

Esse livro é maravilhoso. Alguns comentários:
É preciso ter em mente uma dupla escolha que foi feita em termos de marketing, na minha opinião: uma delas foi boa, outra foi “neutra”. A neutra é que a história não tem nada a ver com a perda de identidade no mundo moderno ou coisa parecida – pelo menos nenhum elemento me fez pensar nesse paralelo simbólico, e olha que ao longo do texto fiquei esperando que algum aparecesse. A boa é que não se disse o que a história realmente quase é, isto é, uma tragédia. Está certo que ela não termina tão mal quanto uma, mas o jeito como o autor constrói termos como o destino e o senso comum é fenomenal – na verdade toda a ideia do senso comum como um personagem não só é uma infusão de um humor ranzinza incrível como, ao meu ver, torna essa história algo muito semelhante a uma tragédia: a tragédia se compõe justamente das decisões ruins do herói que o levam a essa ruína. E, como a história faz pensar (e indicar), essas decisões em grande parte são justamente um contrariar o senso comum.
O final é excelente. Todas as coisas que acontecem nele.
A meta-linguagem é muito, muito, muito bem executada.
Eu lembrava que ler Saramago era cansativo, mas não tenho muita noção se esse é pior ou melhor nesse sentido que ‘Cegueira’ ou Intermitências da Morte. Talvez os parágrafos pareçam ainda mais avassaladores porque se trata de uma versão de bolso a minha, mas ainda acho o estilo dele fantástico – ainda que entenda quem possa se afastar dele.
Inclusive, se há uma coisa negativa que posso ter percebido, é como o estilo de diálogo dele favorece que cada diálogo se torne quase um ensaio para uma peça de teatro. Não tem muita fluidez, movimento – sim, na fala sim, e quantas conversas fantásticas ele nos dá; mas parece que elas são entregues enquanto os personagens ficam parados, com caras de tacho, as bocas servindo de alto-falantes passivos. Fica uma coisa meio estática, mas acho que teria dado muito errado se a linguagem, que nesse caso vira a estrela do show, não fosse tão bem talhada e trabalhada. Nenhuma analogia parece forçada, nenhuma poesia, brega; o narrador, nunca identificado, tem uma voz bacana e a história é cheia de insights. Ah, e os diálogos, esses que se fez com coisas boas, também são traçados como bem naturais em suas pausas e desvios, fluxos e refluxos.
É curioso como o palavrão é tratado às vezes, na literatura em geral, como uma questão de estar por todo o lugar ou não estar em lugar nenhum. Isso porque se ele não aparece com frequência, quando aparece pode confundir o leitor e parecer fora de lugar, já que a narrativa nunca indicou que era esse tipo de história. Mas aqui funciona porque, mesmo que por centenas de páginas ele não tenha aparecido (até que o tenha feito), há um certo tom ranzinza no narrador e uma certa névoa de tensão nos personagens que não nos faz desgostar quando eles aparecem. E, por terem sido raros, quando aparecem, tem muito impacto. Demonstram descontrole do personagem, raiva, energia narrativa.
Absolutamente recomendado!
Esse livro é maravilhoso. Alguns comentários:
É preciso ter em mente uma dupla escolha que foi feita em termos de marketing, na minha opinião: uma delas foi boa, outra foi “neutra”. A neutra é que a história não tem nada a ver com a perda de identidade no mundo moderno ou coisa parecida – pelo menos nenhum elemento me fez pensar nesse paralelo simbólico, e olha que ao longo do texto fiquei esperando que algum aparecesse. A boa é que não se disse o que a história realmente quase é, isto é, uma tragédia. Está certo que ela não termina tão mal quanto uma, mas o jeito como o autor constrói termos como o destino e o senso comum é fenomenal – na verdade toda a ideia do senso comum como um personagem não só é uma infusão de um humor ranzinza incrível como, ao meu ver, torna essa história algo muito semelhante a uma tragédia: a tragédia se compõe justamente das decisões ruins do herói que o levam a essa ruína. E, como a história faz pensar (e indicar), essas decisões em grande parte são justamente um contrariar o senso comum.
O final é excelente. Todas as coisas que acontecem nele.
A meta-linguagem é muito, muito, muito bem executada.
Eu lembrava que ler Saramago era cansativo, mas não tenho muita noção se esse é pior ou melhor nesse sentido que ‘Cegueira’ ou Intermitências da Morte. Talvez os parágrafos pareçam ainda mais avassaladores porque se trata de uma versão de bolso a minha, mas ainda acho o estilo dele fantástico – ainda que entenda quem possa se afastar dele.
Inclusive, se há uma coisa negativa que posso ter percebido, é como o estilo de diálogo dele favorece que cada diálogo se torne quase um ensaio para uma peça de teatro. Não tem muita fluidez, movimento – sim, na fala sim, e quantas conversas fantásticas ele nos dá; mas parece que elas são entregues enquanto os personagens ficam parados, com caras de tacho, as bocas servindo de alto-falantes passivos. Fica uma coisa meio estática, mas acho que teria dado muito errado se a linguagem, que nesse caso vira a estrela do show, não fosse tão bem talhada e trabalhada. Nenhuma analogia parece forçada, nenhuma poesia, brega; o narrador, nunca identificado, tem uma voz bacana e a história é cheia de insights. Ah, e os diálogos, esses que se fez com coisas boas, também são traçados como bem naturais em suas pausas e desvios, fluxos e refluxos.
É curioso como o palavrão é tratado às vezes, na literatura em geral, como uma questão de estar por todo o lugar ou não estar em lugar nenhum. Isso porque se ele não aparece com frequência, quando aparece pode confundir o leitor e parecer fora de lugar, já que a narrativa nunca indicou que era esse tipo de história. Mas aqui funciona porque, mesmo que por centenas de páginas ele não tenha aparecido (até que o tenha feito), há um certo tom ranzinza no narrador e uma certa névoa de tensão nos personagens que não nos faz desgostar quando eles aparecem. E, por terem sido raros, quando aparecem, tem muito impacto. Demonstram descontrole do personagem, raiva, energia narrativa.
Absolutamente recomendado!

Tudo que ficou meio estranho ou arrastado no primeiro livro foi superado, e os pontos fortes do autor foram bem explorados (como as partes de ação); esse livro é eficiente, tem um enredo dinâmico, criativo, comovente e inteligente. A premissa é meio boba? Sim, claro que é, assim como a de Superman; mas o livro é tão bem escrito que a suspensão de descrença funciona a todo vapor, o que supera qualquer problema inicial nesse sentido. Há alguns diálogos meio bregas / cheesy ? Sim, mas acho que se encaixa no que nos foi apresentado dos personagens (e algumas coisas são da natureza das traduções mesmo). Por causa dessas duas coisas, se o Skoob me permitisse eu daria 4.5; tendo que decidir entre os extremos, contudo, o 5 é mais que válido. O recurso às diferentes fontes foi muito bom. O ritmo é muito bem orquestrado. Alguns pontos específicos da história são incrivelmente bem executados - a sequência do FBI, a aparição do número 9, a história de Ella, a reviravolta quanto a Crayton... Aliás, Héctor é um personagem muuuuuito bom. Há muito que não vejo tanto ser feito a partir de tão pouco. Achei que o arco da Adelina não foi aquela maravilha, e o romance também não me deixou muito animado, mas nenhuma dessas coisas foi menos que boa. Em suma: a série melhorou, o livro quase funciona bem sozinho (eu não lembro de muita coisa do primeiro volume e, bem, não fez muita diferença) e não importa que esse livro obviamente não mereça o nobel ou coisa parecida: ele tinha uma proposta clara - aventura a ação leve no gênero fantasia / sci-fi - e a cumpriu com maestria.
