

Um livro foda. Simplesmente foda. Ele dá uma volta tão completa lá pela metade que até parecem duas histórias, mas afinal o título faz referência às intermitência_s_, várias, várias. Aliás, duas histórias pois uma é mais como o Ensaio sobre a Cegueira e a outra é mais como... Bem... Como um romance romântico _muito_ bem feito, _muito_ gostoso de ler e de arrancar uns sorrisos de arranhar a espinha --- sorrisos e risos, na verdade, sorrisos e risos que fazem a gente pensar "Saramaaaago, miniiiinu, onde que cê tá iiindo, veeelho?". Enfim, um livro favoritado e cinco-estrelado, mas ainda tem suas coisas que, dessa perspectiva brasileira e específica, não dá pra superar. Não, nunca vou gostar de verdade dos diálogos dele, separados por vírgulas e marcados por letras maiúsculas. Entendo e até aprecio a dinâmica no final das contas, mas me irrito irremediavelmente. E, bem, eu achei o final muito, muito, _muito_ mais interessante em termos de coisas que dá pra pensar; enfim, o anglófono (porcamente traduzível apenas) "food for thought". Ainda assim (a despeito disso), eu adoraria ver uma revelação fatalista. De uma forma ou de outra, absolutamente fantástico. Ah, e, claro, sem falar da conversa entre a dona morte e a 'gadanha'. Fenomenal!
Um livro foda. Simplesmente foda. Ele dá uma volta tão completa lá pela metade que até parecem duas histórias, mas afinal o título faz referência às intermitência_s_, várias, várias. Aliás, duas histórias pois uma é mais como o Ensaio sobre a Cegueira e a outra é mais como... Bem... Como um romance romântico _muito_ bem feito, _muito_ gostoso de ler e de arrancar uns sorrisos de arranhar a espinha --- sorrisos e risos, na verdade, sorrisos e risos que fazem a gente pensar "Saramaaaago, miniiiinu, onde que cê tá iiindo, veeelho?". Enfim, um livro favoritado e cinco-estrelado, mas ainda tem suas coisas que, dessa perspectiva brasileira e específica, não dá pra superar. Não, nunca vou gostar de verdade dos diálogos dele, separados por vírgulas e marcados por letras maiúsculas. Entendo e até aprecio a dinâmica no final das contas, mas me irrito irremediavelmente. E, bem, eu achei o final muito, muito, _muito_ mais interessante em termos de coisas que dá pra pensar; enfim, o anglófono (porcamente traduzível apenas) "food for thought". Ainda assim (a despeito disso), eu adoraria ver uma revelação fatalista. De uma forma ou de outra, absolutamente fantástico. Ah, e, claro, sem falar da conversa entre a dona morte e a 'gadanha'. Fenomenal!

É um livro com mais pontos negativos do que positivos, pra ser sincero. Não gostei do estilo dele. At all. Pobre, repetitivo, óbvio e vulgar (no sentido de não ser (nada) sutil). Não gostei dos personagens; alguns inconsistentes (o que algumas vezes se relaciona a uma inconsistência em relação à história mesmo), outros chatos; todos bidimensionais, rasos. Toda a história de Lorien e Mogadore é maniqueísta, porcamente rascunhada, com culturas arbitrariamente desenhadas e um ambientalismo totalmente forçado.
Por outro lado, o que me impede de dar uma ou duas estrelas é que, apesar da mistura de aliens (cujo uso na tradução brasileira fica bem pouco natural) com magia ser esquisita de um jeito levemente ruim (seja porque é mal executada ou porque ignora uma certa consistência de universos alternativos - isso não vem ao caso), a trama é particularmente envolvente. A questão de que você só pode matá-los em sequência e tal. É uma premissa original e bem interessante, mas que poderia ser melhor aproveitada em outros contextos. Espionagem internacional, vingança (como em Kill Bill, embora nesse caso a ordem da matança foi uma vontade, não uma necessidade), um serial killer peculiar, etc. O outro ponto alto é a dinâmica e a vivacidade que as batalhas transmitem. É definitivamente um aspecto positivo do livro, e as últimas 70 páginas --- com a exceção das últimas ~10, que voltam a ser bem ruins --- são bem empolgantes.
É um livro com mais pontos negativos do que positivos, pra ser sincero. Não gostei do estilo dele. At all. Pobre, repetitivo, óbvio e vulgar (no sentido de não ser (nada) sutil). Não gostei dos personagens; alguns inconsistentes (o que algumas vezes se relaciona a uma inconsistência em relação à história mesmo), outros chatos; todos bidimensionais, rasos. Toda a história de Lorien e Mogadore é maniqueísta, porcamente rascunhada, com culturas arbitrariamente desenhadas e um ambientalismo totalmente forçado.
Por outro lado, o que me impede de dar uma ou duas estrelas é que, apesar da mistura de aliens (cujo uso na tradução brasileira fica bem pouco natural) com magia ser esquisita de um jeito levemente ruim (seja porque é mal executada ou porque ignora uma certa consistência de universos alternativos - isso não vem ao caso), a trama é particularmente envolvente. A questão de que você só pode matá-los em sequência e tal. É uma premissa original e bem interessante, mas que poderia ser melhor aproveitada em outros contextos. Espionagem internacional, vingança (como em Kill Bill, embora nesse caso a ordem da matança foi uma vontade, não uma necessidade), um serial killer peculiar, etc. O outro ponto alto é a dinâmica e a vivacidade que as batalhas transmitem. É definitivamente um aspecto positivo do livro, e as últimas 70 páginas --- com a exceção das últimas ~10, que voltam a ser bem ruins --- são bem empolgantes.

Um livro incrível do início ao fim, com ideias fundamentais para qualquer linguista (é claro), mas também para pessoas interessadas em linguagem e para professores de inglês (ou de línguas). Além disso, é bastante claro e didático --- não é um livro técnico, podendo ser lido por praticamente qualquer leigo --- e gostoso de ler.
