

Esse livro me arrebatou por completo. Me deixou em tal estado de ânimo que, despedaçado, não consegui escrever uma resenha coerente depois dele – apenas uma assim, aos pedaços, observando de bocado em bocado essa obra prima contemporânea.
Ele é um livro tão incrível que seus defeitos lhe parecem apenas relatividades: coisas que, por razões pessoais apenas, preferências, um ou outro leitor não gostaria. Em nenhuma obra de arte pode-se aspirar à perfeição, quanto mais universal; o máximo que se pode esperar é fazer algo que mesmo os detratores vão admitir que, para um número significativo de pessoas, os defeitos identificados tornar-se-iam até qualidades.
É que acontece, por exemplo, com seu gigantismo. É verdade que depois da página 450 você começa a se perguntar se era realmente necessário conhecer mais sobre a linhagem paterna de Walter? É. Verdade que não tem mais muita certeza se vai compensar, mais à frente, prestar atenção em todos os detalhes e todos os desvios que o narrador, seja ele quem for no momento, faz? É. Mas compensa, viu?
O estilo dele, ou pelo menos o quanto disso pôde ser ainda transferido para sua tradução ao português, é muito bom. É muito, muito bom.
O romance de Patty e Walter, no fim das contas, é o mais lindo de todos os tempos. Eis o poder de uma narrativa biográfica, de personagens atormentados, e de um tipo de amor que raramente se vê hoje em dia: um trapo velho que se faz à mão com muita dificuldade e imperícia, não roupa bonita que se escolhe num baile da corte; fonte insuspeita de nossas decisões mais estranhas.
O que achei esquisito – e o único ponto que me põe numa posição estranha em relação ao livro – é 1) o grau de autoconsciência que os personagens exibem; e 2) o quanto isso pode realmente ser atribuído a eles e o quanto vem simplesmente do narrador, sem passar por suas cabeças.
É que como temos um narrador em terceira pessoa que “mergulha” nas mentes dos personagens mais frontais, às vezes é difícil saber (impossível) quando o personagem realmente está pensando algo ou não. No caso das autobiografias de Patty, fica claro – o que corrobora o motivo da estranheza.
O motivo, é preciso explicar melhor, é o seguinte: em geral um personagem tem uma característica, mesmo que oculta, aí ele age de acordo com ela, e então ele percebe que tem a característica (ou alguém percebe isso por ele, e lhe diz). O livro é muito mais aberto do que isso, dizendo para o leitor que Patty é competitiva muito antes de ter qualquer chance de mostrar que ela o seja. E ela fica pensando nisso tudo muito antes que isso seja de alguma forma explícito ou verbalizado, e sou um pouco cético quanto a essa presença de espírito autorreflexiva que todos ali retratados possuem.
De outro modo, talvez isso seja apenas um recurso literário para que várias coisas funcionem dentro da narrativa, e nesse sentido tudo vai bem, mesmo a partir daí. Ou quase: mesmo depois de duas ou três exposições, ainda não consegui entender exatamente qual é o problema de Joey com Patty. O problema, é claro, é que eu consegui entender o problema se todas as formas desnecessárias (a intelectual – ela mimou ele demais – e a poética – ele tem uma ‘parede’ sentimental posta contra ela ou algo assim), mas não na única que importa: essa lógica, no fim das contas, nunca entrou no meu coração e se naturalizou como algo perfeitamente compreensível. Os sentimentos de Patty, de Katz, de Walter, de Connie, todos bastante familiares no momento em que vão sendo lindamente tecidos na trama do livro. Até os de Joey em relação ao pai – perfeitamente compreensíveis. Mas os de Joey para com Patty vão me fazer coçar a cabeça sempre que me lembrar deles.
Algo definitivamente cativou imaginação quando você se vê conectando músicas conhecidas à nova experiência literária. No meu caso, o cover de Parachute por parte de Kawehi me lembrou muito Connie e Joey; e a música Damn Regret, do Red Jumpsuit Apparatus, me faz lembrar do livro todo.