Tudo que ficou meio estranho ou arrastado no primeiro livro foi superado, e os pontos fortes do autor foram bem explorados (como as partes de ação); esse livro é eficiente, tem um enredo dinâmico, criativo, comovente e inteligente. A premissa é meio boba? Sim, claro que é, assim como a de Superman; mas o livro é tão bem escrito que a suspensão de descrença funciona a todo vapor, o que supera qualquer problema inicial nesse sentido. Há alguns diálogos meio bregas / cheesy ? Sim, mas acho que se encaixa no que nos foi apresentado dos personagens (e algumas coisas são da natureza das traduções mesmo). Por causa dessas duas coisas, se o Skoob me permitisse eu daria 4.5; tendo que decidir entre os extremos, contudo, o 5 é mais que válido. O recurso às diferentes fontes foi muito bom. O ritmo é muito bem orquestrado. Alguns pontos específicos da história são incrivelmente bem executados - a sequência do FBI, a aparição do número 9, a história de Ella, a reviravolta quanto a Crayton... Aliás, Héctor é um personagem muuuuuito bom. Há muito que não vejo tanto ser feito a partir de tão pouco. Achei que o arco da Adelina não foi aquela maravilha, e o romance também não me deixou muito animado, mas nenhuma dessas coisas foi menos que boa. Em suma: a série melhorou, o livro quase funciona bem sozinho (eu não lembro de muita coisa do primeiro volume e, bem, não fez muita diferença) e não importa que esse livro obviamente não mereça o nobel ou coisa parecida: ele tinha uma proposta clara - aventura a ação leve no gênero fantasia / sci-fi - e a cumpriu com maestria.

Como esse livro pode ter conseguido tantos prêmios literários?
Bem, talvez porque a mensagem que o livro passa é boa. As mensagens, porque há várias contidas nisto que é essencialmente uma fábula. Aceite os desafios da vida, seja feliz com as pequenas coisas, faça o bem sem ver a quem – mas, principalmente, “se você é um merda, pode superar essa condição e se tornar alguém”. Essa é uma parte bacana do livro, mas é uma parte. A mensagem não é responsável pelo valor literário de uma obra; como amante da literatura, julgo um livro pela forma como as letras são usadas para passar a mensagem! Ela, a vibe positiva, não pode ser usada como desculpa para o final horroroso que esse livro tem, além da série de problemas narrativos e estilísticos que fazem dessa história uma gigantesca decepção.
Não é nada contra Zusak (afinal, A Menina que Roubava Livros é incrível). É que a mensagem aqui carrega tanto peso, canibaliza tanto a história, que esse livro seria melhor avaliado como auto-ajuda. Mas não é; é ficção, e para uma ficção só a droga da mensagem não basta!
Descompasso
Em se tratando de construir um personagem, ou você tem um proletário desiludido ou tem um poeta desiludido.
Ed Kennedy é uma pessoa simples e sem ambições. Não se importa nem com o próprio trabalho, nem com valores burgueses como ter uma casa limpa ou impressionar os vizinhos – é basicamente um cara do povo, só que meio deprê e sem esperança.
Mas isso não casa com a voz interior dele, que é o narrador do livro. Há um descompasso gritante entre quem ele é e o jeito como ele pensa. Um “tipo proletário” pode ser poeta por dentro, mas a poesia dele não vai ser a de Camões, e sim algo como Racionais MCs ou Emicida – a depender de vários fatores (eu estou discutindo estereótipos aqui, afinal) vai ser provavelmente mais rasgada, cínica, irônica, seca. Por exemplo:
Pego a faca do chão e a seguro firme.
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela. Se desse, eu cortaria o mundo em duas fatias e subiria em uma delas. (p. 263)
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela? Quem PENSA assim? Quem tem ESSE fluxo de ideias?
E tudo bem ser bobo se você é um poeta desiludido, mas esse simplesmente não é o personagem que nos foi apresentado!
O cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim, mas eu não deixo, e vou andando. Toda vez que me dá um arrepio nos braços e nas pernas, eu aperto o passo, sem saber se Audrey está precisando de mim, ou talvez Ritchie ou Marv… Cara, tenho que correr.
O medo é a rua.
O medo é cada passo. (p. 258)
O medo é a rua… Pelo amor. Esse é o problema quando você quer escrever em primeira pessoa mas não está disposto a realmente entrar na cabeça do personagem (Liberdade é um bom exemplo de como fazer isso bem, mesmo que o estilo não mude tão radicalmente de um ator para outro). Você, como escritor, quer fazer suas metáforas, comparações, jogos linguísticos bonitos e imagéticos. E nós, seres humanos, fazemos isso de vez em quando. Mas não todos do mesmo jeito! Isso aí não é o Kennedy pensando, é o Zusak usando a boca do Ed Kennedy. O real Kennedy, como muitos de nós ficaríamos se estivéssemos correndo, na rua, à noite, com medo de não chegar a tempo para alguma coisa, não ficaria pensando “ah, o medo é a rua. Oh, cada passo que eu dou é medo, oh, oh”. Não, metade do tempo seria gasto inutilmente com “putaqueopariuputaqueopariuputaqueopariu” e na outra metade nosso cérebro, muito à revelia do que um eu racional quereria, ficaria imaginando em loop os piores cenários possíveis.
Uma prova de que se trata do escritor simplesmente dando um jeito de escrever algo que ele achou fofo só porque ele quer, e não porque faz sentido e casa com o personagem, é que não é só o Kennedy quem faz isso. Marv, um trabalhador de construção civil casca grossa e orgulhoso, quando tem uma confissão emocional a fazer, diz:
É este o meu estado às três da manhã, Ed. Todo dia. Vejo aquela garota – aquela garota pobrezinha e espetacular. Às vezes eu vou ao milharal e caio de joelhos. Ouço meu coração batendo, mas eu não quero. Odeio as batidas do meu coração. São muita altas naquele campo. Elas caem. Direto de mim. Mas então voltam, igualzinho como eram. (p. 281)
Repare que até a parte destacada a frase vai bem. Depois é que Zusak não se aguenta e tem que colocar a parte bonitinha que Marv jamais diria. Isso não é só ruim pela sensação esquisita que dá; trata-se de uma oportunidade roubada do personagem dizer a mesma coisa, mas à sua própria maneira – o que nos permitiria ficar mais à vontade com ele; faria com que ele se tornasse mais tridimensional para nós.
É verdade que o livro todo não é assim. Não é como se eu pudesse simplesmente abrir uma página aleatória e encontrar uma parte vergonhosa dessas, e há frases boas, em que o jeito de cada personagem marca bem a interação entre eles. Muito do embaraço pode se dever à tradução (“poor spectacular girl”, eu presumo, é bem melhor que “aquela garota pobrezinha e espetacular”, combinação de palavras que 99,99% dos falantes da língua portuguesa vão passar a vida sem jamais pronunciar ou escrever), mas não descontaria muita culpa por causa disso… A verdade é que se isso vai ficando mais irritante à medida que você conhece Ed (porque o descompasso fica mais evidente), a narrativa tem uma série de outros problemas maiores.
Um desperdício de suspense, uma abundância de narração
Esse livro é uma comédia ou um suspense? É acima de tudo auto-ajuda, é claro, mas você pode fazer uma “suspédia” ou um “comense” sem problemas; o duro é quando a comédia envenena o suspense.
A premissa do livro é interessante e desafia o leitor: quem está mandando essas cartas misteriosas? Isso é fantástico. Zusak quer o suspense, quer o drama. Ele quer que o leitor se sinta com medo por causa de Ed; quer que sintamos que alguma coisa está em jogo se ele não conseguir o que quer.
Só que aí, quando nosso herói está sendo brutalmente atacado por dois mascarados…
– Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
– E?
– A gente deu uma tortinha pra ele.
– Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
– Assada, Ed! – ele se ofendeu. – Não somos selvagens, tá sabendo? Até que somos bem civilizados. (p. 98)
Oh… OK. Esses são as caras, perceba, que dão uma surra nele como “corretivo” ou coisa parecida.
A próxima vez que eles aparecem proeminentemente é assim:
– Exatamente, Keith, é simplesmente perigoso demais pro Ed chegar a pensar em comer essa torta com molho (…) Vai cair nesta linda camisa branca, e o infeliz ainda vai ter que lavar a desgraçada. E esta é a última coisa de que precisamos agora, concorda? (p. 261; os “bandidos” discutem por que não trouxeram ketchup junto com as tortas que ofereceram a Ed).