Um livro incrível do início ao fim, com ideias fundamentais para qualquer linguista (é claro), mas também para pessoas interessadas em linguagem e para professores de inglês (ou de línguas). Além disso, é bastante claro e didático --- não é um livro técnico, podendo ser lido por praticamente qualquer leigo --- e gostoso de ler.

Literariamente falando, o livro é um pé no saco. Ou seja, em termos de entretenimento ele é bastante chato de ler, atravancado. Toda a trama é apenas uma conversa, que mais que rapidamente transforma-se em monólogon enfadonho.
O que se pode depreender é que a proposta foi criar uma ficção (que revelou-se vulgar no sentido Nietzscheano) para um folheto político. O programa político de Utopia vê-se como uma crítica às práticas da época --- e o contra-ataque simbólico foi ter transformado Utopia não apenas em terra que não existe, mas que nunca existirá. Uma das críticas transversais do ""folheto"" (ou seja, que não são pontuais, mas que atravessam como tema todo o livro) é a preeminência do público sobre o individual, sendo que a população ou sua instituição prática racionalizada, um parlamento democrático (ainda que a figura do príncipe subsista) regulariam quase todo aspecto da vida individual. Uma forma de disciplina e sanitização foucaultiana deixa-se ver nas aspirações de que, em seus momentos de lazer, os indivíduos façam apenas aquilo que lhes seja proveitoso, saudável e que faça bem para a mente e o corpo como um todo.
Outras coisas pulam aos olhos: apesar da crítica, a perspectiva ainda está bastante circunscrita aos preceitos da época. Portanto, a religião ""ideal"" de Utopia é um cristianismo tolerante e curioso, com um sacerdócio mais aberto, artístico e responsável --- podemos dizer que o catolicismo, até certo ponto, incorporou essa visão ""utópica"" de religião nele, ainda que não completamente. Antes do casamento, os noivos devem se ver pelados perante todo o público, para que se descubram como são antes do casamento --- só que, ainda assim, a proposta não é que façam sexo (isso seria demais escandaloso, não?), apenas que se vejam nus. Os homens têm mais importância e agência que as mulheres, embora algumas novidades sejam introduzidas. Em Utopia, todos os homens são iguais e dignos de liberdade e participação pública --- exceto escravos, que ainda são vistos como pessoas indignas. O interessante é que uma das formas de se tornar escravo é cometendo alguns crimes ""pesados"", de modo que se vê não apenas o modo inflexível como se observa a natureza do homem como também o quão ameaçadoras e terríveis são as punições, tidas como o maior e mais efetivo instrumento de controle social --- que, espera fazer ver o autor, são ótimas quando empregadas para uma constituição perfeita e boníssima.
Além disso, é notável que (como se pode supor através da presença das punições e das ameaças) Utopia não é um país perfeito na acepção situacionista do termo, ou seja, não é que seja uma situação perfeita e imaculada. Na verdade, de perfeição é dotado o mecanismo esculpido para lidar com as partes negativas da experiência humana, de forma tal que não é que em Utopia não haja criminosos, mas se faz de tudo para que as pessoas não precisem cometer crimes e, através das punições, não sejam estimuladas a fazê-lo --- dessa forma, minimizando o crime ao máximo. Isso nos faz ter cuidado ao usar a alcunha de utópico, e o sentido em que a ""perfeição"" é empregada nessa obra.
A pergunta quanto a se o autor gostaria de vê-la transformada em realidade ou não permanece, e mesmo que possa desvanecer com uma pesquisa por ele na Wikipédia, eu prefiro não descobrir para que a obra flutue independente no mar da percepção.
Literariamente falando, o livro é um pé no saco. Ou seja, em termos de entretenimento ele é bastante chato de ler, atravancado. Toda a trama é apenas uma conversa, que mais que rapidamente transforma-se em monólogon enfadonho.
O que se pode depreender é que a proposta foi criar uma ficção (que revelou-se vulgar no sentido Nietzscheano) para um folheto político. O programa político de Utopia vê-se como uma crítica às práticas da época --- e o contra-ataque simbólico foi ter transformado Utopia não apenas em terra que não existe, mas que nunca existirá. Uma das críticas transversais do ""folheto"" (ou seja, que não são pontuais, mas que atravessam como tema todo o livro) é a preeminência do público sobre o individual, sendo que a população ou sua instituição prática racionalizada, um parlamento democrático (ainda que a figura do príncipe subsista) regulariam quase todo aspecto da vida individual. Uma forma de disciplina e sanitização foucaultiana deixa-se ver nas aspirações de que, em seus momentos de lazer, os indivíduos façam apenas aquilo que lhes seja proveitoso, saudável e que faça bem para a mente e o corpo como um todo.
Outras coisas pulam aos olhos: apesar da crítica, a perspectiva ainda está bastante circunscrita aos preceitos da época. Portanto, a religião ""ideal"" de Utopia é um cristianismo tolerante e curioso, com um sacerdócio mais aberto, artístico e responsável --- podemos dizer que o catolicismo, até certo ponto, incorporou essa visão ""utópica"" de religião nele, ainda que não completamente. Antes do casamento, os noivos devem se ver pelados perante todo o público, para que se descubram como são antes do casamento --- só que, ainda assim, a proposta não é que façam sexo (isso seria demais escandaloso, não?), apenas que se vejam nus. Os homens têm mais importância e agência que as mulheres, embora algumas novidades sejam introduzidas. Em Utopia, todos os homens são iguais e dignos de liberdade e participação pública --- exceto escravos, que ainda são vistos como pessoas indignas. O interessante é que uma das formas de se tornar escravo é cometendo alguns crimes ""pesados"", de modo que se vê não apenas o modo inflexível como se observa a natureza do homem como também o quão ameaçadoras e terríveis são as punições, tidas como o maior e mais efetivo instrumento de controle social --- que, espera fazer ver o autor, são ótimas quando empregadas para uma constituição perfeita e boníssima.