Esse livro me arrebatou por completo. Me deixou em tal estado de ânimo que, despedaçado, não consegui escrever uma resenha coerente depois dele – apenas uma assim, aos pedaços, observando de bocado em bocado essa obra prima contemporânea.
Ele é um livro tão incrível que seus defeitos lhe parecem apenas relatividades: coisas que, por razões pessoais apenas, preferências, um ou outro leitor não gostaria. Em nenhuma obra de arte pode-se aspirar à perfeição, quanto mais universal; o máximo que se pode esperar é fazer algo que mesmo os detratores vão admitir que, para um número significativo de pessoas, os defeitos identificados tornar-se-iam até qualidades.
É que acontece, por exemplo, com seu gigantismo. É verdade que depois da página 450 você começa a se perguntar se era realmente necessário conhecer mais sobre a linhagem paterna de Walter? É. Verdade que não tem mais muita certeza se vai compensar, mais à frente, prestar atenção em todos os detalhes e todos os desvios que o narrador, seja ele quem for no momento, faz? É. Mas compensa, viu?
O estilo dele, ou pelo menos o quanto disso pôde ser ainda transferido para sua tradução ao português, é muito bom. É muito, muito bom.
O romance de Patty e Walter, no fim das contas, é o mais lindo de todos os tempos. Eis o poder de uma narrativa biográfica, de personagens atormentados, e de um tipo de amor que raramente se vê hoje em dia: um trapo velho que se faz à mão com muita dificuldade e imperícia, não roupa bonita que se escolhe num baile da corte; fonte insuspeita de nossas decisões mais estranhas.
O que achei esquisito – e o único ponto que me põe numa posição estranha em relação ao livro – é 1) o grau de autoconsciência que os personagens exibem; e 2) o quanto isso pode realmente ser atribuído a eles e o quanto vem simplesmente do narrador, sem passar por suas cabeças.
É que como temos um narrador em terceira pessoa que “mergulha” nas mentes dos personagens mais frontais, às vezes é difícil saber (impossível) quando o personagem realmente está pensando algo ou não. No caso das autobiografias de Patty, fica claro – o que corrobora o motivo da estranheza.
O motivo, é preciso explicar melhor, é o seguinte: em geral um personagem tem uma característica, mesmo que oculta, aí ele age de acordo com ela, e então ele percebe que tem a característica (ou alguém percebe isso por ele, e lhe diz). O livro é muito mais aberto do que isso, dizendo para o leitor que Patty é competitiva muito antes de ter qualquer chance de mostrar que ela o seja. E ela fica pensando nisso tudo muito antes que isso seja de alguma forma explícito ou verbalizado, e sou um pouco cético quanto a essa presença de espírito autorreflexiva que todos ali retratados possuem.
De outro modo, talvez isso seja apenas um recurso literário para que várias coisas funcionem dentro da narrativa, e nesse sentido tudo vai bem, mesmo a partir daí. Ou quase: mesmo depois de duas ou três exposições, ainda não consegui entender exatamente qual é o problema de Joey com Patty. O problema, é claro, é que eu consegui entender o problema se todas as formas desnecessárias (a intelectual – ela mimou ele demais – e a poética – ele tem uma ‘parede’ sentimental posta contra ela ou algo assim), mas não na única que importa: essa lógica, no fim das contas, nunca entrou no meu coração e se naturalizou como algo perfeitamente compreensível. Os sentimentos de Patty, de Katz, de Walter, de Connie, todos bastante familiares no momento em que vão sendo lindamente tecidos na trama do livro. Até os de Joey em relação ao pai – perfeitamente compreensíveis. Mas os de Joey para com Patty vão me fazer coçar a cabeça sempre que me lembrar deles.
Algo definitivamente cativou imaginação quando você se vê conectando músicas conhecidas à nova experiência literária. No meu caso, o cover de Parachute por parte de Kawehi me lembrou muito Connie e Joey; e a música Damn Regret, do Red Jumpsuit Apparatus, me faz lembrar do livro todo.

