

Por um lado, a narrativa é envolvente, bem escrita, bem arquitetada. Por outro, isso se aplica mais aos capítulos I e II que ao III, que achei mais confuso e estranho.
Ainda por um lado, os editores do livro (com seus materiais suplementares) querem me fazer crer que Conrad denunciava, com este livro, o colonialismo. Pode ser. Mas não foi bem isso que senti durante a leitura.
Uma das formas de atacar o colonialismo é dar protagonismo às figuras subalternizadas, pois anulá-las social e politicamente é justamente o que a dominação faz. Conrad, pelo contrário, mantém-nas às margens, caracteriza-as como selvagens e brutas, etc., de um jeito que poderia ser ""tecnicamente"" verdadeiro em contexto (p. ex. povos que desconheciam o barco a vapor ter medo do apito) mas, ao mesmo tempo, me parece bastante reducionista.
Porém, que os protagonistas o façam (é um livro em primeira pessoa, afinal) pode ser em si uma denúncia, uma forma de caracterizar o pensamento colonialista. Acho sim que uma obra de arte se prejudica, em termos de envolvimento e impacto, se for óbvia demais em sua ""mensagem"" - se ""forçar a barra"" com o que quer dizer. Não digo nem porque ela deve entreter; ela prejudica a própria mensagem ao fazê-lo. Só que, poxa, se eu tenho que fazer um esforço enorme pra ler uma mensagem antirracista / anticolonial na obra, sei lá, eu acho que a mensagem está mais na minha cabeça que na do autor.
Uma das coisas que mais me irrita, e se mistura à confusão narrativa que senti na terceira parte, é como o protagonista lida com a figura de Kurtz. Eu tinha ""embarcado"" (hehe) na proposta de torná-lo essa figura mítica que o personagem vinha a admirar ou ter uma curiosidade extrema sobre, ainda mais em conjunção com toda a atmosfera de ameaça tão bem construída nas primeiras partes. Mas aí Kurtz chega de um jeito muito estranho, age de um jeito muito esquisito... Não entendi metade do que estava acontecendo ali, em termos factuais mesmo; tem-se uma série de alusões e meias adivinhações, e uma hora o protagonista quer bater no Kurtz e em outra hora repete como ele era um ""homem notável"". Eu achava que - especialmente se a obra é lida nessa luz anticolonial - a figura de Kurtz seria construída pra depois ser destruída; o protagonista iria se decepcionar com ele, etc. Por exemplo, toda a ideia de que os ingleses estariam levando a iluminação aos brutos africanos seria subvertida de alguma forma. Há que haver algum momento de reconhecimento disso. Mas não. Até o final Kurtz ainda é amado, respeitado, idolatrado, o protagonista é ""leal"" a ele (???????? tipo, por quê???? ????). A frase famosa (""O horror, o horror"") parece engrandecê-lo em vez de ensinar algo sobre a experiência colonial. O coração das trevas não é o colonialismo (embora no começo parece que é disso que ele está falando quando fala do espírito maligno que é preguiçoso), parece no máximo a ganância individual de Kurtz, e isso nem é muito explorado... No material suplementar, Kurtz parece renegar o colonialismo quando pede pra fechar a cortina do barco porque não suporta mais olhar para fora. Acho que esse é outro exemplo de leitura generosa.
Aliás, achei que toda a questão dos povos locais adorarem-no como um deus seria mais explorada. Não vi nada disso se desenrolar, parece que o conhecemos, ele faz umas coisas lá que não dá pra entender direito, depois uma hora engatinha até a mata, e esse tempo todo está doente, já está morrendo... O gerente está puto com ele não se sabe muito bem por quê, ou quais eram suas ambições, ou quais o gerenge _achava_ que eram suas ambições... Olha, caramba, uma bagunça.
Full disclosure, eu já vi Apocalypse Now, e sabia que era uma adaptação deste livro (com muita licença poética, claro). Isso pode ter influenciado também minhas expectativas.
De qualquer forma, deixo aqui algumas das minhas partes favoritas, características da boa literatura que o livro representa, tirando tudo de ruim que descrevi acima:
""Eles não eram colonizadores; seu governo era pura extorsão e mais nada, eu suspeito. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta - nada de que se gabar quando se tem, já que a força é apenas um acidente que resulta da fraqueza de outros."" p. 14 [Note-se que aqui ele já caracteriza, ainda que comparativamente apenas, a colonização como algo bom. E ele está falando como narrador pós-acontecimentos, então, oras - que ""denúncia"" é essa?]
""é impossível transmitir a sensação viva de qualquer época determinada de nossa existência - aquela que constitui a sua verdade, o seu significado, a sua essência sutil e contundente. É impossível. Vivemos, como sonhamos - sozinhos..."" p. 49
""Não gosto de trabalho - ninguém gosta -, mas gosto do que existe no trabalho - a chance de a pessoa se encontrar."" p. 51
""Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por cima, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário."" p. 122
Por um lado, a narrativa é envolvente, bem escrita, bem arquitetada. Por outro, isso se aplica mais aos capítulos I e II que ao III, que achei mais confuso e estranho.