Além disso, é notável que (como se pode supor através da presença das punições e das ameaças) Utopia não é um país perfeito na acepção situacionista do termo, ou seja, não é que seja uma situação perfeita e imaculada. Na verdade, de perfeição é dotado o mecanismo esculpido para lidar com as partes negativas da experiência humana, de forma tal que não é que em Utopia não haja criminosos, mas se faz de tudo para que as pessoas não precisem cometer crimes e, através das punições, não sejam estimuladas a fazê-lo --- dessa forma, minimizando o crime ao máximo. Isso nos faz ter cuidado ao usar a alcunha de utópico, e o sentido em que a ""perfeição"" é empregada nessa obra.
A pergunta quanto a se o autor gostaria de vê-la transformada em realidade ou não permanece, e mesmo que possa desvanecer com uma pesquisa por ele na Wikipédia, eu prefiro não descobrir para que a obra flutue independente no mar da percepção.

O livro é, de fato, muito bom. Só há duas coisas que eu gostaria que ele tivesse abordado de uma maneira diferente e/ou mais profunda, mas isso de forma alguma tira o mérito do livro porque ele faz o que se propõe a fazer de maneira magnífica.
A primeira coisa é quanto à questão do gene egoísta: achei muito mal tratada. O egoísmo significa que o gene quer desenvolver as melhores estratégias, mas isso a nivel genético. No nível da experiência, se isso significar colaboração, como é o nosso caso, tudo bem. A nomenclatura foi levada ao pé da letra e interpretada de maneira errônea (o que não quer dizer que o mesmo não aconteça em outros lugares também, o que é um problema): o egoísmo do gene não significa egoísmo nosso.
A segunda coisa é que, embora ele encoste nessa questão um pouco mais tarde, ele esquece um pouco da questão da consciência e de como isso pode ir de epifenômeno à causa: embora os instintos de sexo e comida expliquem a evolução dessas estratégias e enquanto elas ainda sejam importantes, os homens se dirigem também por valores. A interação entre esses valores e esses impulsos fisiológicos são importantes, de maneira que sempre vejo a experiência humana reduzida demais quando só se fala de comida e sexo quando temos o comportamento humano. Mas, é como ele disse: o livro é um contraponto. Se exagera, é porque já há muito exagero do outro lado da balança.
O livro é, de fato, muito bom. Só há duas coisas que eu gostaria que ele tivesse abordado de uma maneira diferente e/ou mais profunda, mas isso de forma alguma tira o mérito do livro porque ele faz o que se propõe a fazer de maneira magnífica.
A primeira coisa é quanto à questão do gene egoísta: achei muito mal tratada. O egoísmo significa que o gene quer desenvolver as melhores estratégias, mas isso a nivel genético. No nível da experiência, se isso significar colaboração, como é o nosso caso, tudo bem. A nomenclatura foi levada ao pé da letra e interpretada de maneira errônea (o que não quer dizer que o mesmo não aconteça em outros lugares também, o que é um problema): o egoísmo do gene não significa egoísmo nosso.
A segunda coisa é que, embora ele encoste nessa questão um pouco mais tarde, ele esquece um pouco da questão da consciência e de como isso pode ir de epifenômeno à causa: embora os instintos de sexo e comida expliquem a evolução dessas estratégias e enquanto elas ainda sejam importantes, os homens se dirigem também por valores. A interação entre esses valores e esses impulsos fisiológicos são importantes, de maneira que sempre vejo a experiência humana reduzida demais quando só se fala de comida e sexo quando temos o comportamento humano. Mas, é como ele disse: o livro é um contraponto. Se exagera, é porque já há muito exagero do outro lado da balança.

O interesse acadêmico pelo anarquismo foi revigorado, ainda que timidamente, após as agitações globais da década de 90. Desde então, desenvolveu-se uma dicotomia em torno de uma suposta descontinuidade no anarquismo. Para uns/umas, este teria basicamente morrido após a Revolução Espanhola (1936-1939), e então ressuscitado - com diferenças notáveis - na forma de neoanarquismo (Ibañez, 2014), ou “anarquismo com a minúsculo” (Graeber, 2009), ou pós-anarquismo (Newman, 2010), entre outros. Por outro lado, autores/as como Walt e Schmidt (2009) teorizam sobre um anarquismo de luta de classes que nunca deixou de influenciar eventos importantes, em escala global - mas tampouco tornou-se muito diferente do que era quando foi primeiro formulado no século XIX, o que exclui outros elementos que vieram Peterson Roberto da Silva92 a ser associados ao anarquismo, tanto naquela época quanto nos últimos 60 anos.
É neste contexto que surge The Government of No One (“O Governo de Ninguém”, em tradução livre), da politóloga britânica Ruth Kinna (2019). O livro não parece uma intervenção direta nessa disputa, mas qualquer introdução ao anarquismo, hoje, invariavelmente incide sobre ela. Não obstante, Kinna encontra sua própria forma de apresentar o anarquismo. Simples mas não simplista, a autora surpreende ao reformular interrogações clássicas e respondê-las de maneiras inesperadas.
Para não ignorar a materialidade da atividade acadêmica, algumas palavras sobre o livro como objeto: a edição é bem construída e tipografada (mas é preciso denunciar as notas: colocá-las no fim do livro é um atentado à curiosidade humana). O espaçamento das margens e entre as linhas faz com que a leitura, prazerosa no papel amarelado, flua rapidamente. Dois aspectos, no entanto, intrigam: o preço (em média £16.26, cerca de R$ 100,00 em março de 2020) e o estilo tão pouco característico. Afinal, iniciados esperariam um layout “transgressor”; fotos de militantes, de revoluções, de protestos - no mínimo, a preponderância de preto e vermelho. Não neste livro: de capa ciano e sobrecapa cor de trigo, as letras são sóbrias, e a iconografia se resume a cinco bandeiras relativamente genéricas. É claro que ambos os aspectos costumam estar fora do alcance da autora. Contudo, enquanto o primeiro é incidental - talvez o preço a pagar, literalmente, para um livro desta qualidade material, ainda que isto limite seu alcance até mesmo entre acadêmicas/os - o segundo representa o quão não-convencional é a abordagem de Kinna.