Tudo bem você ter comédia no livro. Há várias partes boas nesse sentido. Mas você não precisa pegar todo o seu potencial de suspense, de mistério, de que algo sério está acontecendo, e então transformar numa piada. Tirando dois momentos (de violência, aliás), quase não há a sensação de que alguma coisa importa aqui. A narrativa fica muito mais domesticada.
Todo o resto da narração se arrasta por explicações desnecessárias e comentários expositivos. É o velho “show, don’t tell” levando múltiplos tapas na cara de novo; não são só coisas que simplesmente subtraem do impacto do que está acontecendo – pare de ficar explicando que a sua vida mudou, Ed, que você mudou, e me deixe PERCEBER isso, diabo – mas também que compõem um excesso de “gordura” literária fenomenal.
Leia de novo aquele trecho da página 258 ali em cima – vai lá, eu espero – e me diga: o cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim… Mas eu não deixo. O que demônios quer dizer “eu não deixo”? O que o personagem fez, exatamente? Nada. O personagem não fez nada, essa é uma frase absolutamente vazia e, como tal, tem um efeito absolutamente nulo no leitor – ou quase, porque pode causar chateação pelo fato de ser inútil (como acontece com cada vez que ele sonha e avisa que vai descrever um sonho. Eu pulei todos os trechos de sonhos. Sério, ninguém se importa com o sonho de ninguém na vida real e não é em livros não-sobrenaturais que vão se importar). É poética a frase, é bonita, deveria soar como se o cara fosse corajoso ou algo assim e eu a levaria em consideração para uma narração em terceira pessoa, mas… Não está fazendo nada de bom aqui.
Quando o monstrinho acorda…
Sim, Ed menciona três ou quatro vezes que a vida dele mudou, que ele está diferente, etc. De vez em quando isso é mostrado através dos acontecimentos que compõem a narrativa – e deveria ter parado por aí; já estava ótimo (só que, claro, não parou). Mas, vamos analisar melhor o que aconteceu de verdade nessa narrativa, especialmente com as cartas.
Primeira carta: ele foi fazer companhia a uma velhinha, fez uma adolescente acreditar um pouco mais em si mesma (meh), fez um estuprador sair de cena. Segunda: encheu a igreja de um padre com cerveja de graça, bate num garoto pro irmão mais velho defender o mais novo, compra um sorvete para uma mãe solteira. Terceira: compra luzes de natal novas para uma família mais ou menos pobre, lava roupa suja com a mãe (metaforicamente) e… Vai no cinema costumeiramente vazio de um… Cara qualquer? Quarta: Ajuda o Ritchie a começar a procurar emprego, ajuda o Marv com a filha perdida dele e dança um pouquinho com a Audrey.
Metade dessas coisas não é lá muito transformadora, pra dizer o mínimo. De novo, a mensagem é boa, mas lá pela terceira carta, quando ele fica dizendo “Ai meu Deus, lá vem a quarta carta, o que vai ser de mim, Copas lembra corações e as pessoas sofrem ataques de coração e etc”, você se pega pensando “oh, tadinho, toma cuidado que é capaz de você comprar mais um sorvetinho pra alguém”.
Os riscos a que ele está submetido são extremamente exagerados, especialmente porque o autor desfaz o mistério de algumas das partes de onde ele poderia vir (como quando o cara entra no taxi dele e manda ele seguir em frente, e tal – parece um assalto, mas o autor é incapaz de não transformar mais uma ameaça em caricatura e você já relaxa em dois parágrafos). De vez em quando o Ed leva umas pauladas e a primeira é tão absurda e desnecessária que só agora você pode entender que aquilo era uma exigência da história – para que você pudesse sentir um pouco de pena do Ed, já que é algo que não vem naturalmente.
“Mas e o estuprador?”, você pergunta. É o seguinte: aquela coisinha chamada “suspensão de descrença” é um monstrinho traiçoeiro. Se o livro fosse bem narrado e construído, tudo seria aceito numa boa. Mas quanto mais ele te irrita, mais você começa a pensar: o cara presenciou um estupro, descobriu que ele é regular, e ao invés de ir à polícia, a solução lógica é matar o cara. Sim, a polícia não é gentil com vítimas de estupro, mas ele é uma testemunha ocular que pode ajudar a fazer uma prisão em flagrante. Uma operação dessas é extremamente fácil de conduzir, principalmente naquelas condições.
E a coisa só piora. Você recebe uma carta de baralho com três endereços e… Leva a sério? Imediatamente entende que é uma “missão”, e seus amigos são compreensivos em relação a isso? Você tem a casa invadida, leva uma surra e, pela terceira vez, não vai à polícia denunciar a clara intimidação que está sofrendo? Você vê uma família desestruturada e acha que o problema é só uma briguinha de irmãos – e resolve solucionar o caso sentando o cacete no irmão mais jovem? Que porra é essa, Ed? Se o garoto é um bully proto-fascista revoltado, o irmão maior dele é o menor dos problemas. Você não resolveu caralho nenhum dando bola pra birra de uma criança que fica “ai, vou matar meu irmão, buh buh”.
Isso não faz sentido e, de novo, se o suspense fosse real e a narração menos preguiçosa e desleixada, ninguém nem pensaria nisso. Mas depois de um tempo, você começa a se perguntar que mundo é esse em que Ed vive em que as únicas instituições são uma empresa de rádio-taxi e uma igreja progressista. Por outro lado, o livro teria que ser muito bem escrito para apagar a decepção que foi esse final.
De How I Met Your Mother a Lost
Ok, vamos falar sobre uma coisa: Audrey é a única protagonista feminina. O arco narrativo dela é mais insignificante que o da mulher que ganha o sorvete e menos desenvolvido que o do irmão do padre. Pra você ter noção, caso tenha esquecido, Ed precisa ajudar Ritchie a vencer na vida pela primeira vez. Precisa ajudar Marv a reencontrar uma filha que foi tomada dele por uma família conservadora (de novo: Tribunais. Não. Existem nesse mundo.). Mas a Audrey, ah, o amor da vida dele, essa ele tem que ajudar demais… Fazendo ela aprender a encontrar o amor… Ok, ok, vamos ser justos, mesmo que isso seja um clichê de papeis de gênero ela é uma pessoa fechada e emocionalmente machucada, então… Ainda está valendo – como ele vai fazer ela se abrir para o amor?
Dançando uma música de três minutos com ela no quintal na frente da casa dela logo depois de ela ter transado com o namorado dela (que não é o Ed) e indo embora sem dizer nada e sem que nada mude.
Ele veio do nada, dançou um pouco e ao ir embora imediatamente depois deixou ela se perguntando se ele está precisando de ajuda psiquiátrica. De novo – poético, mas não faz o menor sentido.
Então por que o final é tão decepcionante? Primeiro porque pega essa personagem que, coitada, já é tão mal feita, e a piora. Em uma página, literalmente no epílogo, ela faz algo que não condiz com absolutamente nada que já tenha feito no livro inteiro – apenas para que possa servir de prêmio para o Ed, já que seria inconcebível que um merda que queira provar que é possível se dar bem na vida não tenha uma bela mulher ao seu lado. Não que ele não “mereça” o amor dela ou que ela não possa finalmente admitir o que sente por ele. Mas é súbito. É brusco. O diálogo deles, especialmente o que ela diz, é forçado e não tem nada a ver com a personagem (novidade!). É como Ron terminar Harry Potter com a Romilda, a Hermione com Krum, nenhum livro ter dado indicação de que eles estavam se aproximando e de repente, 17 ou sei lá quantos anos mais tarde… Eles aparecem casados um com o outro. Com filhos. Ou, embora tenha a ver com os personagens porém é brusco, quebra a narrativa e decepciona, o que aconteceu com o final de How I Met Your Mother.