O livro é bom. A narrativa é boa, fluida, gostosa, o estilo é bacana, o diálogo é bom, as piadas funcionam, e a história é tanto instigante quanto recheada de referências literárias que a tornam sublime para algo que deveria ser só mais um conto pop. Tudo se encaixa - até mesmo seu defeito, porque o desfecho dificilmente poderia ter sido outro, tudo se encaixou bem, e um pouco da decepção que sentimos é também a decepção da primeira pessoa, o que é, portanto, aceitável e interessante.
O problema, é claro, é que apenas ao chegar no final é que percebemos que a _premissa_ é esquisita. Margo faz o que faz porque Orlando é uma ""cidade de papel"" e ela é uma ""pessoa de papel"" querendo se tornar uma ""pessoa de verdade"". É inevitável não se perguntar no fim das contas o que é que Orlando tinha de TÃO RUIM, afinal. Oh, meldels, que vida horrível que ela tinha.
E isso _é_ uma deficiência do autor, na minha opinião, e não incidentalmente de quem interpreta a história: não estou argumentando que pessoas realmente miseráveis e desafortunadas se sentiriam ofendidos com essa história, mas que _nós mesmos_ não conseguimos engolir os conceitos que _o autor_ nos empurra. E sabemos que ele faz isso porque não os questiona - evidência 1: ele nos apresenta os pais de Margo e, através dos comentários dos outros personagens, nos quer fazer crer que eles são horríveis - mas você se pega negando o que eles dizem, comentado para si mesmo ""na verdade... Não, não é bem assim"". 2: Quentin, que deveria ser em parte nós mesmos, já que compartilhamos a jornada da dúvida e da busca, não questiona a motivação dela. Quando ela fala que ""tinha que fugir daquilo tudo, daquela vida"", blablabla Quentin nunca levanta a sobrancelha e diz ""do que vc tá falando, guria? Que vida? Vc se prostituía, por acaso? Não bastava começar a andar com os nerds ao invés de tentar buscar profundidade e amizade entre ricaços preocupados com a fama e o poder?""; não, ele simplesmente balança a cabeça, o que equivale a dizer ""é, te entendo, é claro que você tem razão"".
Talvez o que Green queira é que vejamos Margo como uma menina profunda, marcada pelo desajuste, por uma vontade de uma vida maior que ela, e que, ao ser sugada por um ciclo de futilidade, tem que fugir para se libertar dele. Um espírito livre ao mesmo tempo danificado e sábio. Mas o que sobra é uma menina que não tinha coragem para sair da patota que lhe dava status (como alguém consciente do e contrário ao racismo subjacente ao grupo dominante do qual é líder, mas que se recusa a combatê-lo em nome de sua posição), dando origem a mais uma história americana sobre a beleza da individualidade indômita que não tem mais nada na cabeça a não ser condenar o futuro por lhe apertar um pouco - os outros que se fodam. É quase uma Ayn Rand. Green talvez imagine uma líder punk infiltrada, qual espiã, entre as lideranças do status quo, mas com um segredo sombrio sobre como se sente por dentro. O que vemos é... Sei lá, uma mimada egocêntrica? Alguém que, de tanto tempo infiltrada, se tornou indistinguível das lideranças do status quo e nem sabe mais tocar guitarra bem o bastante pra uma música punk (o que quer dizer que não sabe tocar nada)? O mais importante é que _não_ vemos o que Green vê. Se pudéssemos fazê-lo, a história ficaria de pé. Desmantelada a figura que justificaria tudo, sobra só formato (mesmo que um bom formato) de conteúdo esquisito.
Mas, enfim, pela fragilidade da premissa na minha opinião - uma premissa de papel - dei uma estrela a menos. As outras quatro são porque o resto do livro é bom - em especial se você esquecer da Margo e ler tudo isso como um processo importante pro Quentin. A jornada é legal de ser viajada nesse livro, não importa o destino final ou como ele realinha a jornada. Certas características não se perdem, e as lembranças que vão ficar da leitura certamente são boas.