O livro é organizado por temas, embora certos “arcos narrativos” cronológicos subsistam ao longo da obra. Na breve introdução (“Anarquismo - mitos e realidades”), a autora descreve sua abordagem como “mais impressionista que ideológica”, por não desejar “sistematicamente analisar as formas como anarquistas entenderam as ideias de liberdade, igualdade e assim por diante”, e tampouco “demarcar as fronteiras do anarquismo” (Kinna, 2019: 8). Ela se distancia simultaneamente, assim, de um anarquismo “infinitamente poroso” (ela ativamente rejeita ideias como “anarquismo de mercado”, “anarco-capitalismo” e “anarco- nacionalismo”) quanto de abordagens mais focadas.
As consequências aparecem já no primeiro capítulo (“Tradições”). Para Kinna, foi a partir de três momentos decisivos - a Comuna de Paris (1871), a expulsão de Mikhail Bakunin da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) no Congresso de Haia (1872), e a Revolta de Haymarket, em Chicago (1886) - que o anarquismo começou a emergir como um movimento distinto. Porém, essa emergência “representou a cristalização de uma tradição política fluida que se estende para além dos limites históricos e geográficos que a ideologia assume” (Kinna, 2019: 12). Princípios defendidos por anarquistas reverberam pela história em diferentes culturas, mas estes princípios tomaram formas muito diferentes em contextos diferentes, e também foram defendidos (a varejo) por outras ideologias. E é por isso que o anarquismo é de fato algo específico no espaço e no tempo. As personalidades que mais contribuíram com seu formato particular desenvolveram suas ideias a partir de suas atividades no movimento, amplamente concebido (“quando anarquistas identificam notáveis entre as suas fileiras”, destaca Kinna (2019: 49), “eles/as geralmente se referem a uma dedicação e a um comprometimento extraordinários”, não necessariamente a quão certos estavam acerca das questões intelectuais). No entanto, a tradição também foi construída por seus/suas oponentes. Os vieses destes/as críticos/as causaram certos problemas - por exemplo, o próprio foco em “grandes indivíduos” em vez de nos movimentos nos quais eles estavam inseridos - mas eles/as foram cruciais na medida que, em sua repressão e consequente necessidade de compreensão daquilo que combatiam, imprimiram certa unidade e certas posturas ao que poderia de outro modo manter-se difuso (por exemplo, em um socialismo geral).
Esta perspectiva permite uma visão, como talvez colocaria Graeber (2001), menos baseada em “Parmênides” e mais em “Heráclito”; menos preocupada com objetos discretos (“o anarquismo começa aqui e termina ali”) que com potencialidades e deslocamentos contextualizados. Kinna não se propõe a dizer quem está “dentro” ou “fora” do anarquismo, e sim a analisar como diferentes atores e grupos se mobilizaram em diferentes circunstâncias (inclusive ao argumentar sobre fronteiras ideológicas - não só entre si, mas com e contra marxistas, republicanos/as, liberais) de modo a construir “um rico corpo literário, mas sem lei”: uma “abundância de líderes, ideias, propostas e iniciativas”, forjadas em lutas comuns, “sem deuses e sem mestres”.
No segundo capítulo, “Culturas”, Kinna analisa como anarquistas compreendem os mecanismos que estabilizam regimes políticos injustos, e como estes mecanismos - que são efetivamente “aprendidos”, e não naturalizados - podem ser substituídos por “culturas de anarquia” (Kinna, 2019: 58). Múltiplos sentidos de dominação são apresentados, e o fato de que o termo é entendido de várias formas leva também a uma variedade de críticas. Kinna decide enfatizar a relação entre dominação e lei, dominação e hierarquia, e dominação e conquista.
A lei domina, entre outras razões, por “terceirizar” o julgamento individual e entrincheirar desigualdades; a não- dominação, nesse caso, envolve “um processo de interação humana dirigido por indivíduos que lutam para se governar de certas maneiras ao mesmo tempo em que permanecem firmes contra a tentação de governar através da imposição de leis” (Kinna, 2019: 68). No caso da hierarquia, Kinna analisa a relação entre verdade, hábito, privilégio e o direito de comandar. Apesar das divergências, por exemplo, entre Bakunin e Leo Tolstoy, Kinna (2019: 75) conclui que “a não-dominação flui a partir da desobediência e empodera indivíduos para que façam somente o que acreditam ser correto, e resistam o que entendam ser errado”. No caso da conquista, a autora analisa a violência colonizadora, que é “experimentada por diferentes pessoas em diferentes formas mas é integral tanto à territorialização dos Estados europeus quanto à apropriação subsequente de terras não- europeias” (Kinna, 2019: 77). A dominação que advém da colonização destrói culturas autônomas, “estendendo regimes de propriedade privada através da guerra”, tendo como efeito “desigualdades estruturais” que se projetaram em “racismo e supremacismo” (Kinna, 2019: 79). O resto do capítulo é dedicado a descrever reflexões anarquistas sobre educação, 2 Nº 6 | 2º Sem/2020 | ISSN 2676-0619 propaganda e compartilhamento de conhecimento.