Sinceramente? Eu seria capaz de apostar que a editora simplesmente não gostou que Ed e ela não ficaram juntos. Zusak, sem saco pra reescrever os últimos capítulos, jogou aquelas duas páginas de bosta ali para prometer um ao outro em matrimônio implícito.
E mais ou menos isso, eu ouso suspeitar, é exatamente o que aconteceu com o final inteiro. Zusak, em 2002, basicamente previu o destino da série Lost: uma premissa convoluta que no final não seria satisfeita por nenhuma solução – e a saída é qual? O deus ex machina de que tudo aquilo é uma ficção, Ed é um personagem de um livro (ha!) e quem estava mandando as cartas para ele era o escritor. Nossa, que inteligente.
Sabe o que é inteligente? Foreshadowing. Motivos para você ao menos suspeitar do final do livro. Coisas sutis que façam você reler a obra (ou simplesmente relembrá-la) e pensar “Uau, eu não tinha percebido esse detalhe! Caramba, que genial!”. E isso é extremamente frustrante porque a premissa do livro, como dito acima, é um mistério bom. O mistério invariavelmente convida a conjecturas; você quer ler até o final basicamente para descobrir quem é o puto que está mexendo com a vida dele dessa forma. Minha teoria é a de que era a Audrey – o que seria genial, porque explicaria a razão para ela se manter distante e namorando outro cara (ela estaria fingindo que não sentia nada por ele para que esse fosse o “gran finale”), ela teria um motivo pra fazer isso (como dito no próprio livro… Ela poderia amá-lo e querer que ele fosse uma pessoa melhor) e ainda seria muito bacana porque ela teria planejado até mesmo a parte do cinema (reler esse livro seria fantástico sabendo que ela sabia de tudo).
Mas não.
Esse recurso não é nada original. Uma das mais famosas aplicações recentes dele foi em O Mundo de Sofia, fenômeno mundial lançado em 1991. A diferença é que nele essa premissa é central, e explorada em profundidade; é marcante, é sensível, é coerente com a trama toda. Aqui, nada disso. Aqui é absolutamente broxante.
Esse livro tem partes boas; tem coisas legais, elementos que funcionam. Tudo que se relaciona ao sexo é bem construído, até mesmo a arriscada conexão entre Ed e Sophie. A mensagem é positiva e você fica investido no que vai acontecer, é verdade. Mas não dá pra aceitar algo como “ah, então tanto faz; você ficou doido pra saber o que acontece e isso significa que o livro é bom”. Não, não significa, porque eu também estou doido pra saber como as eleições dos EUA vão terminar, mas se o Trump vencê-las elas ainda serão um desastre.
Se eu tivesse gostado do livro essa postagem seria outra. Minha maior reclamação seria, talvez, uma ponta solta ou um tema pouco explorado (o que é que no passado machucou tanto a Audrey? Não seria bom ver o Ed ganhar confiança também em sua performance sexual?). Faria uma análise sociológica sobre a mensagem do livro – o culto ao sucesso individual e o foco no “indivíduo” como o alvo de toda ação que visa melhorar o mundo – ou quem sabe até sobre a metafísica do sacrifício que se liga, inclusive, à ideia de liberdade de expressão como valor absoluto. Mas fiquei tão pra baixo que já não estou mais nem aí pra “mensagem”.
Esse livro tem uma premissa fantástica e consegue envolver o leitor, mas envolve que nem uma cobra; falha miseravelmente com um estilo inapropriado (que subdesenvolve personagens), uma trama que não se leva a sério, e um final indigno que transforma um suspense fraco numa auto-ajuda barata.
Originally posted at petercast.net.
Como esse livro pode ter conseguido tantos prêmios literários?
Bem, talvez porque a mensagem que o livro passa é boa. As mensagens, porque há várias contidas nisto que é essencialmente uma fábula. Aceite os desafios da vida, seja feliz com as pequenas coisas, faça o bem sem ver a quem – mas, principalmente, “se você é um merda, pode superar essa condição e se tornar alguém”. Essa é uma parte bacana do livro, mas é uma parte. A mensagem não é responsável pelo valor literário de uma obra; como amante da literatura, julgo um livro pela forma como as letras são usadas para passar a mensagem! Ela, a vibe positiva, não pode ser usada como desculpa para o final horroroso que esse livro tem, além da série de problemas narrativos e estilísticos que fazem dessa história uma gigantesca decepção.
Não é nada contra Zusak (afinal, A Menina que Roubava Livros é incrível). É que a mensagem aqui carrega tanto peso, canibaliza tanto a história, que esse livro seria melhor avaliado como auto-ajuda. Mas não é; é ficção, e para uma ficção só a droga da mensagem não basta!
Descompasso
Em se tratando de construir um personagem, ou você tem um proletário desiludido ou tem um poeta desiludido.
Ed Kennedy é uma pessoa simples e sem ambições. Não se importa nem com o próprio trabalho, nem com valores burgueses como ter uma casa limpa ou impressionar os vizinhos – é basicamente um cara do povo, só que meio deprê e sem esperança.
Mas isso não casa com a voz interior dele, que é o narrador do livro. Há um descompasso gritante entre quem ele é e o jeito como ele pensa. Um “tipo proletário” pode ser poeta por dentro, mas a poesia dele não vai ser a de Camões, e sim algo como Racionais MCs ou Emicida – a depender de vários fatores (eu estou discutindo estereótipos aqui, afinal) vai ser provavelmente mais rasgada, cínica, irônica, seca. Por exemplo:
Pego a faca do chão e a seguro firme.
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela. Se desse, eu cortaria o mundo em duas fatias e subiria em uma delas. (p. 263)
Pena que não dá pra abrir o mundo todo com ela? Quem PENSA assim? Quem tem ESSE fluxo de ideias?
E tudo bem ser bobo se você é um poeta desiludido, mas esse simplesmente não é o personagem que nos foi apresentado!
O cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim, mas eu não deixo, e vou andando. Toda vez que me dá um arrepio nos braços e nas pernas, eu aperto o passo, sem saber se Audrey está precisando de mim, ou talvez Ritchie ou Marv… Cara, tenho que correr.
O medo é a rua.
O medo é cada passo. (p. 258)
O medo é a rua… Pelo amor. Esse é o problema quando você quer escrever em primeira pessoa mas não está disposto a realmente entrar na cabeça do personagem (Liberdade é um bom exemplo de como fazer isso bem, mesmo que o estilo não mude tão radicalmente de um ator para outro). Você, como escritor, quer fazer suas metáforas, comparações, jogos linguísticos bonitos e imagéticos. E nós, seres humanos, fazemos isso de vez em quando. Mas não todos do mesmo jeito! Isso aí não é o Kennedy pensando, é o Zusak usando a boca do Ed Kennedy. O real Kennedy, como muitos de nós ficaríamos se estivéssemos correndo, na rua, à noite, com medo de não chegar a tempo para alguma coisa, não ficaria pensando “ah, o medo é a rua. Oh, cada passo que eu dou é medo, oh, oh”. Não, metade do tempo seria gasto inutilmente com “putaqueopariuputaqueopariuputaqueopariu” e na outra metade nosso cérebro, muito à revelia do que um eu racional quereria, ficaria imaginando em loop os piores cenários possíveis.
Uma prova de que se trata do escritor simplesmente dando um jeito de escrever algo que ele achou fofo só porque ele quer, e não porque faz sentido e casa com o personagem, é que não é só o Kennedy quem faz isso. Marv, um trabalhador de construção civil casca grossa e orgulhoso, quando tem uma confissão emocional a fazer, diz:
É este o meu estado às três da manhã, Ed. Todo dia. Vejo aquela garota – aquela garota pobrezinha e espetacular. Às vezes eu vou ao milharal e caio de joelhos. Ouço meu coração batendo, mas eu não quero. Odeio as batidas do meu coração. São muita altas naquele campo. Elas caem. Direto de mim. Mas então voltam, igualzinho como eram. (p. 281)
Repare que até a parte destacada a frase vai bem. Depois é que Zusak não se aguenta e tem que colocar a parte bonitinha que Marv jamais diria. Isso não é só ruim pela sensação esquisita que dá; trata-se de uma oportunidade roubada do personagem dizer a mesma coisa, mas à sua própria maneira – o que nos permitiria ficar mais à vontade com ele; faria com que ele se tornasse mais tridimensional para nós.