O livro é bom. A narrativa é boa, fluida, gostosa, o estilo é bacana, o diálogo é bom, as piadas funcionam, e a história é tanto instigante quanto recheada de referências literárias que a tornam sublime para algo que deveria ser só mais um conto pop. Tudo se encaixa - até mesmo seu defeito, porque o desfecho dificilmente poderia ter sido outro, tudo se encaixou bem, e um pouco da decepção que sentimos é também a decepção da primeira pessoa, o que é, portanto, aceitável e interessante.
O problema, é claro, é que apenas ao chegar no final é que percebemos que a _premissa_ é esquisita. Margo faz o que faz porque Orlando é uma ""cidade de papel"" e ela é uma ""pessoa de papel"" querendo se tornar uma ""pessoa de verdade"". É inevitável não se perguntar no fim das contas o que é que Orlando tinha de TÃO RUIM, afinal. Oh, meldels, que vida horrível que ela tinha.
E isso _é_ uma deficiência do autor, na minha opinião, e não incidentalmente de quem interpreta a história: não estou argumentando que pessoas realmente miseráveis e desafortunadas se sentiriam ofendidos com essa história, mas que _nós mesmos_ não conseguimos engolir os conceitos que _o autor_ nos empurra. E sabemos que ele faz isso porque não os questiona - evidência 1: ele nos apresenta os pais de Margo e, através dos comentários dos outros personagens, nos quer fazer crer que eles são horríveis - mas você se pega negando o que eles dizem, comentado para si mesmo ""na verdade... Não, não é bem assim"". 2: Quentin, que deveria ser em parte nós mesmos, já que compartilhamos a jornada da dúvida e da busca, não questiona a motivação dela. Quando ela fala que ""tinha que fugir daquilo tudo, daquela vida"", blablabla Quentin nunca levanta a sobrancelha e diz ""do que vc tá falando, guria? Que vida? Vc se prostituía, por acaso? Não bastava começar a andar com os nerds ao invés de tentar buscar profundidade e amizade entre ricaços preocupados com a fama e o poder?""; não, ele simplesmente balança a cabeça, o que equivale a dizer ""é, te entendo, é claro que você tem razão"".
Talvez o que Green queira é que vejamos Margo como uma menina profunda, marcada pelo desajuste, por uma vontade de uma vida maior que ela, e que, ao ser sugada por um ciclo de futilidade, tem que fugir para se libertar dele. Um espírito livre ao mesmo tempo danificado e sábio. Mas o que sobra é uma menina que não tinha coragem para sair da patota que lhe dava status (como alguém consciente do e contrário ao racismo subjacente ao grupo dominante do qual é líder, mas que se recusa a combatê-lo em nome de sua posição), dando origem a mais uma história americana sobre a beleza da individualidade indômita que não tem mais nada na cabeça a não ser condenar o futuro por lhe apertar um pouco - os outros que se fodam. É quase uma Ayn Rand. Green talvez imagine uma líder punk infiltrada, qual espiã, entre as lideranças do status quo, mas com um segredo sombrio sobre como se sente por dentro. O que vemos é... Sei lá, uma mimada egocêntrica? Alguém que, de tanto tempo infiltrada, se tornou indistinguível das lideranças do status quo e nem sabe mais tocar guitarra bem o bastante pra uma música punk (o que quer dizer que não sabe tocar nada)? O mais importante é que _não_ vemos o que Green vê. Se pudéssemos fazê-lo, a história ficaria de pé. Desmantelada a figura que justificaria tudo, sobra só formato (mesmo que um bom formato) de conteúdo esquisito.
Mas, enfim, pela fragilidade da premissa na minha opinião - uma premissa de papel - dei uma estrela a menos. As outras quatro são porque o resto do livro é bom - em especial se você esquecer da Margo e ler tudo isso como um processo importante pro Quentin. A jornada é legal de ser viajada nesse livro, não importa o destino final ou como ele realinha a jornada. Certas características não se perdem, e as lembranças que vão ficar da leitura certamente são boas.