Ainda por um lado, os editores do livro (com seus materiais suplementares) querem me fazer crer que Conrad denunciava, com este livro, o colonialismo. Pode ser. Mas não foi bem isso que senti durante a leitura.
Uma das formas de atacar o colonialismo é dar protagonismo às figuras subalternizadas, pois anulá-las social e politicamente é justamente o que a dominação faz. Conrad, pelo contrário, mantém-nas às margens, caracteriza-as como selvagens e brutas, etc., de um jeito que poderia ser ""tecnicamente"" verdadeiro em contexto (p. ex. povos que desconheciam o barco a vapor ter medo do apito) mas, ao mesmo tempo, me parece bastante reducionista.
Porém, que os protagonistas o façam (é um livro em primeira pessoa, afinal) pode ser em si uma denúncia, uma forma de caracterizar o pensamento colonialista. Acho sim que uma obra de arte se prejudica, em termos de envolvimento e impacto, se for óbvia demais em sua ""mensagem"" - se ""forçar a barra"" com o que quer dizer. Não digo nem porque ela deve entreter; ela prejudica a própria mensagem ao fazê-lo. Só que, poxa, se eu tenho que fazer um esforço enorme pra ler uma mensagem antirracista / anticolonial na obra, sei lá, eu acho que a mensagem está mais na minha cabeça que na do autor.
Uma das coisas que mais me irrita, e se mistura à confusão narrativa que senti na terceira parte, é como o protagonista lida com a figura de Kurtz. Eu tinha ""embarcado"" (hehe) na proposta de torná-lo essa figura mítica que o personagem vinha a admirar ou ter uma curiosidade extrema sobre, ainda mais em conjunção com toda a atmosfera de ameaça tão bem construída nas primeiras partes. Mas aí Kurtz chega de um jeito muito estranho, age de um jeito muito esquisito... Não entendi metade do que estava acontecendo ali, em termos factuais mesmo; tem-se uma série de alusões e meias adivinhações, e uma hora o protagonista quer bater no Kurtz e em outra hora repete como ele era um ""homem notável"". Eu achava que - especialmente se a obra é lida nessa luz anticolonial - a figura de Kurtz seria construída pra depois ser destruída; o protagonista iria se decepcionar com ele, etc. Por exemplo, toda a ideia de que os ingleses estariam levando a iluminação aos brutos africanos seria subvertida de alguma forma. Há que haver algum momento de reconhecimento disso. Mas não. Até o final Kurtz ainda é amado, respeitado, idolatrado, o protagonista é ""leal"" a ele (???????? tipo, por quê???? ????). A frase famosa (""O horror, o horror"") parece engrandecê-lo em vez de ensinar algo sobre a experiência colonial. O coração das trevas não é o colonialismo (embora no começo parece que é disso que ele está falando quando fala do espírito maligno que é preguiçoso), parece no máximo a ganância individual de Kurtz, e isso nem é muito explorado... No material suplementar, Kurtz parece renegar o colonialismo quando pede pra fechar a cortina do barco porque não suporta mais olhar para fora. Acho que esse é outro exemplo de leitura generosa.
Aliás, achei que toda a questão dos povos locais adorarem-no como um deus seria mais explorada. Não vi nada disso se desenrolar, parece que o conhecemos, ele faz umas coisas lá que não dá pra entender direito, depois uma hora engatinha até a mata, e esse tempo todo está doente, já está morrendo... O gerente está puto com ele não se sabe muito bem por quê, ou quais eram suas ambições, ou quais o gerenge _achava_ que eram suas ambições... Olha, caramba, uma bagunça.
Full disclosure, eu já vi Apocalypse Now, e sabia que era uma adaptação deste livro (com muita licença poética, claro). Isso pode ter influenciado também minhas expectativas.
De qualquer forma, deixo aqui algumas das minhas partes favoritas, características da boa literatura que o livro representa, tirando tudo de ruim que descrevi acima:
""Eles não eram colonizadores; seu governo era pura extorsão e mais nada, eu suspeito. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta - nada de que se gabar quando se tem, já que a força é apenas um acidente que resulta da fraqueza de outros."" p. 14 [Note-se que aqui ele já caracteriza, ainda que comparativamente apenas, a colonização como algo bom. E ele está falando como narrador pós-acontecimentos, então, oras - que ""denúncia"" é essa?]
""é impossível transmitir a sensação viva de qualquer época determinada de nossa existência - aquela que constitui a sua verdade, o seu significado, a sua essência sutil e contundente. É impossível. Vivemos, como sonhamos - sozinhos..."" p. 49
""Não gosto de trabalho - ninguém gosta -, mas gosto do que existe no trabalho - a chance de a pessoa se encontrar."" p. 51
""Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por cima, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário."" p. 122