É verdade que o livro todo não é assim. Não é como se eu pudesse simplesmente abrir uma página aleatória e encontrar uma parte vergonhosa dessas, e há frases boas, em que o jeito de cada personagem marca bem a interação entre eles. Muito do embaraço pode se dever à tradução (“poor spectacular girl”, eu presumo, é bem melhor que “aquela garota pobrezinha e espetacular”, combinação de palavras que 99,99% dos falantes da língua portuguesa vão passar a vida sem jamais pronunciar ou escrever), mas não descontaria muita culpa por causa disso… A verdade é que se isso vai ficando mais irritante à medida que você conhece Ed (porque o descompasso fica mais evidente), a narrativa tem uma série de outros problemas maiores.
Um desperdício de suspense, uma abundância de narração
Esse livro é uma comédia ou um suspense? É acima de tudo auto-ajuda, é claro, mas você pode fazer uma “suspédia” ou um “comense” sem problemas; o duro é quando a comédia envenena o suspense.
A premissa do livro é interessante e desafia o leitor: quem está mandando essas cartas misteriosas? Isso é fantástico. Zusak quer o suspense, quer o drama. Ele quer que o leitor se sinta com medo por causa de Ed; quer que sintamos que alguma coisa está em jogo se ele não conseguir o que quer.
Só que aí, quando nosso herói está sendo brutalmente atacado por dois mascarados…
– Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
– E?
– A gente deu uma tortinha pra ele.
– Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
– Assada, Ed! – ele se ofendeu. – Não somos selvagens, tá sabendo? Até que somos bem civilizados. (p. 98)
Oh… OK. Esses são as caras, perceba, que dão uma surra nele como “corretivo” ou coisa parecida.
A próxima vez que eles aparecem proeminentemente é assim:
– Exatamente, Keith, é simplesmente perigoso demais pro Ed chegar a pensar em comer essa torta com molho (…) Vai cair nesta linda camisa branca, e o infeliz ainda vai ter que lavar a desgraçada. E esta é a última coisa de que precisamos agora, concorda? (p. 261; os “bandidos” discutem por que não trouxeram ketchup junto com as tortas que ofereceram a Ed).
Tudo bem você ter comédia no livro. Há várias partes boas nesse sentido. Mas você não precisa pegar todo o seu potencial de suspense, de mistério, de que algo sério está acontecendo, e então transformar numa piada. Tirando dois momentos (de violência, aliás), quase não há a sensação de que alguma coisa importa aqui. A narrativa fica muito mais domesticada.
Todo o resto da narração se arrasta por explicações desnecessárias e comentários expositivos. É o velho “show, don’t tell” levando múltiplos tapas na cara de novo; não são só coisas que simplesmente subtraem do impacto do que está acontecendo – pare de ficar explicando que a sua vida mudou, Ed, que você mudou, e me deixe PERCEBER isso, diabo – mas também que compõem um excesso de “gordura” literária fenomenal.
Leia de novo aquele trecho da página 258 ali em cima – vai lá, eu espero – e me diga: o cheiro da rua faz de tudo pra colocar as mãos em mim… Mas eu não deixo. O que demônios quer dizer “eu não deixo”? O que o personagem fez, exatamente? Nada. O personagem não fez nada, essa é uma frase absolutamente vazia e, como tal, tem um efeito absolutamente nulo no leitor – ou quase, porque pode causar chateação pelo fato de ser inútil (como acontece com cada vez que ele sonha e avisa que vai descrever um sonho. Eu pulei todos os trechos de sonhos. Sério, ninguém se importa com o sonho de ninguém na vida real e não é em livros não-sobrenaturais que vão se importar). É poética a frase, é bonita, deveria soar como se o cara fosse corajoso ou algo assim e eu a levaria em consideração para uma narração em terceira pessoa, mas… Não está fazendo nada de bom aqui.
Quando o monstrinho acorda…
Sim, Ed menciona três ou quatro vezes que a vida dele mudou, que ele está diferente, etc. De vez em quando isso é mostrado através dos acontecimentos que compõem a narrativa – e deveria ter parado por aí; já estava ótimo (só que, claro, não parou). Mas, vamos analisar melhor o que aconteceu de verdade nessa narrativa, especialmente com as cartas.
Primeira carta: ele foi fazer companhia a uma velhinha, fez uma adolescente acreditar um pouco mais em si mesma (meh), fez um estuprador sair de cena. Segunda: encheu a igreja de um padre com cerveja de graça, bate num garoto pro irmão mais velho defender o mais novo, compra um sorvete para uma mãe solteira. Terceira: compra luzes de natal novas para uma família mais ou menos pobre, lava roupa suja com a mãe (metaforicamente) e… Vai no cinema costumeiramente vazio de um… Cara qualquer? Quarta: Ajuda o Ritchie a começar a procurar emprego, ajuda o Marv com a filha perdida dele e dança um pouquinho com a Audrey.
Metade dessas coisas não é lá muito transformadora, pra dizer o mínimo. De novo, a mensagem é boa, mas lá pela terceira carta, quando ele fica dizendo “Ai meu Deus, lá vem a quarta carta, o que vai ser de mim, Copas lembra corações e as pessoas sofrem ataques de coração e etc”, você se pega pensando “oh, tadinho, toma cuidado que é capaz de você comprar mais um sorvetinho pra alguém”.
Os riscos a que ele está submetido são extremamente exagerados, especialmente porque o autor desfaz o mistério de algumas das partes de onde ele poderia vir (como quando o cara entra no taxi dele e manda ele seguir em frente, e tal – parece um assalto, mas o autor é incapaz de não transformar mais uma ameaça em caricatura e você já relaxa em dois parágrafos). De vez em quando o Ed leva umas pauladas e a primeira é tão absurda e desnecessária que só agora você pode entender que aquilo era uma exigência da história – para que você pudesse sentir um pouco de pena do Ed, já que é algo que não vem naturalmente.
“Mas e o estuprador?”, você pergunta. É o seguinte: aquela coisinha chamada “suspensão de descrença” é um monstrinho traiçoeiro. Se o livro fosse bem narrado e construído, tudo seria aceito numa boa. Mas quanto mais ele te irrita, mais você começa a pensar: o cara presenciou um estupro, descobriu que ele é regular, e ao invés de ir à polícia, a solução lógica é matar o cara. Sim, a polícia não é gentil com vítimas de estupro, mas ele é uma testemunha ocular que pode ajudar a fazer uma prisão em flagrante. Uma operação dessas é extremamente fácil de conduzir, principalmente naquelas condições.
E a coisa só piora. Você recebe uma carta de baralho com três endereços e… Leva a sério? Imediatamente entende que é uma “missão”, e seus amigos são compreensivos em relação a isso? Você tem a casa invadida, leva uma surra e, pela terceira vez, não vai à polícia denunciar a clara intimidação que está sofrendo? Você vê uma família desestruturada e acha que o problema é só uma briguinha de irmãos – e resolve solucionar o caso sentando o cacete no irmão mais jovem? Que porra é essa, Ed? Se o garoto é um bully proto-fascista revoltado, o irmão maior dele é o menor dos problemas. Você não resolveu caralho nenhum dando bola pra birra de uma criança que fica “ai, vou matar meu irmão, buh buh”.
Isso não faz sentido e, de novo, se o suspense fosse real e a narração menos preguiçosa e desleixada, ninguém nem pensaria nisso. Mas depois de um tempo, você começa a se perguntar que mundo é esse em que Ed vive em que as únicas instituições são uma empresa de rádio-taxi e uma igreja progressista. Por outro lado, o livro teria que ser muito bem escrito para apagar a decepção que foi esse final.