O terceiro capítulo, “Práticas”, é dedicado à análise das formas como anarquistas “têm tentado disseminar culturas de não-dominação” (Kinna, 2019: 115). É aqui que a autora discute divisões internas. Em dois úteis gráficos (nas páginas 128 e 147) diferentes correntes anarquistas se contrastam quanto às suas posições acerca do debate entre “evolução” e “revolução”, bem como a disputa pela necessidade de organização formal - embora os agrupamentos sejam diferentes nos dois gráficos, pois no segundo, o debate é transposto para um linguajar contemporâneo (os debates entre “não- violência” e “diversidade tática”; entre “socialismo” e “individualismo”). O segundo gráfico também incorpora uma tipologia de correntes anarquistas contemporâneas. Kinna (2019: 134-149) identifica e descreve seis: anarquismo insurrecionário, anarquismo de luta de classes, anarquismo pós-esquerda, anarquismo social, pós-anarquismo e anarquismo com a minúsculo. O debate sobre classe e interseccionalidade descreve não só os grupos que se constituíram como alvos prioritários do ativismo anarquista desde os anos 60, mas como diferentes correntes têm articulado a relação entre as diversas opressões e dominações sociais.
O quarto capítulo, “Condições”, lida com os “testes mínimos” que muitas/os anarquistas estabeleceram para suas próprias interações (Kinna, 2019: 177). A autora lida primeiro com constituições: propostas de organização, mais ou menos teóricas ou postas em prática, que incorporam princípios anarquistas em seu funcionamento. Kinna estuda quatro tais propostas, duas consideradas individualistas, e duas, comunistas. Na primeira categoria estão “O Plano de Campanha Anarquista”, uma constituição econômica e política proposta pelo australiano David Andrade em 1888, e a “Constituição do Clube Anarquista de Boston”, colocada em prática a partir de 1887 pelo clube em questão, tendo sido publicada em um livro de Victor Yarros. Na segunda categoria estão a famosa Plataforma, do grupo de expatriados makhnovistas Dyelo Truda, e a Comuna de Teruel durante a Revolução Espanhola. Kinna (2019: 199-200) analisa adequadamente o que distancia ambas as categorias, mas ressalta que ambas são suficientemente anarquistas em contraste com alternativas; enquanto liberais, por exemplo, pressupõem “um corpo que toma decisões finais [...] e possui meios[...] para garantir seu cumprimento”, bem como “o poder de punição de um juiz”, tanto individualistas quanto comunistas rechaçavam tal “ponto final de autoridade” (Kinna, 2019: 203). O resto do capítulo é dedicado à análise do papel das utopias e à relação entre as ideias de democracia e anarquismo, com especial ênfase à teoria de Murray Bookchin e a emergência de processos decisórios com base em consenso. Ele é encerrado com a tensão entre a imaginação de um futuro ácrata e o quanto isso em si implica um planejamento social em nome de terceiros (algo a ser evitado em nome da autonomia). Como colocado no segundo capítulo, “enquanto culturas estatistas davam a intelectuais a tarefa de decidir o que era melhor para o avanço social, uma cultura anarquista daria às pessoas locais o poder de determinar como gostariam de viver” (Kinna, 2019: 108).
O quinto capítulo se chama “Prospectos”. Kinna considera que avaliar corretamente o passado anarquista - cujo sucesso é fraseado principalmente em termos de resiliência - leva a uma melhor apreciação do que se pode esperar de seu futuro. A autora assim afirma que a perspectiva estatista (como o anarquismo substituiria o papel que o Estado exerce hoje?) deve ser ultrapassada por uma de “anarquização”: “o desafio prático é como encorajar grupos e indivíduos a alterar arranjos que eles possam até considerar benéficos, embora reconheçam que operem de formas imperfeitas e com frequência alienantes”, de modo a superar sistemas de dominação (Kinna, 2019: 254). Dois métodos são apontados: o “convergente” e o “disjuntivo”. Através do primeiro, anarquistas constroem coalizões em prol de certos objetivos apelando para comunalidades entre as pessoas - como um certo senso moral. O segundo, crítico da maneira como o primeiro pode levar à complacência ou à diluição de propostas especificamente anarquistas em um meio essencialmente estruturado pelo conservadorismo, deseja produzir formas alternativas (e especificamente contestatórias, divergentes) de sociabilidade, que possam confrontar o status quo (embora este, apontariam críticas/os que tendem ao primeiro método, pode criar subculturas que limitam a anarquização para além das/os iniciadas/os). Após uma reflexão sobre o esforço prático necessário em direção a um objetivo palpável e pragmático - anarquizar as relações sociais tanto quanto possível - o livro é concluído com uma lista de pequenas biografias das pessoas citadas, notas, indicações de leitura, índice, e dez misteriosas páginas em branco.
Há algumas razões pelas quais a abordagem de Kinna neste livro é tão pouco convencional quanto sua capa. Em relação ao dilema atual das caracterizações do anarquismo, ela rejeita narrativas de descontinuidade - embora aqui não haja surpresa, já que ela já havia feito isso antes (Evren e Kinna, 2015; Kinna, 2017) - mas a continuidade endossada é mais abrangente que a do anarquismo de luta de classes (sem que isso implique abraçar contradições do século XX, como “anarquismos” que não sejam anticapitalistas). A dicotomia não é abordada diretamente, mas reaparece em outras fraturas - por exemplo, nas diferenças entre constituições individualistas e comunistas - e no entanto um quadro suficientemente coeso emerge das divergências (que, aliás, toda tradição política possui): um quadro de temas e motivações comuns em meio à diversidade.
Não só a transnacionalidade da atuação anarquista é enfatizada, como o livro também entremeia “grandes autores/as” a figuras (e coletividades) menos conhecidas, com certa abrangência geográfica - não há como elogiar este aspecto do livro o bastante! Evitar as mesmas citações e a preponderância dos mesmos rostos de sempre produz uma leitura simultaneamente mais informativa e mais divertida. A vivacidade da tradição é reconhecida não só na forma como seu passado é retratado, mas, por exemplo, na perspectiva de que ainda há avanços a serem alcançados quanto à situação das mulheres no movimento, ou ao seu eurocentrismo.
