornam sublime para algo que deveria ser só mais um conto pop. Tudo se encaixa - até mesmo seu defeito, porque o desfecho dificilmente poderia ter sido outro, tudo se encaixou bem, e um pouco da decepção que sentimos é também a decepção da primeira pessoa, o que é, portanto, aceitável e interessante.
O problema, é claro, é que apenas ao chegar no final é que percebemos que a _premissa_ é esquisita. Margo faz o que faz porque Orlando é uma ""cidade de papel"" e ela é uma ""pessoa de papel"" querendo se tornar uma ""pessoa de verdade"". É inevitável não se perguntar no fim das contas o que é que Orlando tinha de TÃO RUIM, afinal. Oh, meldels, que vida horrível que ela tinha.
E isso _é_ uma deficiência do autor, na minha opinião, e não incidentalmente de quem interpreta a história: não estou argumentando que pessoas realmente miseráveis e desafortunadas se sentiriam ofendidos com essa história, mas que _nós mesmos_ não conseguimos engolir os conceitos que _o autor_ nos empurra. E sabemos que ele faz isso porque não os questiona - evidência 1: ele nos apresenta os pais de Margo e, através dos comentários dos outros personagens, nos quer fazer crer que eles são horríveis - mas você se pega negando o que eles dizem, comentado para si mesmo ""na verdade... Não, não é bem assim"". 2: Quentin, que deveria ser em parte nós mesmos, já que compartilhamos a jornada da dúvida e da busca, não questiona a motivação dela. Quando ela fala que ""tinha que fugir daquilo tudo, daquela vida"", blablabla Quentin nunca levanta a sobrancelha e diz ""do que vc tá falando, guria? Que vida? Vc se prostituía, por acaso? Não bastava começar a andar com os nerds ao invés de tentar buscar profundidade e amizade entre ricaços preocupados com a fama e o poder?""; não, ele simplesmente balança a cabeça, o que equivale a dizer ""é, te entendo, é claro que você tem razão"".
Talvez o que Green queira é que vejamos Margo como uma menina profunda, marcada pelo desajuste, por uma vontade de uma vida maior que ela, e que, ao ser sugada por um ciclo de futilidade, tem que fugir para se libertar dele. Um espírito livre ao mesmo tempo danificado e sábio. Mas o que sobra é uma menina que não tinha coragem para sair da patota que lhe dava status (como alguém consciente do e contrário ao racismo subjacente ao grupo dominante do qual é líder, mas que se recusa a combatê-lo em nome de sua posição), dando origem a mais uma história americana sobre a beleza da individualidade indômita que não tem mais nada na cabeça a não ser condenar o futuro por lhe apertar um pouco - os outros que se fodam. É quase uma Ayn Rand. Green talvez imagine uma líder punk infiltrada, qual espiã, entre as lideranças do status quo, mas com um segredo sombrio sobre como se sente por dentro. O que vemos é... Sei lá, uma mimada egocêntrica? Alguém que, de tanto tempo infiltrada, se tornou indistinguível das lideranças do status quo e nem sabe mais tocar guitarra bem o bastante pra uma música punk (o que quer dizer que não sabe tocar nada)? O mais importante é que _não_ vemos o que Green vê. Se pudéssemos fazê-lo, a história ficaria de pé. Desmantelada a figura que justificaria tudo, sobra só formato (mesmo que um bom formato) de conteúdo esquisito.
Mas, enfim, pela fragilidade da premissa na minha opinião - uma premissa de papel - dei uma estrela a menos. As outras quatro são porque o resto do livro é bom - em especial se você esquecer da Margo e ler tudo isso como um processo importante pro Quentin. A jornada é legal de ser viajada nesse livro, não importa o destino final ou como ele realinha a jornada. Certas características não se perdem, e as lembranças que vão ficar da leitura certamente são boas.