De How I Met Your Mother a Lost
Ok, vamos falar sobre uma coisa: Audrey é a única protagonista feminina. O arco narrativo dela é mais insignificante que o da mulher que ganha o sorvete e menos desenvolvido que o do irmão do padre. Pra você ter noção, caso tenha esquecido, Ed precisa ajudar Ritchie a vencer na vida pela primeira vez. Precisa ajudar Marv a reencontrar uma filha que foi tomada dele por uma família conservadora (de novo: Tribunais. Não. Existem nesse mundo.). Mas a Audrey, ah, o amor da vida dele, essa ele tem que ajudar demais… Fazendo ela aprender a encontrar o amor… Ok, ok, vamos ser justos, mesmo que isso seja um clichê de papeis de gênero ela é uma pessoa fechada e emocionalmente machucada, então… Ainda está valendo – como ele vai fazer ela se abrir para o amor?
Dançando uma música de três minutos com ela no quintal na frente da casa dela logo depois de ela ter transado com o namorado dela (que não é o Ed) e indo embora sem dizer nada e sem que nada mude.
Ele veio do nada, dançou um pouco e ao ir embora imediatamente depois deixou ela se perguntando se ele está precisando de ajuda psiquiátrica. De novo – poético, mas não faz o menor sentido.
Então por que o final é tão decepcionante? Primeiro porque pega essa personagem que, coitada, já é tão mal feita, e a piora. Em uma página, literalmente no epílogo, ela faz algo que não condiz com absolutamente nada que já tenha feito no livro inteiro – apenas para que possa servir de prêmio para o Ed, já que seria inconcebível que um merda que queira provar que é possível se dar bem na vida não tenha uma bela mulher ao seu lado. Não que ele não “mereça” o amor dela ou que ela não possa finalmente admitir o que sente por ele. Mas é súbito. É brusco. O diálogo deles, especialmente o que ela diz, é forçado e não tem nada a ver com a personagem (novidade!). É como Ron terminar Harry Potter com a Romilda, a Hermione com Krum, nenhum livro ter dado indicação de que eles estavam se aproximando e de repente, 17 ou sei lá quantos anos mais tarde… Eles aparecem casados um com o outro. Com filhos. Ou, embora tenha a ver com os personagens porém é brusco, quebra a narrativa e decepciona, o que aconteceu com o final de How I Met Your Mother.
Sinceramente? Eu seria capaz de apostar que a editora simplesmente não gostou que Ed e ela não ficaram juntos. Zusak, sem saco pra reescrever os últimos capítulos, jogou aquelas duas páginas de bosta ali para prometer um ao outro em matrimônio implícito.
E mais ou menos isso, eu ouso suspeitar, é exatamente o que aconteceu com o final inteiro. Zusak, em 2002, basicamente previu o destino da série Lost: uma premissa convoluta que no final não seria satisfeita por nenhuma solução – e a saída é qual? O deus ex machina de que tudo aquilo é uma ficção, Ed é um personagem de um livro (ha!) e quem estava mandando as cartas para ele era o escritor. Nossa, que inteligente.
Sabe o que é inteligente? Foreshadowing. Motivos para você ao menos suspeitar do final do livro. Coisas sutis que façam você reler a obra (ou simplesmente relembrá-la) e pensar “Uau, eu não tinha percebido esse detalhe! Caramba, que genial!”. E isso é extremamente frustrante porque a premissa do livro, como dito acima, é um mistério bom. O mistério invariavelmente convida a conjecturas; você quer ler até o final basicamente para descobrir quem é o puto que está mexendo com a vida dele dessa forma. Minha teoria é a de que era a Audrey – o que seria genial, porque explicaria a razão para ela se manter distante e namorando outro cara (ela estaria fingindo que não sentia nada por ele para que esse fosse o “gran finale”), ela teria um motivo pra fazer isso (como dito no próprio livro… Ela poderia amá-lo e querer que ele fosse uma pessoa melhor) e ainda seria muito bacana porque ela teria planejado até mesmo a parte do cinema (reler esse livro seria fantástico sabendo que ela sabia de tudo).
Mas não.
Esse recurso não é nada original. Uma das mais famosas aplicações recentes dele foi em O Mundo de Sofia, fenômeno mundial lançado em 1991. A diferença é que nele essa premissa é central, e explorada em profundidade; é marcante, é sensível, é coerente com a trama toda. Aqui, nada disso. Aqui é absolutamente broxante.
Esse livro tem partes boas; tem coisas legais, elementos que funcionam. Tudo que se relaciona ao sexo é bem construído, até mesmo a arriscada conexão entre Ed e Sophie. A mensagem é positiva e você fica investido no que vai acontecer, é verdade. Mas não dá pra aceitar algo como “ah, então tanto faz; você ficou doido pra saber o que acontece e isso significa que o livro é bom”. Não, não significa, porque eu também estou doido pra saber como as eleições dos EUA vão terminar, mas se o Trump vencê-las elas ainda serão um desastre.
Se eu tivesse gostado do livro essa postagem seria outra. Minha maior reclamação seria, talvez, uma ponta solta ou um tema pouco explorado (o que é que no passado machucou tanto a Audrey? Não seria bom ver o Ed ganhar confiança também em sua performance sexual?). Faria uma análise sociológica sobre a mensagem do livro – o culto ao sucesso individual e o foco no “indivíduo” como o alvo de toda ação que visa melhorar o mundo – ou quem sabe até sobre a metafísica do sacrifício que se liga, inclusive, à ideia de liberdade de expressão como valor absoluto. Mas fiquei tão pra baixo que já não estou mais nem aí pra “mensagem”.
Esse livro tem uma premissa fantástica e consegue envolver o leitor, mas envolve que nem uma cobra; falha miseravelmente com um estilo inapropriado (que subdesenvolve personagens), uma trama que não se leva a sério, e um final indigno que transforma um suspense fraco numa auto-ajuda barata.
Originally posted at petercast.net.

É curioso ler esse livro quase que na sequência do Helena, de Machado de Assis. É impossível pra mim não compará-los - e sendo que já deve haver muitas resenhas desse livro no Skoob, vou aproveitar pra oferecer algo diferente ao compará-los.
Helena foi publicado em [18]76, e O Primo Basílio, em 74, mas aparentemente chegou ao Brasil em 78. Então ninguém se inspirou em ninguém.
As duas histórias têm enredos diferentes, e embora não se possa dizer que sejam simétricos, eles têm um fio importante em comum: descobre-se as mentiras de uma mulher da elite - ou pelo menos, vá lá, ""classe média alta"", em cada contexto - e ela então fica doente e morre sem causa óbvia.
De onde vem esse ""tropo"" miserável, em que a protagonista ""morre de tristeza""? Que coisa mais idiota. Quem estuda antropologia até poderia suspender a descrença - sabe-se que a ""morte por enfeitiçamento"" é real, vide Mauss - mas não é nem esse o caso aqui. Pode ser ignorância minha, mas o que é que estava acontecendo no mundo literário no final do século XIX, que as histórias convergem pra isso com tanta facilidade? Ainda bem que essa besteira morreu - seu literal último suspiro, talvez, tenha sido nas prequels de Star Wars, com a Padme morrendo porque ""perdeu a vontade de viver""... Puta merda, viu. Com sorte, tira-se tanto de sarro disso na internet que escritores e roteiristas passarão a evitar esse tipo de ""resolução"" daqui pra frente.
Porque veja, não é só porque é uma coisa idiota ou pouco realista. É porque é narrativamente insatisfatório.
Em termos de satisfação, aliás, Helena é o avesso d'O Primo Basílio. A história do primeiro é fria, o mistério é fraco, não instiga muito. Só quando a ""reviravolta"" acontece você fica ""aaahhh - que interessante!"". Já no segundo caso, embora o começo seja meio lento e o realismo descritivo do autor é cansativo pra caralho, eu me surpreendi com a forma como o enredo me envolveu. Você vai se ""investindo"" na história, fica genuinamente curioso pra saber o que vai acontecer. Na verdade, ao contrário de Helena, não há mistério - só os acontecimentos futuros, e isso já basta. Há até momentos de genuína emoção; vêm à cabeça a desilusão de Luísa com o ""Paraíso"" (tadinha!), os rompantes da Juliana, o bofetão que a Joana lhe dá na cara e as chicotadas no Castro - ah, sem falar da hipocrisia dos tempos, registrada magistralmente por Queirós na descoberta de que Jorge também traíra a esposa. Eu achava até que esse seria o ""turning point"" da obra e, no entanto, nada acontece, vida que segue, isso nunca mais impacta em nada (mas tudo bem, essa é precisamente a questão). Considerando as duas histórias (sem incluir seus finais), eu adoraria ter o estilo de escrita superior de Machado com o enredo mais envolvente do Queirós.