Kinna consegue explorar o que dá impulso à tradição - os objetos de sua crítica, seus métodos, suas perspectivas. Aborda e defende suas perspectivas analíticas, mas frequentemente no contexto daquilo que se desejava alcançar; ancora-as em experiências práticas. Expõe sua diversidade interna de forma balanceada e reforma os critérios pelos quais o movimento pode se compreender: quase todos os temas clássicos e contemporâneos estão presentes, embora às vezes é difícil vê- los com clareza, pois são realinhados com outros enfoques – a partir de pontos de vista transversais, de onde se pode descobrir novas formas de conceber e descrever a tradição.
Há algumas pequenas negligências, talvez por motivo de concisão, causando graus variados de decepção (a ruptura de Bookchin com o anarquismo; as considerações de Peter Gelderloos sobre a não-violência; um distanciamento maior em relação a Murray Rothbard que estivesse no texto principal, não na lista de biografias; o anarquismo sem adjetivos – que, novamente, só aparece na lista de biografias). Além disso, embora o último capítulo seja o menor e termine bem, quase ficamos com a impressão de que havia uma “conclusão” propriamente dita, que foi suprimida. Uma recuperação sintética dos argumentos dos outros capítulos, introduzindo os últimos parágrafos como estão, não faria mal.
Em termos de conteúdo, no entanto, as ausências mais conspícuas são uma reflexão sobre o sindicalismo contemporâneo (por exemplo, em relação à peculiar situação da própria ideia de trabalho na última década) e, acima de tudo, uma análise da ideia de revolução (esta ausente até mesmo do índice): não está evidente, a partir da leitura, se devemos entendê-la como coincidência entre as táticas convergentes e disjuntivas, ou se deveríamos abandonar o conceito em nome da “anarquização”. De todo modo, é uma perda para nós que isto não tenha recebido atenção, pois considerando a maestria da autora, ganharíamos muito se ela também fosse aplicada a estes dois elementos, no contexto dessa abordagem.
Originally posted at revistas.ufrj.br.
O interesse acadêmico pelo anarquismo foi revigorado, ainda que timidamente, após as agitações globais da década de 90. Desde então, desenvolveu-se uma dicotomia em torno de uma suposta descontinuidade no anarquismo. Para uns/umas, este teria basicamente morrido após a Revolução Espanhola (1936-1939), e então ressuscitado - com diferenças notáveis - na forma de neoanarquismo (Ibañez, 2014), ou “anarquismo com a minúsculo” (Graeber, 2009), ou pós-anarquismo (Newman, 2010), entre outros. Por outro lado, autores/as como Walt e Schmidt (2009) teorizam sobre um anarquismo de luta de classes que nunca deixou de influenciar eventos importantes, em escala global - mas tampouco tornou-se muito diferente do que era quando foi primeiro formulado no século XIX, o que exclui outros elementos que vieram Peterson Roberto da Silva92 a ser associados ao anarquismo, tanto naquela época quanto nos últimos 60 anos.
É neste contexto que surge The Government of No One (“O Governo de Ninguém”, em tradução livre), da politóloga britânica Ruth Kinna (2019). O livro não parece uma intervenção direta nessa disputa, mas qualquer introdução ao anarquismo, hoje, invariavelmente incide sobre ela. Não obstante, Kinna encontra sua própria forma de apresentar o anarquismo. Simples mas não simplista, a autora surpreende ao reformular interrogações clássicas e respondê-las de maneiras inesperadas.
Para não ignorar a materialidade da atividade acadêmica, algumas palavras sobre o livro como objeto: a edição é bem construída e tipografada (mas é preciso denunciar as notas: colocá-las no fim do livro é um atentado à curiosidade humana). O espaçamento das margens e entre as linhas faz com que a leitura, prazerosa no papel amarelado, flua rapidamente. Dois aspectos, no entanto, intrigam: o preço (em média £16.26, cerca de R$ 100,00 em março de 2020) e o estilo tão pouco característico. Afinal, iniciados esperariam um layout “transgressor”; fotos de militantes, de revoluções, de protestos - no mínimo, a preponderância de preto e vermelho. Não neste livro: de capa ciano e sobrecapa cor de trigo, as letras são sóbrias, e a iconografia se resume a cinco bandeiras relativamente genéricas. É claro que ambos os aspectos costumam estar fora do alcance da autora. Contudo, enquanto o primeiro é incidental - talvez o preço a pagar, literalmente, para um livro desta qualidade material, ainda que isto limite seu alcance até mesmo entre acadêmicas/os - o segundo representa o quão não-convencional é a abordagem de Kinna.
O livro é organizado por temas, embora certos “arcos narrativos” cronológicos subsistam ao longo da obra. Na breve introdução (“Anarquismo - mitos e realidades”), a autora descreve sua abordagem como “mais impressionista que ideológica”, por não desejar “sistematicamente analisar as formas como anarquistas entenderam as ideias de liberdade, igualdade e assim por diante”, e tampouco “demarcar as fronteiras do anarquismo” (Kinna, 2019: 8). Ela se distancia simultaneamente, assim, de um anarquismo “infinitamente poroso” (ela ativamente rejeita ideias como “anarquismo de mercado”, “anarco-capitalismo” e “anarco- nacionalismo”) quanto de abordagens mais focadas.