É uma pena que a falha do aplicativo do Widbook (pelo menos no meu celular) me obrigou a ler esse livro na tela do PC - o que me deixou com um pouco de raiva, e me fez ler um pouco rápido, e aí a experiência não foi das melhores. Mas, se mesmo com esse tipo de leitura (e o motivo pelo qual demorei pra caramba pra terminar) consegui achar bom, certamente tem mérito! Ainda mais considerando que não sou exatamente apaixonado por livros de contos.
Fato é que a escrita é bem organizada, bastante criativa, tem momentos brilhantes e um tom de pessimismo canto-de-boca obscurecendo (num bom sentido, em certo sentido) todas as páginas. Nos contos do meio os diálogos são um pouco ruins, mas os do começo e do final são bons. Fiquei um pouco perdido às vezes, e alguns contos me passaram a impressão de apressados. Mas, bem, são contos!
É uma pena que a falha do aplicativo do Widbook (pelo menos no meu celular) me obrigou a ler esse livro na tela do PC - o que me deixou com um pouco de raiva, e me fez ler um pouco rápido, e aí a experiência não foi das melhores. Mas, se mesmo com esse tipo de leitura (e o motivo pelo qual demorei pra caramba pra terminar) consegui achar bom, certamente tem mérito! Ainda mais considerando que não sou exatamente apaixonado por livros de contos.
Fato é que a escrita é bem organizada, bastante criativa, tem momentos brilhantes e um tom de pessimismo canto-de-boca obscurecendo (num bom sentido, em certo sentido) todas as páginas. Nos contos do meio os diálogos são um pouco ruins, mas os do começo e do final são bons. Fiquei um pouco perdido às vezes, e alguns contos me passaram a impressão de apressados. Mas, bem, são contos!

Giulia Carcasi tem algo a nos dizer sobre o amor. Não acho que seja nada de novo, e no campo de novelas coming of age nada de tão notável.
Há coisas irritantes. Eu estou até agora coçando a cabeça para tentar entender se há ou não uma certa dimensão moralizadora nesse livro porque a primeira pessoa com que se narra me parece mais uma desculpa para reforçar padrões bobos de gênero do que uma forma de simplesmente viver com eles como os personagens o vivem. Talvez seja uma coisa da Itália, na qual nunca pisei os pés (e olha, o sistema educacional do ensino médio da Itália consegue ser mais idiota que o nosso) Mas não é só isso. Ludovica, a puta, não é só slut-shamed o que seria de se esperar numa novela que trata do ensino médio no começo dos anos 2010 com o mínimo de crueza mas ao fazê-la má, mentirosa, manipulativa, etc a autora meio que pretende nos fazer torcer contra ela, como num pacote completo é que nós somos os shamers. E isso se baseia na dicotomia entre um uso liberal do próprio corpo e o amor, puro, imaculado e o único capaz de trazer felicidade mas também na equação entre um uso liberal do corpo e um certo vazio existencial e familiar.
Por um lado me sinto tentado a pensar nisso como uma questão da personagem não dá para negar que a falta de amor dos pais e pares na infância e na adolescência costuma levar à falta de amor próprio, à carência emocional Que por sua vez pode significar para a pessoa um impulso de se dar de todas as formas possíveis a troco de atenção. Mas e aí ela é representativa ou uma personagem própria? Não há uma possibilidade ontológica nesse vasto mundo de você aliar prazer carnal à busca sentimental? É possível expor o machismo dos discursos de alguns personagens no livro sem reduzir a crítica à defesa de um pudor, de um caminho único sem o qual ninguém consegue encontrar o verdadeiro amor? Existe algum adolescente na Itália cujos pais tenham uma relação minimamente estável?
Não sei.