O final, contudo, é péssimo nos dois casos. A diferença é: em Helena, a protagonista morre _depois_ de uma confrontação, e depois inclusive da reviravolta explicada pelo pai, etc. Há na verdade uma série de interações chave para o desenvolvimento derradeiro dos personagens, fechando arcos, _antes_ da ""doença"" que acomete Helena. Além disso, Helena não é considerado um grande clássico do Machado de Assis. Pelo contrário, é uma obra do tipo ""olha só o que ele escrevia antes de ser foda..."". Já ""O Primo Basílio"", que era pra ser uma grande obra, é toda construída em cima do suspense de ""o que é que vai acontecer quando o Jorge descobrir..."". Até mesmo a morte da Juliana é aceitável (em termos narrativos), porque provoca aquela soberba antes da queda: Luísa começaria a achar que está tudo bem. Poderia ter até uns tons trágicos, de húbris: com a guarda baixa, deixaria escapar algum detalhe que levaria Jorge à verdade.
Mas não há confrontação de verdade. E não digo nem ""treta"", violência, sangue - não há conversa, não há embate, não há resolução. É como uma montanha russa que, depois daquela subida inicial em marcha lentíssima, não faz uma descida aguda, mas sim um deslize quase plano, sem velocidade, sem looping, sem nada, que termina em 30 segundos num freio suave. É uma frustração narrativa enorme. Horrível, horrível, horrível.
Mas será que não estou tratando esse livro como se fosse uma série da Netflix? Um produto da indústria cultural, que deve agradar e satisfazer? Afinal, assim como no caso da indiferença às traições de Jorge, a morte sem resolução pode ser precisamente o sentido da história: o casamento burguês aparece como instituição tão totalitária e sem saída que não resiste ao menor abalo. No fim, estão todas as vidas afetadas e destruídas (as das mulheres, por óbvio, infinitamente mais que as dos homens) por uma trama de mentiras destinada a suportar as aparências. O final final de fato - com o visconde e o Basílio comentando a Luísa-objeto-de-prazer - reforça essa impressão. Queirós estava a criticar; não a edificar ou mostrar saídas.
Tem como manter essa mensagem sem um final tão chato e anticlimático?
No caso de Helena, por exemplo, fiquei pensando que sua culpa poderia ser canalizada em termos de abandonar a nova família em busca de seu pai perdido. Mas isso é obviamente anacrônico: sem qualquer rede de suporte - como sua própria mãe tinha, no mínimo, com seu pai biológico, e que depois precisou ter com o adotivo - ela não iria longe. No fundo, a tragédia é que ela foi vítima do próprio sucesso burguês, em vários sentidos, e a mensagem me parece ser essa mesmo (os detalhes já meio que me escapam, pra ser sincero, talvez isso não seja muito preciso). Mas que pelo menos fosse um suicídio então - um do qual o irmão dela não tenha consigo salvá-la - em vez de ""morreu de tristeza"".
No caso deste livro, por outro lado, o que eu faria para manter a tragédia era o seguinte: em primeiro lugar, Jorge e Luísa poderiam ter pelo menos se confrontado sobre os acontecimentos (após a morte de Juliana). Havia N formas de fazer com que Jorge descobrisse a traição, muitas inclusive interessantes no sentido de antecipar ainda mais o momento - como, por exemplo, escrever às pessoas que Luísa disse que foi ver enquanto ele estava fora, e eles responderem que nunca foram à Lisboa. A própria carta de Basílio podia ser ainda a gota d'água, que seja. Mas que brigassem, que chorassem, que discutissem, que admitissem as coisas: em camadas, em múltiplas ocasiões, com admissões cada vez maiores, fazendo com que Jorge ficasse cada vez mais tentado à inclemência, cada vez mais dividido sobre o que fazer, com rumores nas ruas, etc.
Se _com isso_ Luísa ficasse cada vez mais doente, ou mesmo tentasse um suicídio, e isso colocasse uma contradição ainda maior para o marido - que, no começo, defendia matar esposas infiéis, e com ela doente acabaria também por perdoá-la e querê-la de volta, em vão - acho que seria muito mais contundente (mais... Catártico, talvez? Eça evitou de propósito a catarse?), mantendo o espírito da ""mensagem"" como a interpreto. Que se adicionasse mais 50 ou 100 páginas para explorar isso; outras 50 ou 100 poderiam facilmente ser tiradas do começo e do meio. Do mesmo modo se chegaria à infelicidade inevitável da hipócrita cena lisboeta.
Já talvez ousando por em risco a mensagem e mesmo o estilo da história, faria ainda outra coisa: se Luísa caísse doente e se recusasse a conversar sobre o assunto, mesmo tendo Jorge descoberto algo da traição, poder-se-ia eliminar a confirmação de que Basílio era o culpado, forçando Jorge a especular e a concluir que Sebastião era o traidor. Louco de ciúmes e em especial pela recusa de Luísa a esclarecer as coisas, Jorge então o mataria. Como as coisas se degringolariam daí em diante pouco importa.
Fico pensando na crítica que Assis fez d'O Primo Basílio: não conseguimos nos conectar à protagonista porque lhe falta fibra moral. Acho que é por isso que essa questão do Sebastião me agradaria (de novo, narrativamente): embora Luísa seja vítima das circunstâncias, ela não o é mais que Eugênia, por exemplo; além disso, a alternativa está logo ali, ao lado, o tempo todo: uma vida como a de Leopoldina - que ela, mais pro final, inclusive entende, embora não consiga entender enquanto alternativa viável. Mas daí, o quê? Que esse vazio todo a leve a morte por tristeza é menos interessante que mostrar que a falta da menor resolução em tentar resolver as coisas (por falta justamente de uma pulsão própria, de princípios) respinga nos outros, também, inclusive quem a tenta ""ajudar"" (ajuda que consiste, afinal, em mentir para sustentar o status quo).
Ficaria um contraste curioso com Helena, em que a protagonista morre _precisamente porque_ tem um senso de orgulho moral inflexível demais, por certo que afetado por expectativas de classe e gênero mas certamente compreensível em contexto. Queirós nos deu uma obra em que a ""falta de fibra moral"" leva à própria pessoa à morte e ""a vida é assim mesmo""; não um comentário normativo, necessariamente. Pelo contrário, até bastante ácido - mas, infelizmente, meio sem sal.
É curioso ler esse livro quase que na sequência do Helena, de Machado de Assis. É impossível pra mim não compará-los - e sendo que já deve haver muitas resenhas desse livro no Skoob, vou aproveitar pra oferecer algo diferente ao compará-los.
Helena foi publicado em [18]76, e O Primo Basílio, em 74, mas aparentemente chegou ao Brasil em 78. Então ninguém se inspirou em ninguém.
As duas histórias têm enredos diferentes, e embora não se possa dizer que sejam simétricos, eles têm um fio importante em comum: descobre-se as mentiras de uma mulher da elite - ou pelo menos, vá lá, ""classe média alta"", em cada contexto - e ela então fica doente e morre sem causa óbvia.
De onde vem esse ""tropo"" miserável, em que a protagonista ""morre de tristeza""? Que coisa mais idiota. Quem estuda antropologia até poderia suspender a descrença - sabe-se que a ""morte por enfeitiçamento"" é real, vide Mauss - mas não é nem esse o caso aqui. Pode ser ignorância minha, mas o que é que estava acontecendo no mundo literário no final do século XIX, que as histórias convergem pra isso com tanta facilidade? Ainda bem que essa besteira morreu - seu literal último suspiro, talvez, tenha sido nas prequels de Star Wars, com a Padme morrendo porque ""perdeu a vontade de viver""... Puta merda, viu. Com sorte, tira-se tanto de sarro disso na internet que escritores e roteiristas passarão a evitar esse tipo de ""resolução"" daqui pra frente.