As consequências aparecem já no primeiro capítulo (“Tradições”). Para Kinna, foi a partir de três momentos decisivos - a Comuna de Paris (1871), a expulsão de Mikhail Bakunin da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) no Congresso de Haia (1872), e a Revolta de Haymarket, em Chicago (1886) - que o anarquismo começou a emergir como um movimento distinto. Porém, essa emergência “representou a cristalização de uma tradição política fluida que se estende para além dos limites históricos e geográficos que a ideologia assume” (Kinna, 2019: 12). Princípios defendidos por anarquistas reverberam pela história em diferentes culturas, mas estes princípios tomaram formas muito diferentes em contextos diferentes, e também foram defendidos (a varejo) por outras ideologias. E é por isso que o anarquismo é de fato algo específico no espaço e no tempo. As personalidades que mais contribuíram com seu formato particular desenvolveram suas ideias a partir de suas atividades no movimento, amplamente concebido (“quando anarquistas identificam notáveis entre as suas fileiras”, destaca Kinna (2019: 49), “eles/as geralmente se referem a uma dedicação e a um comprometimento extraordinários”, não necessariamente a quão certos estavam acerca das questões intelectuais). No entanto, a tradição também foi construída por seus/suas oponentes. Os vieses destes/as críticos/as causaram certos problemas - por exemplo, o próprio foco em “grandes indivíduos” em vez de nos movimentos nos quais eles estavam inseridos - mas eles/as foram cruciais na medida que, em sua repressão e consequente necessidade de compreensão daquilo que combatiam, imprimiram certa unidade e certas posturas ao que poderia de outro modo manter-se difuso (por exemplo, em um socialismo geral).
Esta perspectiva permite uma visão, como talvez colocaria Graeber (2001), menos baseada em “Parmênides” e mais em “Heráclito”; menos preocupada com objetos discretos (“o anarquismo começa aqui e termina ali”) que com potencialidades e deslocamentos contextualizados. Kinna não se propõe a dizer quem está “dentro” ou “fora” do anarquismo, e sim a analisar como diferentes atores e grupos se mobilizaram em diferentes circunstâncias (inclusive ao argumentar sobre fronteiras ideológicas - não só entre si, mas com e contra marxistas, republicanos/as, liberais) de modo a construir “um rico corpo literário, mas sem lei”: uma “abundância de líderes, ideias, propostas e iniciativas”, forjadas em lutas comuns, “sem deuses e sem mestres”.
No segundo capítulo, “Culturas”, Kinna analisa como anarquistas compreendem os mecanismos que estabilizam regimes políticos injustos, e como estes mecanismos - que são efetivamente “aprendidos”, e não naturalizados - podem ser substituídos por “culturas de anarquia” (Kinna, 2019: 58). Múltiplos sentidos de dominação são apresentados, e o fato de que o termo é entendido de várias formas leva também a uma variedade de críticas. Kinna decide enfatizar a relação entre dominação e lei, dominação e hierarquia, e dominação e conquista.
A lei domina, entre outras razões, por “terceirizar” o julgamento individual e entrincheirar desigualdades; a não- dominação, nesse caso, envolve “um processo de interação humana dirigido por indivíduos que lutam para se governar de certas maneiras ao mesmo tempo em que permanecem firmes contra a tentação de governar através da imposição de leis” (Kinna, 2019: 68). No caso da hierarquia, Kinna analisa a relação entre verdade, hábito, privilégio e o direito de comandar. Apesar das divergências, por exemplo, entre Bakunin e Leo Tolstoy, Kinna (2019: 75) conclui que “a não-dominação flui a partir da desobediência e empodera indivíduos para que façam somente o que acreditam ser correto, e resistam o que entendam ser errado”. No caso da conquista, a autora analisa a violência colonizadora, que é “experimentada por diferentes pessoas em diferentes formas mas é integral tanto à territorialização dos Estados europeus quanto à apropriação subsequente de terras não- europeias” (Kinna, 2019: 77). A dominação que advém da colonização destrói culturas autônomas, “estendendo regimes de propriedade privada através da guerra”, tendo como efeito “desigualdades estruturais” que se projetaram em “racismo e supremacismo” (Kinna, 2019: 79). O resto do capítulo é dedicado a descrever reflexões anarquistas sobre educação, 2 Nº 6 | 2º Sem/2020 | ISSN 2676-0619 propaganda e compartilhamento de conhecimento.
O terceiro capítulo, “Práticas”, é dedicado à análise das formas como anarquistas “têm tentado disseminar culturas de não-dominação” (Kinna, 2019: 115). É aqui que a autora discute divisões internas. Em dois úteis gráficos (nas páginas 128 e 147) diferentes correntes anarquistas se contrastam quanto às suas posições acerca do debate entre “evolução” e “revolução”, bem como a disputa pela necessidade de organização formal - embora os agrupamentos sejam diferentes nos dois gráficos, pois no segundo, o debate é transposto para um linguajar contemporâneo (os debates entre “não- violência” e “diversidade tática”; entre “socialismo” e “individualismo”). O segundo gráfico também incorpora uma tipologia de correntes anarquistas contemporâneas. Kinna (2019: 134-149) identifica e descreve seis: anarquismo insurrecionário, anarquismo de luta de classes, anarquismo pós-esquerda, anarquismo social, pós-anarquismo e anarquismo com a minúsculo. O debate sobre classe e interseccionalidade descreve não só os grupos que se constituíram como alvos prioritários do ativismo anarquista desde os anos 60, mas como diferentes correntes têm articulado a relação entre as diversas opressões e dominações sociais.
O quarto capítulo, “Condições”, lida com os “testes mínimos” que muitas/os anarquistas estabeleceram para suas próprias interações (Kinna, 2019: 177). A autora lida primeiro com constituições: propostas de organização, mais ou menos teóricas ou postas em prática, que incorporam princípios anarquistas em seu funcionamento. Kinna estuda quatro tais propostas, duas consideradas individualistas, e duas, comunistas. Na primeira categoria estão “O Plano de Campanha Anarquista”, uma constituição econômica e política proposta pelo australiano David Andrade em 1888, e a “Constituição do Clube Anarquista de Boston”, colocada em prática a partir de 1887 pelo clube em questão, tendo sido publicada em um livro de Victor Yarros. Na segunda categoria estão a famosa Plataforma, do grupo de expatriados makhnovistas Dyelo Truda, e a Comuna de Teruel durante a Revolução Espanhola. Kinna (2019: 199-200) analisa adequadamente o que distancia ambas as categorias, mas ressalta que ambas são suficientemente anarquistas em contraste com alternativas; enquanto liberais, por exemplo, pressupõem “um corpo que toma decisões finais [...] e possui meios[...] para garantir seu cumprimento”, bem como “o poder de punição de um juiz”, tanto individualistas quanto comunistas rechaçavam tal “ponto final de autoridade” (Kinna, 2019: 203). O resto do capítulo é dedicado à análise do papel das utopias e à relação entre as ideias de democracia e anarquismo, com especial ênfase à teoria de Murray Bookchin e a emergência de processos decisórios com base em consenso. Ele é encerrado com a tensão entre a imaginação de um futuro ácrata e o quanto isso em si implica um planejamento social em nome de terceiros (algo a ser evitado em nome da autonomia). Como colocado no segundo capítulo, “enquanto culturas estatistas davam a intelectuais a tarefa de decidir o que era melhor para o avanço social, uma cultura anarquista daria às pessoas locais o poder de determinar como gostariam de viver” (Kinna, 2019: 108).