Mas sei que, apesar dos incômodos, meu coração literário se acendeu quando comecei a ler a outra metade do livro (comecei pela Alice) e percebi que os diálogos não são os mesmos. Só de vez em quando, em momentos muito particulares e importantes momentos em que a memória não falha. Isso faz toda a diferença do mundo primeiro, estabelece que a narrativa não é objetiva (o que é possível mesmo na primeira pessoa), mas tingida por memória, afetada pela lembrança e pela impressão que se tem do outro (Alice é praticamente outra pessoa no lado de Carlo). E mais: quando a narrativa não altera as palavras, significa uma importância, uma fixação do momento de maneira mais forte, mais segura. É como uma forma de negrito, de itálico, de ênfase que não precisa da grafia, mas apenas de uma pausa, de um tempo, de uma reflexão breve sobre o momento. Achei muito bem executado.
Ou seja, em termos estilísticos o livro é interessante: tem parágrafos curtos, breves, que beiram às vezes o excesso de perspectiva (e só achei piegas uma vezinha só) mas em outros tem sacadas poéticas maravilhosas. Não tem tanta amplitude quanto os personagens de, por exemplo, o brasileiro ""Ainda Não Te Disse Nada"", e uma estética, no fundo, melancólica; é um mundo quase em suspensão, em que só os personagens dentro do livro se movem numa península de estátuas e sombras os próprios personagens, autômatos de bateria intermitente, parecem se mexer só enquanto alguém presta atenção neles. Depois não voltam para a própria vida; viram bonecos de cera num museu do tamanho do mundo. Talvez seja consequência da extrema introspecção e autorreferência dos personagens ao contar a história. Pensando melhor, parece até meio aterrorizante esse clima empoeirado E Malari até garante que o seja num determinado momento. Mas o final é otimista, e nos faz sentir abraçados o bastante para sorrir; sorrir com o futuro e também com o passado.
Giulia Carcasi tem algo a nos dizer sobre o amor. Não acho que seja nada de novo, e no campo de novelas coming of age nada de tão notável.
Há coisas irritantes. Eu estou até agora coçando a cabeça para tentar entender se há ou não uma certa dimensão moralizadora nesse livro porque a primeira pessoa com que se narra me parece mais uma desculpa para reforçar padrões bobos de gênero do que uma forma de simplesmente viver com eles como os personagens o vivem. Talvez seja uma coisa da Itália, na qual nunca pisei os pés (e olha, o sistema educacional do ensino médio da Itália consegue ser mais idiota que o nosso) Mas não é só isso. Ludovica, a puta, não é só slut-shamed o que seria de se esperar numa novela que trata do ensino médio no começo dos anos 2010 com o mínimo de crueza mas ao fazê-la má, mentirosa, manipulativa, etc a autora meio que pretende nos fazer torcer contra ela, como num pacote completo é que nós somos os shamers. E isso se baseia na dicotomia entre um uso liberal do próprio corpo e o amor, puro, imaculado e o único capaz de trazer felicidade mas também na equação entre um uso liberal do corpo e um certo vazio existencial e familiar.
Por um lado me sinto tentado a pensar nisso como uma questão da personagem não dá para negar que a falta de amor dos pais e pares na infância e na adolescência costuma levar à falta de amor próprio, à carência emocional Que por sua vez pode significar para a pessoa um impulso de se dar de todas as formas possíveis a troco de atenção. Mas e aí ela é representativa ou uma personagem própria? Não há uma possibilidade ontológica nesse vasto mundo de você aliar prazer carnal à busca sentimental? É possível expor o machismo dos discursos de alguns personagens no livro sem reduzir a crítica à defesa de um pudor, de um caminho único sem o qual ninguém consegue encontrar o verdadeiro amor? Existe algum adolescente na Itália cujos pais tenham uma relação minimamente estável?
Não sei.
Mas sei que, apesar dos incômodos, meu coração literário se acendeu quando comecei a ler a outra metade do livro (comecei pela Alice) e percebi que os diálogos não são os mesmos. Só de vez em quando, em momentos muito particulares e importantes momentos em que a memória não falha. Isso faz toda a diferença do mundo primeiro, estabelece que a narrativa não é objetiva (o que é possível mesmo na primeira pessoa), mas tingida por memória, afetada pela lembrança e pela impressão que se tem do outro (Alice é praticamente outra pessoa no lado de Carlo). E mais: quando a narrativa não altera as palavras, significa uma importância, uma fixação do momento de maneira mais forte, mais segura. É como uma forma de negrito, de itálico, de ênfase que não precisa da grafia, mas apenas de uma pausa, de um tempo, de uma reflexão breve sobre o momento. Achei muito bem executado.