Porque veja, não é só porque é uma coisa idiota ou pouco realista. É porque é narrativamente insatisfatório.
Em termos de satisfação, aliás, Helena é o avesso d'O Primo Basílio. A história do primeiro é fria, o mistério é fraco, não instiga muito. Só quando a ""reviravolta"" acontece você fica ""aaahhh - que interessante!"". Já no segundo caso, embora o começo seja meio lento e o realismo descritivo do autor é cansativo pra caralho, eu me surpreendi com a forma como o enredo me envolveu. Você vai se ""investindo"" na história, fica genuinamente curioso pra saber o que vai acontecer. Na verdade, ao contrário de Helena, não há mistério - só os acontecimentos futuros, e isso já basta. Há até momentos de genuína emoção; vêm à cabeça a desilusão de Luísa com o ""Paraíso"" (tadinha!), os rompantes da Juliana, o bofetão que a Joana lhe dá na cara e as chicotadas no Castro - ah, sem falar da hipocrisia dos tempos, registrada magistralmente por Queirós na descoberta de que Jorge também traíra a esposa. Eu achava até que esse seria o ""turning point"" da obra e, no entanto, nada acontece, vida que segue, isso nunca mais impacta em nada (mas tudo bem, essa é precisamente a questão). Considerando as duas histórias (sem incluir seus finais), eu adoraria ter o estilo de escrita superior de Machado com o enredo mais envolvente do Queirós.
O final, contudo, é péssimo nos dois casos. A diferença é: em Helena, a protagonista morre _depois_ de uma confrontação, e depois inclusive da reviravolta explicada pelo pai, etc. Há na verdade uma série de interações chave para o desenvolvimento derradeiro dos personagens, fechando arcos, _antes_ da ""doença"" que acomete Helena. Além disso, Helena não é considerado um grande clássico do Machado de Assis. Pelo contrário, é uma obra do tipo ""olha só o que ele escrevia antes de ser foda..."". Já ""O Primo Basílio"", que era pra ser uma grande obra, é toda construída em cima do suspense de ""o que é que vai acontecer quando o Jorge descobrir..."". Até mesmo a morte da Juliana é aceitável (em termos narrativos), porque provoca aquela soberba antes da queda: Luísa começaria a achar que está tudo bem. Poderia ter até uns tons trágicos, de húbris: com a guarda baixa, deixaria escapar algum detalhe que levaria Jorge à verdade.
Mas não há confrontação de verdade. E não digo nem ""treta"", violência, sangue - não há conversa, não há embate, não há resolução. É como uma montanha russa que, depois daquela subida inicial em marcha lentíssima, não faz uma descida aguda, mas sim um deslize quase plano, sem velocidade, sem looping, sem nada, que termina em 30 segundos num freio suave. É uma frustração narrativa enorme. Horrível, horrível, horrível.
Mas será que não estou tratando esse livro como se fosse uma série da Netflix? Um produto da indústria cultural, que deve agradar e satisfazer? Afinal, assim como no caso da indiferença às traições de Jorge, a morte sem resolução pode ser precisamente o sentido da história: o casamento burguês aparece como instituição tão totalitária e sem saída que não resiste ao menor abalo. No fim, estão todas as vidas afetadas e destruídas (as das mulheres, por óbvio, infinitamente mais que as dos homens) por uma trama de mentiras destinada a suportar as aparências. O final final de fato - com o visconde e o Basílio comentando a Luísa-objeto-de-prazer - reforça essa impressão. Queirós estava a criticar; não a edificar ou mostrar saídas.
Tem como manter essa mensagem sem um final tão chato e anticlimático?
No caso de Helena, por exemplo, fiquei pensando que sua culpa poderia ser canalizada em termos de abandonar a nova família em busca de seu pai perdido. Mas isso é obviamente anacrônico: sem qualquer rede de suporte - como sua própria mãe tinha, no mínimo, com seu pai biológico, e que depois precisou ter com o adotivo - ela não iria longe. No fundo, a tragédia é que ela foi vítima do próprio sucesso burguês, em vários sentidos, e a mensagem me parece ser essa mesmo (os detalhes já meio que me escapam, pra ser sincero, talvez isso não seja muito preciso). Mas que pelo menos fosse um suicídio então - um do qual o irmão dela não tenha consigo salvá-la - em vez de ""morreu de tristeza"".
No caso deste livro, por outro lado, o que eu faria para manter a tragédia era o seguinte: em primeiro lugar, Jorge e Luísa poderiam ter pelo menos se confrontado sobre os acontecimentos (após a morte de Juliana). Havia N formas de fazer com que Jorge descobrisse a traição, muitas inclusive interessantes no sentido de antecipar ainda mais o momento - como, por exemplo, escrever às pessoas que Luísa disse que foi ver enquanto ele estava fora, e eles responderem que nunca foram à Lisboa. A própria carta de Basílio podia ser ainda a gota d'água, que seja. Mas que brigassem, que chorassem, que discutissem, que admitissem as coisas: em camadas, em múltiplas ocasiões, com admissões cada vez maiores, fazendo com que Jorge ficasse cada vez mais tentado à inclemência, cada vez mais dividido sobre o que fazer, com rumores nas ruas, etc.
Se _com isso_ Luísa ficasse cada vez mais doente, ou mesmo tentasse um suicídio, e isso colocasse uma contradição ainda maior para o marido - que, no começo, defendia matar esposas infiéis, e com ela doente acabaria também por perdoá-la e querê-la de volta, em vão - acho que seria muito mais contundente (mais... Catártico, talvez? Eça evitou de propósito a catarse?), mantendo o espírito da ""mensagem"" como a interpreto. Que se adicionasse mais 50 ou 100 páginas para explorar isso; outras 50 ou 100 poderiam facilmente ser tiradas do começo e do meio. Do mesmo modo se chegaria à infelicidade inevitável da hipócrita cena lisboeta.
Já talvez ousando por em risco a mensagem e mesmo o estilo da história, faria ainda outra coisa: se Luísa caísse doente e se recusasse a conversar sobre o assunto, mesmo tendo Jorge descoberto algo da traição, poder-se-ia eliminar a confirmação de que Basílio era o culpado, forçando Jorge a especular e a concluir que Sebastião era o traidor. Louco de ciúmes e em especial pela recusa de Luísa a esclarecer as coisas, Jorge então o mataria. Como as coisas se degringolariam daí em diante pouco importa.
Fico pensando na crítica que Assis fez d'O Primo Basílio: não conseguimos nos conectar à protagonista porque lhe falta fibra moral. Acho que é por isso que essa questão do Sebastião me agradaria (de novo, narrativamente): embora Luísa seja vítima das circunstâncias, ela não o é mais que Eugênia, por exemplo; além disso, a alternativa está logo ali, ao lado, o tempo todo: uma vida como a de Leopoldina - que ela, mais pro final, inclusive entende, embora não consiga entender enquanto alternativa viável. Mas daí, o quê? Que esse vazio todo a leve a morte por tristeza é menos interessante que mostrar que a falta da menor resolução em tentar resolver as coisas (por falta justamente de uma pulsão própria, de princípios) respinga nos outros, também, inclusive quem a tenta ""ajudar"" (ajuda que consiste, afinal, em mentir para sustentar o status quo).
Ficaria um contraste curioso com Helena, em que a protagonista morre _precisamente porque_ tem um senso de orgulho moral inflexível demais, por certo que afetado por expectativas de classe e gênero mas certamente compreensível em contexto. Queirós nos deu uma obra em que a ""falta de fibra moral"" leva à própria pessoa à morte e ""a vida é assim mesmo""; não um comentário normativo, necessariamente. Pelo contrário, até bastante ácido - mas, infelizmente, meio sem sal.

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