O quinto capítulo se chama “Prospectos”. Kinna considera que avaliar corretamente o passado anarquista - cujo sucesso é fraseado principalmente em termos de resiliência - leva a uma melhor apreciação do que se pode esperar de seu futuro. A autora assim afirma que a perspectiva estatista (como o anarquismo substituiria o papel que o Estado exerce hoje?) deve ser ultrapassada por uma de “anarquização”: “o desafio prático é como encorajar grupos e indivíduos a alterar arranjos que eles possam até considerar benéficos, embora reconheçam que operem de formas imperfeitas e com frequência alienantes”, de modo a superar sistemas de dominação (Kinna, 2019: 254). Dois métodos são apontados: o “convergente” e o “disjuntivo”. Através do primeiro, anarquistas constroem coalizões em prol de certos objetivos apelando para comunalidades entre as pessoas - como um certo senso moral. O segundo, crítico da maneira como o primeiro pode levar à complacência ou à diluição de propostas especificamente anarquistas em um meio essencialmente estruturado pelo conservadorismo, deseja produzir formas alternativas (e especificamente contestatórias, divergentes) de sociabilidade, que possam confrontar o status quo (embora este, apontariam críticas/os que tendem ao primeiro método, pode criar subculturas que limitam a anarquização para além das/os iniciadas/os). Após uma reflexão sobre o esforço prático necessário em direção a um objetivo palpável e pragmático - anarquizar as relações sociais tanto quanto possível - o livro é concluído com uma lista de pequenas biografias das pessoas citadas, notas, indicações de leitura, índice, e dez misteriosas páginas em branco.
Há algumas razões pelas quais a abordagem de Kinna neste livro é tão pouco convencional quanto sua capa. Em relação ao dilema atual das caracterizações do anarquismo, ela rejeita narrativas de descontinuidade - embora aqui não haja surpresa, já que ela já havia feito isso antes (Evren e Kinna, 2015; Kinna, 2017) - mas a continuidade endossada é mais abrangente que a do anarquismo de luta de classes (sem que isso implique abraçar contradições do século XX, como “anarquismos” que não sejam anticapitalistas). A dicotomia não é abordada diretamente, mas reaparece em outras fraturas - por exemplo, nas diferenças entre constituições individualistas e comunistas - e no entanto um quadro suficientemente coeso emerge das divergências (que, aliás, toda tradição política possui): um quadro de temas e motivações comuns em meio à diversidade.
Não só a transnacionalidade da atuação anarquista é enfatizada, como o livro também entremeia “grandes autores/as” a figuras (e coletividades) menos conhecidas, com certa abrangência geográfica - não há como elogiar este aspecto do livro o bastante! Evitar as mesmas citações e a preponderância dos mesmos rostos de sempre produz uma leitura simultaneamente mais informativa e mais divertida. A vivacidade da tradição é reconhecida não só na forma como seu passado é retratado, mas, por exemplo, na perspectiva de que ainda há avanços a serem alcançados quanto à situação das mulheres no movimento, ou ao seu eurocentrismo.
Kinna consegue explorar o que dá impulso à tradição - os objetos de sua crítica, seus métodos, suas perspectivas. Aborda e defende suas perspectivas analíticas, mas frequentemente no contexto daquilo que se desejava alcançar; ancora-as em experiências práticas. Expõe sua diversidade interna de forma balanceada e reforma os critérios pelos quais o movimento pode se compreender: quase todos os temas clássicos e contemporâneos estão presentes, embora às vezes é difícil vê- los com clareza, pois são realinhados com outros enfoques – a partir de pontos de vista transversais, de onde se pode descobrir novas formas de conceber e descrever a tradição.
Há algumas pequenas negligências, talvez por motivo de concisão, causando graus variados de decepção (a ruptura de Bookchin com o anarquismo; as considerações de Peter Gelderloos sobre a não-violência; um distanciamento maior em relação a Murray Rothbard que estivesse no texto principal, não na lista de biografias; o anarquismo sem adjetivos – que, novamente, só aparece na lista de biografias). Além disso, embora o último capítulo seja o menor e termine bem, quase ficamos com a impressão de que havia uma “conclusão” propriamente dita, que foi suprimida. Uma recuperação sintética dos argumentos dos outros capítulos, introduzindo os últimos parágrafos como estão, não faria mal.
Em termos de conteúdo, no entanto, as ausências mais conspícuas são uma reflexão sobre o sindicalismo contemporâneo (por exemplo, em relação à peculiar situação da própria ideia de trabalho na última década) e, acima de tudo, uma análise da ideia de revolução (esta ausente até mesmo do índice): não está evidente, a partir da leitura, se devemos entendê-la como coincidência entre as táticas convergentes e disjuntivas, ou se deveríamos abandonar o conceito em nome da “anarquização”. De todo modo, é uma perda para nós que isto não tenha recebido atenção, pois considerando a maestria da autora, ganharíamos muito se ela também fosse aplicada a estes dois elementos, no contexto dessa abordagem.
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