Ou seja, em termos estilísticos o livro é interessante: tem parágrafos curtos, breves, que beiram às vezes o excesso de perspectiva (e só achei piegas uma vezinha só) mas em outros tem sacadas poéticas maravilhosas. Não tem tanta amplitude quanto os personagens de, por exemplo, o brasileiro ""Ainda Não Te Disse Nada"", e uma estética, no fundo, melancólica; é um mundo quase em suspensão, em que só os personagens dentro do livro se movem numa península de estátuas e sombras os próprios personagens, autômatos de bateria intermitente, parecem se mexer só enquanto alguém presta atenção neles. Depois não voltam para a própria vida; viram bonecos de cera num museu do tamanho do mundo. Talvez seja consequência da extrema introspecção e autorreferência dos personagens ao contar a história. Pensando melhor, parece até meio aterrorizante esse clima empoeirado E Malari até garante que o seja num determinado momento. Mas o final é otimista, e nos faz sentir abraçados o bastante para sorrir; sorrir com o futuro e também com o passado.

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Entendo que há um público-alvo específico para ele e que ele pode ser útil para algumas pessoas, mas não é meu tipo de leitura - embora estilo e tema não sejam as razões pelas quais eu o tenha visto como regular, já que gosto bastante do tema e o autor escreve razoavelmente bem (seu único pecadilho é ser repetitivo).
O problema é que, apesar de uma visão balanceada no que tange à área que o livro se propõe a discutir (no sentido de que, quando fala de algo, mostra também as críticas, além de mostrar os erros do sr. Jobs), a própria área que o livro se propõe a discutir em primeiro lugar é circunscrita de forma a deixar algumas coisas de fora. Fala pouco da vida pessoal, minimizando assim efetivamente o número de vezes em que foi preciso deixar um pouco de lado a notória babaquice de Jobs - ora, não é para entender ""a cabeça de Jobs""? Não dá pra compartimentalizar não. Tudo contribui para isso.
Aliás, é preciso ir além da ""cabeça"" dele para entendê-lo - ou entender (o pouco que se pode fazê-lo) qualquer um, na verdade, uma briga que toda pessoa com uma visão mais ampla das coisas compra com uma certa psicologia turrona, mas vamos lá. Mesmo ao minimizar a babaquice de Jobs, o faz com colocações que só podem ser entendidas no contexto cultural do empreendedorismo liberal: Todo mundo reclamava da relação com Jobs, mas sentiram que passaram por uma experiência incrível ao trabalhar com ele (o pessoal que trabalhou com Jordan Belfort também, tenho certeza). Tudo bem ser idiota com os outros, afinal Jobs só queria excelência - não, sério, essa é uma _lição_ do livro (p. 160): ""Ser um idiota não tem importância, contanto que você tenha paixão pela coisa"". Fuck you too, sir!
De qualquer forma, uma leitura leve se você ignorar a tentativa de extrair ""lições"" da vida dele, com uma pitada bem informada de história da Apple. Algumas pessoas vão gostar mais, mas pra mim está só ""ok""."
Entendo que há um público-alvo específico para ele e que ele pode ser útil para algumas pessoas, mas não é meu tipo de leitura - embora estilo e tema não sejam as razões pelas quais eu o tenha visto como regular, já que gosto bastante do tema e o autor escreve razoavelmente bem (seu único pecadilho é ser repetitivo).
O problema é que, apesar de uma visão balanceada no que tange à área que o livro se propõe a discutir (no sentido de que, quando fala de algo, mostra também as críticas, além de mostrar os erros do sr. Jobs), a própria área que o livro se propõe a discutir em primeiro lugar é circunscrita de forma a deixar algumas coisas de fora. Fala pouco da vida pessoal, minimizando assim efetivamente o número de vezes em que foi preciso deixar um pouco de lado a notória babaquice de Jobs - ora, não é para entender ""a cabeça de Jobs""? Não dá pra compartimentalizar não. Tudo contribui para isso.
Aliás, é preciso ir além da ""cabeça"" dele para entendê-lo - ou entender (o pouco que se pode fazê-lo) qualquer um, na verdade, uma briga que toda pessoa com uma visão mais ampla das coisas compra com uma certa psicologia turrona, mas vamos lá. Mesmo ao minimizar a babaquice de Jobs, o faz com colocações que só podem ser entendidas no contexto cultural do empreendedorismo liberal: Todo mundo reclamava da relação com Jobs, mas sentiram que passaram por uma experiência incrível ao trabalhar com ele (o pessoal que trabalhou com Jordan Belfort também, tenho certeza). Tudo bem ser idiota com os outros, afinal Jobs só queria excelência - não, sério, essa é uma _lição_ do livro (p. 160): ""Ser um idiota não tem importância, contanto que você tenha paixão pela coisa"". Fuck you too, sir!
De qualquer forma, uma leitura leve se você ignorar a tentativa de extrair ""lições"" da vida dele, com uma pitada bem informada de história da Apple. Algumas pessoas vão gostar mais, mas pra mim está só ""ok""."

O livro tem 475 páginas, embora a leitura mesmo só vá até a 427 (o resto são notas, etc). No entanto as margens e as letras são pequenas, e a página em si é grande; o sentimento é o de ler 1000 páginas, e na tela de um celular ainda é mais lento ainda. Por isso demorei quase 5 meses para ler esse livro (considerando que li outros durante a leitura desse, e que passei dias por vez sem lê-lo), mas valeu a pena.
O livro é de história militar, mas a prosa é poética e muito bem escrita; para além disso, é inteligentíssima e traz para o cientista social um ponto de vista que complementa e aumenta o alcance da percepção sobre os acontecimentos da ""Grande Guerra"". São tantas coisas, tantos detalhes da experiência de ler esse livro que não dá nem pra descrever - da loucura de ler sobre as quantidades, sobre os desenvolvimentos, sobre a política por detrás das decisões dos generais, sobre... Sobre tudo.
Esse livro transforma a Primeira Guerra Mundial num épico brilhante; se a Segunda Guerra fosse um filme (e que cansamos de ver, com tanto que se tem pra falar sobre ela), esse livro apresenta a Primeira num ""prequel"" que, ao contrário de muitos prequels cinematográficos que são um saco, faz muita justiça ao filme original e, com contundência e profundidade, se transforma numa criatura com vida própria que é das mais incríveis. Incrível!
O livro tem 475 páginas, embora a leitura mesmo só vá até a 427 (o resto são notas, etc). No entanto as margens e as letras são pequenas, e a página em si é grande; o sentimento é o de ler 1000 páginas, e na tela de um celular ainda é mais lento ainda. Por isso demorei quase 5 meses para ler esse livro (considerando que li outros durante a leitura desse, e que passei dias por vez sem lê-lo), mas valeu a pena.
O livro é de história militar, mas a prosa é poética e muito bem escrita; para além disso, é inteligentíssima e traz para o cientista social um ponto de vista que complementa e aumenta o alcance da percepção sobre os acontecimentos da ""Grande Guerra"". São tantas coisas, tantos detalhes da experiência de ler esse livro que não dá nem pra descrever - da loucura de ler sobre as quantidades, sobre os desenvolvimentos, sobre a política por detrás das decisões dos generais, sobre... Sobre tudo.
Esse livro transforma a Primeira Guerra Mundial num épico brilhante; se a Segunda Guerra fosse um filme (e que cansamos de ver, com tanto que se tem pra falar sobre ela), esse livro apresenta a Primeira num ""prequel"" que, ao contrário de muitos prequels cinematográficos que são um saco, faz muita justiça ao filme original e, com contundência e profundidade, se transforma numa criatura com vida própria que é das mais incríveis. Incrível!